Levanta, anda esfregar o chão!
— Essa criança não serve pra nós — disse friamente o marido.

— Ainda bem que na gravidez passada houve um aborto espontâneo: se tivesse nascido, só teria sofrido.
A gente não tem nem um pedaço de pão, moramos na casa da sua mãe, e você continua parindo como se isso não fosse vida, mas um coelhário!
Já chega de estragar a minha existência!
Decide: ou eu ou a sua barriga!
Tudo desandou trinta anos atrás.
Até hoje não consigo perdoar a mim mesma por aquele “amor” cego.
Lembro que as pessoas me avisavam: não confie no primeiro que aparecer…
Mas a juventude ouve palavras sábias?
Nunca.
Eu trabalhava tranquila na central telefônica, até que esse Romeu irrompeu na minha vida, um técnico de comunicações de uma unidade militar local.
No começo ele ligava por assunto de serviço: havia algum problema na linha, precisava de ajuda.
Eu explicava tudo de forma clara, segundo as instruções, ele agradecia e desligava.
Mas o rapaz era educado: sempre com “obrigado” e “por favor”.
Aos poucos as conversas foram ficando mais longas.
Falávamos sobre o tempo, sobre filmes, sobre a vida em geral.
Um dia, de repente, ele diz ao telefone:
— Sveta, que tal a gente se encontrar?
Tomar um café?
Fiquei sem jeito.
Encontrar alguém que eu nunca tinha visto?
É verdade que a voz dele era agradável, mas… era tudo tão inesperado.
— Não sei… — murmurei, insegura — é tudo meio estranho.
— Ah, deixa disso — ele riu —, o que você tem a perder?
No máximo uma xícara de café.
Pensei: é mesmo, o que eu tenho a perder?
Aceitei.
E lá estava eu, em frente ao cinema “Mir”, como se fosse prestar um exame.
Vou andando — e ele vem na minha direção: alto, magro, com um sorriso deslumbrante.
Meu coração deu um salto: entendi que estava perdida.
Fomos a um café, começamos a conversar — e descobrimos que tínhamos tanta coisa em comum: gostávamos dos mesmos filmes, líamos livros parecidos.
O tempo voou como um instante.
Depois de seis meses ele ia embora.
Eu quase chorava: já tinha me acostumado com ele.
Ele prometeu:
— Sveta, eu venho te buscar.
Vou te levar pra Moscou.
Você vai viver como uma rainha.
Eu, claro, acreditei.
Quem não acreditaria?
Jovem, ingênua, apaixonada.
E ele realmente apareceu — como tinha prometido, com uma mala e um buquê de rosas.
Com os meus pais se entendeu rápido.
Mamãe chorava: a filha única ia embora.
Papai apertou forte a mão dele e disse:
— Olha, não faça ela sofrer.
Se machucar minha filha, eu vou aí e arranco a sua cabeça.
Romka só sorriu:
— Que é isso, seu Kolya!
Vou carregar a Sveta nos braços.
Eu acreditei.
Ah, como eu fui tola…
Chegamos a Moscou.
No começo parecia um conto de fadas.
Ele tinha um apartamento próprio, ainda que minúsculo.
Arrumei trabalho rápido, na minha área.
Romka realmente me carregava nos braços.
Mas o conto de fadas não durou muito.
O primeiro sinal de alerta veio quando conheci a mãe dele, tia Zina.
Uma verdadeira víbora!
Desde o primeiro olhar ela não gostou de mim.
Pelo visto sonhava com outra nora: moscovita, com apartamento e carro.
E acabou com quem? Comigo, uma garota do interior.
— Então, Svetochka — disse ela com voz doce como mel —, está se adaptando à capital?
Deve ser difícil depois do seu vilarejo, não é?
Fiquei calada.
O que eu ia responder?
Não queria brigar.
Bem nessa hora Romka tinha saído do cômodo.
— Até que está tudo bem — tentei ser educada —, vou me acostumar.
— Vai se acostumar, claro — fungou ela —, vai fazer o quê?
Mas olha lá, não vai virar peso pro meu Romka.
Ele é filho único, tem que fazer carreira.
Você ainda dá tempo de ter um monte de filhos, amarar ele e ficar sugando o dinheiro!
Que isso não aconteça!
Fiquei vermelha de vergonha.
Que filhos?
A gente nem era casado ainda!
— Não se preocupe, tia Zina — falei, me segurando —, eu sei me virar sozinha.
Ela só fez uma careta.
Daquele dia em diante começou o meu inferno.
Tia Zina se metia em tudo: ligava, aparecia sem avisar.
Se eu cozinhava — estava errado, se me vestia — não era “moderno”, no geral — não era par pro querido Romochka dela.
No começo Roma me defendia, dizia que me amava, que eu era boa.
Mas a mãe não desistia: dia após dia, corroía a cabeça dele.
— Você foi buscar sabe-se lá quem! — choramingava —, Roma, onde você achou essa aí?
Você é moscovita, estudado, e ela é uma caipira!
No início ele tentava me defender, pedia pra mãe não me insultar.
Mas água mole em pedra dura… logo ele ficou irritado, cheio de implicâncias, passou a demorar mais no trabalho.
Depois começou a chegar bêbado em casa.
Um dia, depois de mais uma briga com a mãe, voltou destruído por dentro.
Tentei conversar, acalmá-lo, e ele explodiu de repente:
— Me deixa em paz!
Vocês duas me encheram!
Sapos!
Eu odeio vocês!
Fiquei muda.
Não esperava isso.
— Roma, por quê? — perguntei com a voz trêmula — o que eu te fiz?
Ele só fez um gesto com a mão e foi dormir.
No dia seguinte pediu desculpas: disse que estava bêbado, que não lembrava de nada.
Mas as palavras tinham sido ditas — e a mágoa ficou.
Talvez ali eu devesse ter ido embora…
Mas eu sou mulher, não consigo largar o homem que amo.
Ah, como fui tola…
Assim foram passando os anos.
Tia Zina pressionando, Roma explodindo, depois se arrependendo.
E eu suportando.
Porque o amava — mais do que a própria vida.
Depois de três anos, engravidei.
Naquela época fiquei tão feliz.
Achei que isso pudesse nos aproximar.
Talvez a sogra amolecesse ao saber que teria um neto.
Pois é, eu sonhava…
Quando soube da gravidez, tia Zina teve um ataque histérico:
— Pra que você precisa disso?
Vai estragar a vida dele toda!
Ele é jovem, tem que construir carreira!
E você com criança!
Eu avisei pra não parir feito louca!
Coelha desgraçada!
Roma estava de lado, calado.
Ficava olhando a mãe gritar comigo.
Eu não aguentei: me virei e saí.
Nem sei pra onde fui.
Só andava e chorava.
Assim começou a minha “vida de casada”…
Mas voltei pra ele.
Ir pra onde?
Moscou é uma cidade estranha, eu não tinha parentes ali.
Não tinha escolha.
Pra minha surpresa, Roma de repente reviveu: me pediu em casamento, disse que me amava mais que tudo.
Nos casamos.
Se é que dá pra chamar aquilo de casamento: um almoço simples num café.
Mamãe veio com meu irmão para me apoiar.
Papai não pôde — não liberaram ele do trabalho.
Do lado dele — ninguém.
Nem alma viva!
A sogra disse que estava ocupada: tinha comemoração na casa de uma amiga, o oitavo marido da amiga tinha morrido.
E ela “tinha” que estar lá.
Mamãe, claro, ficou magoada.
Tentou não demonstrar, mas a mágoa era visível.
O que se pode fazer?
Não dá pra obrigar uma pessoa a aparecer.
Depois do casamento fomos morar com os pais dele — decidiram alugar o quitinete que tinham.
Fui parar justamente naquele apartamento que virou meu pesadelo.
Três quartos, sim.
Mas o nosso era o menor, uns quatorze metros, não mais.
Os outros eram dos pais e da irmã mais nova, a Lilka.
Assim que cruzei a porta, tia Zina já deixou claro quem mandava ali:
— Então, Svetochka, vai se ajeitando.
Mas nem pense em mexer nas minhas coisas.
E mais: nada de querer mudar as coisas por aqui.
Esta é a nossa casa, e as regras aqui são nossas.
Eu fiquei calada.
Não dava pra brigar logo no primeiro dia.
Roma estava ali, com cara de culpado, sem dizer palavra.
No nosso quarto tinha um sofá velho, uma mesa, duas cadeiras, um armário.
Zero aconchego.
À noite, mamãe veio falar comigo:
— Sveta, talvez seja melhor não.
Vamos embora?
Amanhã a gente volta pra casa…
Eu caí no choro.
— Mãe, pra onde eu vou?
Eu amo ele.
E já é tarde — estou grávida.
Mamãe suspirou:
— Está bem, filha.
Mas saiba: se acontecer qualquer coisa, eu sempre vou estar do seu lado.
Você foi parar numa família complicada…
Assim começou a minha vida numa eterna “comunidade”.
Tia Zina me odiava — isso era óbvio.
Implicava com tudo: como eu cozinhava, como lavava, como limpava.
— Mas afinal o que você sabe fazer? — resmungava — só ocupa espaço!
Roma tentava me defender, mas a mãe logo cortava:
— Cala a boca, Roma!
Não defende ela, não!
Ela está é pendurada no seu pescoço!
Lilka, a irmã mais nova, também me tratava de cima pra baixo.
Com um sorrisinho irônico perguntava:
— E onde foi que você fisgou ele?
Como é que ele foi parar no seu fim de mundo?
Eu tentava não ligar.
Cuidava das tarefas, esperava o bebê, tentava fazer daquela situação um pouco de vida normal.
Mas a cada dia ficava mais pesado.
Quando entrei no terceiro mês de gravidez, tia Zina levantou a mão pra mim pela primeira vez.
Tudo começou porque eu deitei pra descansar: minha pressão tinha subido, a cabeça girava.
Eu estava deitada na cama, olhos fechados, tentando me recompor.
Ela entrou no quarto esbravejando:
— Que é isso, está deitada aí como se fosse uma rainha no trono?
Você não tem mais nada pra fazer?
Levanta, vai lavar o chão!
Eu não aguentei:
— Por que você me trata assim? — perguntei, chorando — o que foi que eu te fiz?
— Você não entende sozinha? — gritou ela — por sua culpa o Roma acabou com a vida dele!
Ele podia ter casado com uma moça normal, moscovita, com apartamento, com futuro!
E você… olha só, essa rã barriguda!
E então — pá! — um tapa no rosto.
Nem tive tempo de reagir: meu rosto ardia, as lágrimas correram sozinhas.
Nesse momento Roma entrou no quarto.
— Mãe, o que foi agora? — ele perguntou, cansado.
— O quê? — guinchou ela — só estou dizendo a verdade!
Olha pra ela — deitada aí como uma senhora, barriga pro alto!
E tudo deveria ser como antigamente: o marido trabalhando, a esposa cuidando da casa!
Romka ficou vermelho.
— Chega, mãe! — levantou a voz.
— Ah, chega?! — gritou ela — eu te dei a vida inteira!
E você… você…
Nesse momento eu agarrei a barriga com a mão: uma dor aguda atravessou meu corpo inteiro.
— Roma… — sussurrei — estou passando mal…
Muito mal…
Ele correu até mim, me pegou nos braços.
— Mãe, chama uma ambulância! — gritou.
Ela só abanou a mão:
— Chama você!
Eu não tenho tempo!
Romka saiu correndo do apartamento comigo nos braços.
Eu sentia o corpo gelar, como se algo estivesse se rasgando por dentro…
A ambulância acabou sendo chamada.
No hospital, o diagnóstico: ameaça de aborto espontâneo.
Fiquei internada para tentar segurar a gravidez.
Roma ia todos os dias, me olhava com culpa, pedia perdão.
Dizia que me amava, que a mãe tinha “virado a cabeça dele”.
Mas tia Zina não parou.
Mesmo depois de quase ter perdido o neto, continuou indo ao hospital e fazendo escândalo no quarto:
— O que você está fazendo aí deitada como uma madame? — gritava — tem que trabalhar, não engordar às custas dos outros!
As enfermeiras a colocavam pra fora, mas ela conseguia despejar tanto veneno em mim que, depois das visitas dela, eu ficava tremendo na cama.
Roma, quando ficava sabendo, aparecia com os olhos inchados.
— Sveta, me perdoa… — sussurrava — eu não sei o que fazer com ela.
Tenho medo dela.
Foi aí que, pela primeira vez, eu realmente olhei pra ele — e entendi: aquilo não era um marido.
Era um menino preso na dependência da mãe.
Fraco, assustado, incapaz de proteger até a si mesmo.
Depois da alta, voltei pro mesmo apartamento.
Nada tinha mudado.
Tia Zina mandava, Lilka zombava, Roma ficava calado.
A minha vida virou um pesadelo sem fim.
Eu trabalhava, limpava, cozinhava.
Mas precisava cozinhar de noite: de dia a sogra não me deixava em paz, rondava a cozinha como se tivesse medo de eu estragar alguma coisa.
E à noite, quando a família inteira se sentava à mesa, não havia lugar pra mim.
Eu ficava sozinha no nosso quartinho, ouvindo as risadas deles e chorando.
Roma ficava cada vez mais duro.
Começou a gritar comigo por qualquer bobagem, a me culpar por tudo: pelos problemas dele com a mãe, pelos fracassos no trabalho, pela falta de felicidade.
— É tudo culpa sua! — berrava — por sua causa a minha vida está desabando!
Depois aconteceu o pior: perdi o bebê.
A dor que eu carregava por dentro e o ódio que caía sobre mim todo dia me alcançaram.
Eu chorava de noite, e eles, pelo visto, até ficavam satisfeitos.
Nenhuma palavra de consolo.
Nenhum olhar acolhedor.
Seis meses depois do aborto, engravidei de novo.
No começo, meu coração voltou a bater cheio de esperança.
Talvez fosse uma chance.
Talvez tudo mudasse.
Mas depois me lembrei dos gritos, das humilhações, do aperto, da dependência de Roma da mãe — e entendi: nada ia mudar.
Só se repetiria a mesma tortura.
Contei a ele sobre a gravidez.
Ele ficou em silêncio.
Por muito tempo.
Depois soltou um suspiro:
— Esse filho não serve pra nós.
Fiquei imóvel.
— Como assim? — sussurrei — é o nosso…
— Nosso? — ele me interrompeu — a gente não tem nem onde morar!
Não tem o que comer, não tem dinheiro.
Você não vê?
— Mas é uma vida… — comecei.
— Sem “mas”! — ele cortou. — Faz um aborto.
Comecei a chorar.
— Eu não vou fazer isso nunca! — gritei. — É o meu filho!
— Então eu vou embora — disse calmamente. — Escolhe: ou ele ou eu.
Olhei nos olhos dele — e não vi amor nem compaixão.
Só frieza, cálculo e indiferença.
Andava pelo quarto, gritava, implorava pra ele lembrar quem era, o que era, pedia que pelo menos tentássemos viver separados, que ele parasse de ser marionete da mãe.
Mas ele ficava ali, feito pedra.
No fim, eu quebrei.
Me rendi.
Reneguei o meu corpo.
Reneguei o futuro.
Reneguei a mim mesma.
Depois disso, entre nós acabou tudo.
Morávamos sob o mesmo teto, mas éramos estranhos.
Não conversávamos, não nos olhávamos.
Apenas existíamos, como sombras.
A dor física e a dor da alma se fundiram num só bolo de desespero.
Como eu pude?
Como ele pôde?
Por que eu permiti?
Não havia respostas.
Algumas semanas depois, entrei com o pedido de divórcio.
Roma nem tentou impedir — pra ele tanto fazia.
Talvez já estivesse procurando outra “noiva”: moscovita, com “documentos”, sem passado.
O divórcio saiu rápido.
Juntei minhas coisas e fui embora.
Escrevi pra minha mãe, pedi ajuda pra comprar a passagem.
Ela respondeu na hora, pegou dinheiro emprestado e mandou pra mim.
Chorando ao telefone, contei tudo.
Mamãe disse que eu tinha feito a escolha certa.
E acrescentou que uma amiga tinha contado que numa unidade militar no sul estavam contratando civis pro setor de comunicações.
Eu não pensei duas vezes.
Arrumei a mala — e parti.
A nova cidade me recebeu com silêncio e ar fresco.
Depois do barulho de Moscou e dos gritos de tia Zina, aquele silêncio era como remédio.
O trabalho era o mesmo de antes, na central, mas as pessoas eram gentis, tranquilas.
Eu morava em um alojamento, quarto pra duas pessoas.
Minha companheira de quarto era tia Galya, cozinheira do refeitório.
Boazinha, cuidadosa.
Quando soube da minha história, logo me tomou sob sua proteção.
— Não desanima, filha — ela dizia — a vida está só começando.
Tudo vai dar certo.
Eu sorria, mas por dentro estava vazia.
Até aparecer Miron, um tenente jovem.
Alto, com olhos bondosos, um sorriso que derretia o coração.
Logo começou a demonstrar interesse: convidava pro cinema, pra passear, caminhava ao meu lado.
No começo eu recusava.
Tinha medo.
Medo de confiar de novo e me quebrar outra vez.
Mas ele era insistente, sem ser chato.
Aos poucos comecei a acreditar que a vida podia ser gentil.
Que dava pra voltar a sorrir, a rir, a sonhar.
Um dia, depois do cinema, ele me acompanhou até o alojamento e de repente disse:
— Sveta, casa comigo.
Fiquei sem fala.
— O quê?
— Casa comigo — repetiu, olhando direto nos meus olhos. — Eu te amo.
Eu não sabia o que dizer.
Ele era uma boa pessoa.
Bom, honesto, forte.
Talvez até perfeito.
Mas por dentro eu tinha medo: medo de me perder de novo, de perder tudo outra vez.
— Eu não sei… — sussurrei. — É tudo tão rápido…
— Não tem problema — disse ele. — Pensa.
Eu espero.
Naquela época minhas férias estavam pra começar — era hora de ir pra casa.
— Te dou a resposta depois da viagem — falei.
Ele fez que sim:
— Espero.
E lá estava eu no trem.
Do lado de fora, campos, florestas, vilas.
Eu pensava no Miron.
No pedido dele.
No que me esperava em casa: mamãe, papai, as ruas antigas, as lembranças… quase todas pesadas.
E no que me esperava adiante: um novo trabalho, uma nova cidade, uma nova pessoa.
E — o mais importante — uma chance.
Uma chance de recomeçar.
Uma chance de ser feliz.
O trem se aproximava devagar de Moscou.
Sim, o caminho pra casa passava pela capital — a cidade da qual, poucos meses antes, eu queria tanto fugir.
Decidi que passaria na casa da Lenka, minha velha amiga.
Tínhamos trabalhado juntas na central, antes do meu casamento.
Pra mim ela sempre foi como uma irmã.
Eu sabia que ela ia me ouvir, não me julgar, me apoiar e talvez me ajudar a entender o que fazer.
Cheguei na casa da Lenka — assim que me viu, ela correu pra me abraçar, quase chorando.
— Svet, como você está? — perguntou, me apertando forte nos braços. — Eu estava tão preocupada com você!
— Mais ou menos viva, Len — sorri, não muito sinceramente.
Entramos.
Aconchego, limpeza, calor — dava pra sentir que ali a dona amava a casa.
Nos sentamos à mesa da cozinha, tomamos chá, e eu, como numa confissão, derramei tudo — toda a minha dor, humilhações, perdas, esperanças e medos.
Lenka ouviu com atenção, sem interromper, só balançando a cabeça.
— E agora, o que você vai fazer? — perguntou quando eu parei.
— Não sei, Len — suspirei. — Tenho medo.
E se esse Miron for igual ao Romka?
— Ah, para com isso! — ela fez um gesto. — Nem todos os homens são iguais.
Você mesma disse que ele é bom, cuidadoso.
E a vida é uma só.
Tem que tentar!
Ficamos conversando até tarde da noite, desabafando, chorando juntas.
De manhã, segui para minha cidade natal.
Em casa, meus pais e meu irmão me esperavam.
Ficaram felizes com a minha chegada: mamãe logo me abraçou, quis saber como eu estava, me enchia de comida como se tivesse medo que eu desaparecesse.
— Filha, você emagreceu demais — dizia, olhando nos meus olhos.
— Está tudo bem, mãe — eu sorria —, só estou um pouco cansada.
Contei sobre o novo trabalho, sobre o Miron.
Mamãe ouviu calada, enquanto meu irmão quase pulava de alegria.
— Então, mana, manda ver! — ele me deu um tapinha no ombro. — Casa com ele!
Chega de sofrer sozinha!
Eu só respondi com um sorriso.
Mas uns dias depois, aconteceu algo que eu nem imaginava…
De manhã cedo, a campainha tocou.
Mamãe abriu — e na porta estava… o Romka.
Quase desmaiei.
O que ele estava fazendo ali?
Como me encontrou?
Ele estava ali encolhido, cabeça baixa, olhos vermelhos.
Parecia um cachorro surrado.
— Sveta… — a voz tremia — me perdoa, por favor.
Mamãe ficou sem reação.
Olhava pra mim, depois pra ele, sem entender nada.
— O que você quer? — perguntei, com o coração disparado.
— Eu sei de tudo — disse ele —, do seu trabalho, do Miron…
A Lenka me contou.
Quase engasguei de raiva.
Que traidora!
“Amiga”, só que não!
— E daí? — perguntei friamente. — O que você tem a ver com isso?
— Eu te amo, Sveta — e de repente caiu de joelhos —, eu fui um idiota, cego.
Me perdoa, eu entendi tudo.
Mamãe continuava em silêncio.
Nos olhos dela, só desprezo.
— Vou me divorciar dessa mulher — disse Romka (pelo jeito, ele tinha se casado nesses seis meses!) —, vou dividir o apartamento com os meus pais.
A gente vai morar separado, como uma família normal.
Só volta pra mim…
Eu não consigo viver sem você.
Ele começou a chorar, como uma criança.
Contou que tinha dado o quitinete pra Lilka, que a mãe o tinha obrigado a casar com a filha de uma amiga.
Eu olhava pra ele e… sentia pena.
Pena daquele homem destruído.
Mas perdoar?
Não.
Nunca esqueceria aquele aborto, as humilhações, a dor.
— Levanta, Roma — falei. — Acabou.
Não dá pra voltar atrás.
— Não! — gritou. — Eu não saio daqui até você me perdoar!
Ele se jogou aos meus pés, começou a beijar meus joelhos.
Mamãe não aguentou:
— Levanta, canalha! — gritou, empurrando-o. — Não se atreva a tocar na minha filha!
Você acabou com a vida dela!
Cai fora daqui antes que eu chame a polícia!
Roma se levantou devagar.
Olhou pra mim com esperança.
— Sveta — disse —, me dá uma chance.
Eu fiquei calada.
Ele se virou pra minha mãe, ajoelhou-se diante dela:
— Me perdoa, tia Masha…
A culpa é minha.
Eu era cego.
Me dá uma chance de consertar tudo…
Mamãe olhou pra ele com um desprezo gelado.
— Vai embora — disse. — Você não é digno dela.
Ele se levantou, me lançou um último olhar — e foi embora.
Fiquei olhando as costas dele.
Por dentro, pena e repulsa lutavam uma contra a outra.
Naquele momento entendi: eu o tinha perdoado.
Mas voltar — nunca.
À noite liguei para o Miron.
— Miron — falei —, eu aceito.
Vou me casar com você.
Do outro lado da linha houve um segundo de silêncio.
Depois ouvi a voz dele, feliz, trêmula de alegria:
— Sveta!
Estou tão feliz!
Eu te amo!
Naquele momento senti que tudo ia dar certo.
Não podia ser diferente.
Tomei a decisão: ia me casar com o Miron.
Achei que era a minha chance de ser feliz.
Mas o destino decidiu de outro jeito.
Depois da minha ligação, o Romka apareceu de novo.
Praticamente passou a morar debaixo da nossa janela: sentado no banco, me vigiava como uma sombra.
Mamãe brigava com ele, meu irmão ameaçava bater, e eu tentava não olhar, não notar.
Mas aquilo não podia continuar.
Um dia, quando eu voltava do mercado, ele correu até mim:
— Svet — agarrou meu braço —, fala comigo, por favor!
Tentei me soltar, mas ele segurava forte.
— Me solta, Roma.
A gente não tem mais o que conversar.
— Tem, sim! — gritou. — Eu quero consertar tudo!
Quero ficar com você!
— Você chegou tarde — falei. — Vou me casar com outro.
— Com aquele polaco? — os olhos dele se acenderam de ódio.
— Sim.
Com ele.
Ele soltou minha mão, deu um passo pra trás.
E de repente disse:
— Eu não vou te deixar.
Nem a lugar nenhum.
Nunca.
Nos olhos dele vi algo assustador: loucura, obsessão.
Fiquei realmente com medo.
— Me deixa, Roma — fui recuando, tremendo —, eu vou chamar a polícia!
Ele ficou calado.
Só me olhava.
E então vi que ele tirou uma faca do bolso.
Gritei e saí correndo.
Ele veio atrás de mim.
Eu corria o mais rápido que podia, mas ele estava chegando perto.
E de repente — como um milagre — meu irmão apareceu.
Viu tudo e se jogou em cima do Romka.
Começou uma briga.
Roma balançava a faca, meu irmão tentava desarmá-lo.
Eu fiquei ali, gritando, sem saber o que fazer.
No fim, meu irmão conseguiu derrubar a faca, empurrá-lo pro chão e começou a bater nele.
Eu me joguei em cima do meu irmão:
— Chega!
Você vai matar ele!
Meu irmão parou, ofegante.
— Ele queria te matar, Svet! — gritou. — Chama a polícia antes que ele fuja!
Os policiais chegaram.
Levaram o Romka.
Depois disso entendi que ficar em casa era perigoso.
Quem sabe o que podia passar pela cabeça do meu ex?
E se a tia Zina aparecesse?
Ela era capaz de tudo.
Arrumei minhas coisas e fui pra casa do Miron — direto pra onde minha nova fase deveria começar.
Miron me esperava na estação com um buquê de flores do campo.
Me abraçou forte e disse:
— Estou tão feliz que você tenha vindo.
Nos casamos um mês depois.
Simples, em casa, mas cheio de carinho.
Só os mais próximos: amigos, tia Galya.
No começo, tudo correu bem.
Miron me amava, cuidava de mim e, de fato, como tinha prometido, me carregava nos braços.
Eu trabalhava na central, estudava polonês, tentava entrar naquela nova vida.
Depois começou…
Ele passou a beber.
No começo raramente, em festas.
Depois, cada vez mais.
E quando bebia, se transformava.
Ficava agressivo, maldoso.
Gritava, xingava, às vezes levantava a mão.
Eu tentava conversar, implorava, pedia — em vão.
— Não se mete no que não é da sua conta! — berrava. — Me deixa em paz!
Eu tinha voltado pro inferno.
Só que dessa vez com outro homem, mas com as mesmas lágrimas, o mesmo medo, a mesma solidão.
Alguns anos depois, engravidei.
Miron ficou feliz — parecia que a chegada do bebê iria mudá-lo.
Mas o milagre não aconteceu.
Depois do nascimento do nosso filho, ele começou a beber ainda mais.
Não ajudava, não trabalhava, só gritava, exigia, botava a culpa de tudo em mim.
Eu fiquei sozinha.
Com um filho no colo, sem dinheiro, sem apoio.
Mas eu tinha que sobreviver.
Pelo meu filho.
Comecei a trabalhar em dois empregos: de dia na central, de noite como faxineira.
Era insuportavelmente difícil.
Mas eu aguentava firme.
Meu filho crescia — ele virou a minha alegria, o meu sentido.
Minha esperança num futuro melhor.
Miron se transformou num homem caído, lamentável.
Me divorciei dele quando nosso filho fez cinco anos.
Ele não reclamou — tanto fazia.
Criei meu filho sozinha.
E, graças a Deus, ele cresceu bom, honesto, forte.
Hoje trabalha, me ajuda.
Nós moramos na minha cidade natal, num apartamento nosso — aquele que comprei com anos de trabalho duro.
Nunca consegui amar aquele país onde passei tanta dor.
Fui embora de lá pra sempre.
Depois da morte dos pais, o apartamento em Moscou ficou de herança pro Romka.
Ele nunca mais se casou, vive sozinho, bebe muito.
Quem me conta isso é a Lenka — ainda mantemos contato.
Pedi a ela que, em hipótese alguma, contasse ao Romka que voltei.
Por enquanto, Lenka tem cumprido a promessa.
Não quero ver ele.
Não quero que destrua minha vida de novo.
Que ele fique no passado.
E eu — sigo em frente.
Pelo meu filho.
Por mim.
Pelo que ainda me espera.







