Dá-me liberdade. Conto.

Amanhã Sasha completa dezoito anos.

E isso significa que a irmã vai buscá-la.

Ela tinha prometido, quando fugiu de casa quatro anos antes: acordou-a bem cedo e sussurrou num fôlego só:

— Comprei uma passagem para Ecaterimburgo.

Entreguei os documentos para lá, acho que vou passar.

Quando eles me encontrarem, eu já vou ter dezoito anos, e não vão poder fazer nada.

Aguenta firme, querida, me perdoa por te deixar, mas eu não aguento mais ficar aqui.

Vou te buscar, prometo que vou te buscar – assim que você fizer dezoito anos, eu venho atrás de você.

Antes disso, de qualquer jeito, eles não vão deixar você ir.

Sasha ouvia em silêncio e assentia com a cabeça.

Estranho, mas desde que Sasha ficou cega, ela também passou a falar pouco, como se a capacidade de falar estivesse de algum modo ligada à capacidade de ver.

Ela lembrava o rosto da irmã vagamente, e com certeza agora ele tinha mudado.

Afinal, a irmã agora já era completamente adulta.

E quando Sasha ficou cega, Lina tinha treze anos.

A última coisa de que Sasha se lembrava era o rosto da irmã, distorcido de horror: a pele cinzenta como cinzas, as pupilas tão dilatadas que os olhos azuis pareciam escuros.

A irmã já tinha fugido antes, mas daquelas vezes a encontraram e a trouxeram de volta.

E a colocaram sob vigilância, de modo que os pais tinham um motivo oficial para controlar cada passo de Lina.

Por isso, para a segunda fuga ela se preparou com cuidado: juntava dinheiro, escondendo-o não em casa, mas no oco de uma velha árvore que Sasha e Lina tinham descoberto na infância, quando brincavam de Nárnia; à noite, quando os pais proibiam acender a luz, estudava debaixo das cobertas com uma lanterna e passou nas provas melhor que todos da turma.

Só faltava roubar o próprio passaporte da mãe, e até isso ela conseguiu.

Para Sasha era mais difícil preparar a própria fuga, porque ela não enxergava nada.

E a mãe controlava cada passo seu, considerando-a uma inválida grave, embora Sasha não se sentisse assim.

— O que você quer ganhar de presente de aniversário, querida? – perguntava ela.

Ela queria dizer: dá-me liberdade.

Mas a mãe não entenderia.

E Sasha pedia um telefone.

Depois que Sasha ficou cega, os pais tiraram dela a liberdade.

Das melhores intenções, claro.

Sasha se lembrava de como o pai a abraçava.

E de como as mãos dele tremiam.

— Eu não posso te perder, – sussurrava ele. – Eu não vou aguentar isso.

Os pais já tinham perdido um filho antes de Sasha, e essa perda pairava sobre a família como uma nuvem escura.

Nunca se falava disso, mas todos sabiam que o nascimento de Sasha tinha salvado a mãe de uma depressão gravíssima.

E foi Sasha também que a empurrou de volta para essa depressão, por isso ela não se opunha quando a mãe dizia:

— Sashenka, não precisa, eu faço!

Essa frase agora perseguia Sasha.

Não a deixavam servir o próprio chá, com medo de que se queimasse, não a deixavam cortar o pão – «a faca é afiada, você vai se machucar».

A tentativa de ir sozinha ao banheiro terminava em pânico: a mãe pulava, agarrava-a pelo cotovelo e a conduzia, resmungando sem parar:

— Cuidado, aqui tem a porta, aqui o canto, eu te falei para me esperar!

Eles não entendiam que cegueira não é demência.

O corpo de Sasha lembrava a geometria do apartamento, as pernas sentiam a diferença entre o taco do quarto e o azulejo do corredor, as pontas dos dedos tinham aprendido a ler o mundo como se fosse braille – pela textura do papel de parede, pelos entalhes nos batentes das portas.

Mas a memória e as sensações dela não significavam nada para os pais.

Eles viam apenas uma boneca frágil, que era preciso segurar o tempo todo pelos fios para que não caísse e não se quebrasse.

A porta do banheiro perdeu a maçaneta pelo lado de dentro.

— Para você não se trancar sem querer e a gente não precisar arrombar a porta, – explicou o pai, parafusando no lugar um tampão cromado e liso.

Agora ela se lavava sob vigilância.

A mãe sentava num banquinho e lhe passava o gel de banho, o xampu, comentando cada movimento:

— Esfrega bem as costas… Lava o cabelo, estou vendo que ainda tem espuma.

Sasha ficava parada sob os jatos de água, sentindo-se não uma pessoa, mas um objeto de exposição, nua e indefesa.

A comida era uma humilhação à parte.

Nos primeiros tempos depois do hospital, davam comida na boca dela com colher, como a um bebê.

Ela cerrava os dentes e virava o rosto em silêncio, até que desistiram.

Mas o compromisso não era muito melhor: agora ela comia sozinha, mas apenas de um prato especial com bordas altas, e bebia de um copo plástico antivazamento.

— Assim é mais seguro, você não vai derramar nada em cima de si, – dizia a mãe.

Sasha odiava aquele prato.

Odiava o som desagradável da colher raspando o fundo, odiava o plástico morno do copo na mão.

Ela sonhava com uma taça de cristal, fria e tilintante, com porcelana fina e talheres comuns – coisas simples que para ela estavam proibidas.

O quarto de Sasha era a sua fortaleza, mas uma fortaleza desarmada.

Os pais tiraram de lá tudo que, na opinião deles, podia representar perigo.

Sumiu o abajur em forma de lua, porque era de vidro e podia se quebrar em cacos pontiagudos, desapareceram as molduras com fotografias e até os livros – antigos, queridos, cheirando a tinta de impressão e a tempo.

— Agora você não precisa mais deles, – disse a mãe.

No lugar deles, o pai trouxe uma caixa de som.

— Liga o que quiser, escuta.

Mas Sasha não queria ouvir as vozes dos outros.

Lina roubava livros da estante da sala e lia baixinho para Sasha, para que os pais não ouvissem.

Quando o pai um dia as pegou, ele açoitou Sasha.

— Ela precisa aprender o alfabeto braille! – gritava o pai. – E a culpa é sua!

Lina tentava defendê-la, mas sempre acabava apanhando por isso.

O pai podia dar um tapa na boca de Lina se ela dissesse algo como:

— Deixem-na em paz, ela não desaprendeu a comer e não perdeu o juízo.

Para que a irmã não fosse castigada, Sasha quase parou de sair do quarto.

Ela ficava sentada na cama, com as mãos no colo, e escutava.

Escutava, atrás da parede, o filho do vizinho aprendendo a tocar piano, desafinado e teimoso.

Escutava as gralhas gritando do lado de fora da janela e os carros passando, levando as pessoas para suas próprias vidas grandes.

Na mente, traçava rotas pela cidade de que se lembrava quando enxergava: da porta do prédio – para a direita, até a pracinha com castanheiras, depois pela passarela para pedestres, até o parque antigo onde, na infância, ela e Lina faziam barquinhos de papel navegarem no lago.

Todos esses anos ela fora uma cartógrafa, desenhando mapas de países inexistentes.

De um país chamado “Liberdade”.

E amanhã, no dia do seu décimo oitavo aniversário, o navio devia chegar.

O capitão do navio – a irmã, com um rosto que Sasha já não conseguia distinguir nem mesmo nas lembranças, mas com uma voz que soava dentro dela todos aqueles quatro anos.

Lina tinha prometido.

E ela nunca falava à toa.

Mesmo quando fugiu pela primeira vez e a trouxeram de volta, ela sussurrou no ouvido de Sasha:

— Aquilo foi só um ensaio geral.

Da próxima vez vai dar certo.

E ela conseguiu.

E isso significava que Sasha também conseguiria.

Ela se preparava.

Todos os dias ela “limpava” um pouco as gavetas.

A roupa íntima velha, de que não gostava, os moletons frouxos, os presentes de alguma das amigas da mãe – tudo isso ficava em seu lugar, criando a aparência de ordem.

Os verdadeiros tesouros ela separava e guardava todos juntos em um só canto, para depois poder enfiá-los de uma vez na bolsa: a camisa de flanela macia que Lina usava e que tinha deixado para ela “para dar sorte”, o livro sobre Nárnia que Sasha sabia de cor, fotografias que ela nunca seria capaz de ver.

Ela tinha preparado tudo isso para a própria fuga, e até o passaporte tinha conseguido esconder na mochila.

A manhã do aniversário começou como de costume: com a voz da mãe, que sempre irrompia no quarto sem bater.

— Bom dia para a nossa filha adulta!

Ela entregou a Sasha um presente – o telefone que Sasha pedia há tanto tempo.

Tinham tirado o telefone dela quando Lina fugiu de casa, não queriam que as irmãs se comunicassem.

Mas agora, com todos aqueles aplicativos que ajudavam a ler rótulos, vários assistentes de voz e assim por diante, Sasha tinha conseguido convencer os pais de que precisava de um telefone.

— Você pode usar o meu, – dizia a mãe.

Mas Sasha não queria usar o telefone da mãe.

Ela queria um só dela.

E era um milagre terem dado um a ela.

Ela passou o dia inteiro sentada à janela da sala.

Os pais se agitavam ao redor, arrumando a mesa, mas Sasha mal os ouvia.

Ela esperava a irmã vir buscá-la.

E enquanto esperava, a memória, como um rolo de filme, começou a projetar diante dos seus olhos interiores as cenas mais assustadoras.

O pai.

Pai para Sasha, estranho para Lina.

Do pai verdadeiro de Lina ela não se lembrava.

Mas nem o padrasto se tornou realmente um pai para ela.

Ela se lembrou de quando Lina, ainda adolescente, quebrou a xícara preferida da mãe.

Sem querer, a esbarrou com o cotovelo enquanto tirava a mesa.

— Mãos de gancho! – trovejou o pai. – Você não consegue fazer nada direito!

Naquele momento, ele não a bateu.

Pegou-a pelo pulso com tanta força que, na manhã seguinte, surgiram hematomas, e a arrastou para o quarto.

— Vai ficar sentada sem jantar e sem luz! Para aprender!

Sasha ouvia a irmã chorando baixinho atrás da parede.

A mãe, enquanto isso, lavava a louça na cozinha, batendo com força as portas dos armários.

Ela nunca defendia Lina.

Nunca.

E depois veio aquele dia.

Aquele dia terrível, decisivo, no terreno baldio.

Lina, radiante, com um ar misterioso:

— Sash, vamos, comprei uma surpresa para você!

Vamos fazer um verdadeiro show de fogos!

Elas estavam tão felizes, tão despreocupadas.

A primeira “bombinha” explodiu com um estalo alto e divertido.

A segunda…

A segunda era defeituosa.

Um baque surdo, um clarão branco, uma dor cortante e o rosto assustado da irmã.

Depois disso, para Lina começou o inferno.

Qualquer falta – lições não feitas, coisas espalhadas, dez minutos de atraso – era punida com dureza.

O pai inventava “castigos”.

Podia obrigá-la a esfregar o chão do banheiro com uma escova de dentes.

Podia amarrar a mão dela ao pé da cama pesada por algumas horas.

Certa vez, quando Lina “ria alto demais”, ele despejou um balde de água gelada sobre ela.

— Para você esfriar, – disse ele.

E a mãe…

A mãe ficava calada.

Sasha fechou os punhos.

Naquele momento, ela os odiava.

Odiava o pai pela crueldade.

Odiava a mãe pela fraqueza.

E mais do que tudo, odiava a si mesma por aquela cegueira que a tornara uma refém impotente.

A noite caiu sobre a cidade.

Os convidados tinham ido embora.

Os pais, satisfeitos e cansados, já tinham arrumado a mesa.

— E então, aniversariante, o dia foi bom? – perguntou o pai, dando-lhe um tapinha no ombro.

Nesse momento, a campainha tocou.

O coração de Sasha parou, depois começou a bater com tanta força que ela ficou quente.

Ela se levantou, sem esperar que os pais fossem.

Ela sabia que era Lina.

— Eu vou abrir, – disse, e a voz não tremeu.

Sasha atravessou o corredor, os dedos encontraram o trinco e a corrente.

Ela os soltou e girou a maçaneta.

Da porta soprou um vento gelado, cheiro de perfume caro e de liberdade.

— Oi, maninha, – disse uma voz conhecida, mas amadurecida. – E então, pronta para a viagem?

Sasha se estendeu em direção à voz para abraçar a irmã, mas as mãos afundaram em algo denso e viscoso, como se fosse um tanque de gelatina.

E nesse momento ela acordou, na mesma poltrona da sala.

Na casa estava silêncio.

Silêncio demais.

Nenhuma voz, nenhum passo.

Apenas o zumbido constante da geladeira na cozinha.

A noite do aniversário estava chegando ao fim, e Lina…

Lina não tinha aparecido.

Um horror frio e surdo começou a subir em direção à garganta.

Talvez tivesse acontecido algo com ela?

Um acidente?

Ela tivesse ficado doente?

Como descobrir isso?

Era preciso dar um jeito no telefone que tinha ganhado de presente e encontrar Lina nas redes sociais.

Mas de um jeito que a mãe não soubesse.

Sasha se levantou, com as pernas tremendo percorreu o caminho conhecido do quarto até o corredor.

E ela quase tinha chegado à porta do próprio quarto, quando ouviu vozes abafadas.

Os pais não dormiam.

Falavam atrás da porta fechada do quarto deles, mas no silêncio da noite as palavras soavam nitidamente.

— Olha só como a sua filha vive! – na voz do pai surgiu aquela nota ácida de desprezo que Sasha conhecia bem. – Turquia, iate, coquetéis caros.

Sasha ficou imóvel, agarrando-se ao batente com os dedos.

Turquia?

Um iate?

— E você viu aquele homem?

Ele tem a minha idade!

Ela se vendeu inteira para ele.

É uma devassa, é isso que ela é.

Sempre foi estragada.

Vive sem casamento, esse é o seu tipo de educação, é?

Eu não vou deixar você estragar a minha filha!

Ela não vai ter telefone nenhum!

O mundo de Sasha desabou.

Não apenas se quebrou em pedaços, mas se esfarelou em um pó miúdo e venenoso.

Ela nem ouviu o que a mãe respondeu.

Nos ouvidos só havia um zumbido ensurdecedor.

Não um acidente.

Não uma doença.

Não um impedimento intransponível.

Simplesmente a tinha esquecido.

As lembranças que antes pareciam a Sasha prova da coragem e da sede de liberdade da irmã agora ganharam um novo sentido, disforme e monstruoso.

As fugas, as atitudes ousadas, a recusa em obedecer…

E se o pai estivesse certo?

E se não fosse sede de liberdade, mas apenas depravação?

Sasha se virou devagar, como uma sonâmbula, e voltou para o quarto.

Ela não chorava.

As lágrimas eram para os vivos, e dentro dela tudo tinha morrido.

Ela chegou até a cama e sentou, as mãos no colo.

Depois, os dedos encontraram o plástico duro do novo telefone que haviam dado a ela pelos dezoito anos e que no dia seguinte iriam tirar – ela já tinha entendido.

Sasha o atirou longe e começou a chorar.

Pela primeira vez em muito tempo, chorou.

Ela não percebeu quando adormeceu.

Acordou não por causa de barulhos, mas por causa de um peso esmagador sobre o peito, como uma lápide de pedra.

A memória voltou em um instante, junto com uma dor surda e latejante nas têmporas.

Lina não estava.

A promessa tinha sido mentira.

O mundo além das paredes de casa não a esperava de braços abertos.

Era tão frio e indiferente quanto aquela manhã de novembro.

Ela ficou deitada de olhos abertos, olhando para a escuridão habitual, e esperou a mãe trazer o café da manhã.

Esperou que a porta se abrisse e o ritual sufocante de sempre se repetisse mais uma vez.

Mas então, na consciência dela, como um relâmpago, surgiu um pensamento simples e óbvio: «Tenho dezoito anos. Sou adulta. Não preciso da Sasha».

Ela se levantou da cama.

Em vez de esperar a mãe escolher a roupa para ela, foi até o guarda-roupa e, apalpando, encontrou um moletom com capuz e um jeans velho.

Quando saiu para o corredor, a mãe estava justamente colocando na mesa o prato especial dela.

— Sashenka, você já acordou?

Vem, fiz mingau para você…

— Eu não vou comer mingau, – disse Sasha, baixa, mas claramente.

— Como assim? Você está doente? – a mãe foi até ela na mesma hora, tocou-lhe a testa.

Sasha se afastou.

— Não.

Eu não quero mingau.

Eu vou sair para passear.

— Passear? – a mãe pronunciou essa palavra como se a ouvisse pela primeira vez. – Sashenka, que isso?

Lá fora está tudo congelado!

Está frio, você vai pegar um resfriado!

Está pouco agasalhada…

Deixa eu pelo menos te servir um chá?

— Eu tomo chá depois.

Agora eu quero sair.

Sozinha.

— Sozinha? – a voz da mãe subiu para uma nota aguda e assustada. – Você enlouqueceu!

Você não enxerga nada!

Vai se perder, cair, um carro vai te atropelar!

Não, de jeito nenhum!

É impossível!

Antes, essas palavras, esse medo histérico, caíam sobre Sasha como uma coberta pesada, obrigando-a a encolher e obedecer.

Mas hoje Sasha era diferente.

— Mamãe, – Sasha deu um passo à frente. – Eu tenho dezoito anos.

Sou maior de idade.

Tenho o direito de sair de casa.

Tenho o direito de decidir se vou ou não passear.

— Que direitos?

Eu sou sua mãe!

Eu sou responsável por você!

Você não entende em que situação está!

— Entendo, sim.

Eu sou cega.

Mas não sou idiota.

E não sou prisioneira.

Ela vestiu o casaco acolchoado e as botas.

Sozinha, sem a ajuda da mãe.

Depois foi até a entrada, onde, ao lado do móvel de sapatos, estava sua bengala.

— Sasha, para!

Eu não deixo! – na voz da mãe já não havia só medo, mas também mágoa e raiva. – Eu fiz tudo por você!

Eu dediquei toda a minha vida a você!

— Eu vou dar uma volta e volto, – disse Sasha. – Ou você vai me segurar à força?

Em resposta, ela ouviu apenas um soluço baixo, quebrado.

A mãe não respondeu.

Apenas recuou um passo, deixando-a passar.

Sasha puxou a maçaneta da porta, girou a fechadura.

A porta se abriu com um rangido leve.

A primeira lufada de ar a queimou.

Tinha cheiro de neve, de gases de escapamento e de algo parecido com liberdade.

E aquele ar frio e cortante da liberdade era para ela mais precioso do que todas as promessas quentes do mundo…