— Seryozha, estou passando mal, vem depressa!
Irina ficou imóvel com um prato nas mãos.

Na panela, as batatas chiavam, a salada já estava cortada, a garrafa de vinho já tinha sido aberta.
Sergey estava parado no meio da cozinha com o telefone no ouvido, e ela via como o rosto dele mudava — do susto para um cansaço resignado.
— Mãe, o que aconteceu? O coração? A pressão?
— A cabra não está dando leite há dois dias, deve ser mastite. E a lenha está acabando. E o Vaska, o vizinho, encostou de novo a cerca com as tábuas dele.
Sergey esfregou a ponte do nariz.
Irina pousou o prato sobre a mesa com mais força do que pretendia.
— Mãe, agora são nove da noite. Amanhã eu vou.
— Amanhã vai ser tarde demais! A cabra vai morrer! O quê, você não vai ajudar a própria mãe?
Ele já estava tirando o casaco do cabide.
Irina apagou o fogão e cobriu a frigideira com a tampa.
Mais uma vez, o jantar estava cancelado.
—
Anna Petrovna Sokolova tinha setenta e cinco anos.
Morava na aldeia de Malye Borki, a quarenta quilômetros da cidade, numa casa com aquecimento a lenha.
Criava duas cabras — Marta e Zorka, uma dúzia de galinhas e uma horta de dois mil metros quadrados.
Sergey e Irina moravam na cidade, num apartamento de dois cômodos.
Ele trabalhava como engenheiro numa fábrica, ela como contadora numa construtora.
O dinheiro dava para uma vida normal, e eles até conseguiam guardar alguma coisa para as férias.
Ou melhor, tentavam guardar.
Nos últimos três anos, a vida deles passou a obedecer aos telefonemas vindos da aldeia.
Ora o telhado vazava — era preciso urgentemente comprar ardósia e arranjar braços para o trabalho.
Ora as cabras adoeciam — levem remédios.
Ora a lenha acabava no meio do inverno — larguem tudo e venham cortar mais.
Anna Petrovna recusava terminantemente mudar-se para a cidade.
— Vou morrer aqui, onde vivi a vida inteira. E quem vai ficar com as minhas cabras no apartamento? E as galinhas? Isto aqui é um sítio, é comida natural!
O fato de eles nem beberem leite e de ser mais fácil comprar ovos no mercado não a convencia.
A criação não era uma forma de se alimentar, mas o sentido da sua existência.
Anna Petrovna não se imaginava sem isso.
Sergey era filho único.
O pai morrera dez anos antes, não havia mais ninguém para ajudar.
E ele ia.
Todo fim de semana, às vezes até depois do trabalho.
Serrava, construía, consertava, cavava.
No começo, Irina ia com ele.
Ajudava com a horta, aprendia a tirar leite das cabras.
Mas, no último ano, ficava em casa cada vez com mais frequência.
O cansaço se acumulava como uma bola de neve.
—
Naquela noite, Sergey voltou depois da meia-noite.
Irina não dormia, estava deitada no escuro olhando para o teto.
— Como está a cabra? — perguntou ela.
— Bem. Só o úbere estava endurecido, eu massageei, tirei o leite. Cortei lenha para uma semana.
— E daqui a uma semana, tudo de novo?
— Irina, o que é que eu posso fazer? Ela está sozinha lá.
— Sozinha por escolha própria.
Sergey sentou-se na beira da cama e tirou as meias.
— Ela é minha mãe.
— E eu sou sua mulher. Quando foi a última vez que nós fomos a algum lugar só nós dois? Ao cinema? A um café? Ou simplesmente para passear?
— Não agora.
Mas Irina se sentou na cama e acendeu o abajur.
— É justamente agora. Eu fiz as contas — no último ano, gastamos mais de cem mil rublos com a aldeia. Ração para as cabras, remédios, lenha, conserto do telhado, uma bomba nova para o poço. Isso, aliás, era as nossas férias no mar.
— Você está propondo que eu a abandone?
— Estou propondo que você pense em nós. Eu tenho trinta e cinco anos, você tem trinta e oito. Vivemos como empregados a serviço da propriedade dos outros.
Sergey se deitou e virou-se para a parede.
— Ela não é eterna. Aguente só mais um pouco.
Irina apagou a luz.
No escuro, as palavras soavam mais duras.
— E se forem mais dez anos? Quinze? Vamos continuar assim, esperando que a nossa vida comece?
Não houve resposta.
—
No sábado, eles foram juntos — Anna Petrovna exigia ajuda com a horta.
Era preciso cavar as batatas, colher o repolho, guardar tudo no porão.
Trabalharam em silêncio.
Anna Petrovna dava ordens: isso não está certo, aquilo não vai aí, vocês têm mãos de onde não deviam ter.
Na hora do almoço, Irina estava encharcada de suor, com as costas doendo e bolhas inchando nas palmas das mãos.
Durante o almoço, a sogra começou a ladainha de sempre.
— Antigamente as pessoas sabiam trabalhar. Os de hoje são todos delicados. Cavam meio dia e já estão cansados. Eu, na idade de vocês…
— Na nossa idade a senhora morava aqui o tempo todo, não ficava indo e voltando quarenta quilômetros depois do trabalho, — Irina não aguentou mais.
Anna Petrovna apertou os lábios.
— Vocês são uns ingratos. Eu dou leite, ovos, legumes frescos. E vocês torcem o nariz.
— Mãe, nós nem pedimos…
— Exatamente, nem pedem! Vêm uma vez por mês, como se fossem estranhos. E eu aqui me matando sozinha!
Irina levantou-se da mesa.
— Ninguém está obrigando a senhora a se matar de trabalhar. Venda as cabras, deixe só uns dois canteiros para a senhora. Ou mude-se para mais perto de nós.
— Para vocês me largarem num asilo?
— Mãe!
— O que foi, “mãe”? Eu conheço vocês, gente da cidade. Vocês não consideram os pais como gente.
Irina saiu para o quintal.
Pegou o telefone, abriu o aplicativo do banco.
Rolou o histórico de gastos.
Ração para as cabras — 3500.
Lenha — 15000.
Ardósia — 8000.
Remédios para os animais — 2000.
E assim todo mês.
Sergey saiu atrás dela.
— Por que você começou isso com ela?
— Eu? Seryozha, abre os olhos! Nós estamos financiando um capricho dela! Essas cabras comem mais do que dão de leite. A horta exige mais força e dinheiro do que valem todos esses legumes no mercado.
— Mas para ela isso é importante.
— E para mim a nossa família é importante. A que está desmoronando, caso você não tenha percebido.
—
De madrugada, ligaram às duas horas.
Irina, ainda meio dormindo, ouviu Sergey pular da cama, vestir-se e deixar cair as chaves.
— O que aconteceu?
— Mamãe está passando mal. A ambulância está a caminho, mas eu chego antes.
Foram juntos.
Corriam pela estrada vazia, em silêncio.
Irina pensava: agora vai acontecer aquilo que todos temiam e que, no fundo, esperavam. O fim dos sofrimentos.
E ao mesmo tempo se odiava por esses pensamentos.
Anna Petrovna estava deitada na cama, cinzenta, pequena.
O médico da ambulância media a sua pressão.
— Crise hipertensiva. Ainda bem que chamaram a tempo. Mas, na idade dela, com uma pressão dessas, é perigoso morar sozinha.
— Eu não vou para lugar nenhum, — sussurrou Anna Petrovna.
— Mãe, assim não dá.
— Seryozhenka, eu nasci aqui. Aqui o seu pai está enterrado. Como é que eu vou largar tudo?
E, de repente, ela começou a chorar.
Em três anos, Irina nunca a tinha visto chorar.
— Eu tenho medo. Na cidade de vocês eu seria uma estranha. Um peso. E aqui pelo menos eu tenho o que fazer. As cabras, as galinhas… Eu sirvo para alguém.
Sergey sentou-se na beira da cama e pegou a mão dela.
— Mãe, quem é importante para nós é você. Não as suas cabras, nem o leite. Você.
— Mentiroso. A Irka não consegue nem me olhar.
Irina se aproximou e sentou-se do outro lado.
— Anna Petrovna, eu não estou com raiva da senhora. Estou com raiva porque todos nós nos enfiamos nessa armadilha. A senhora se mata com a criação, nós nos dividimos entre o trabalho e a aldeia. E todo mundo é infeliz.
A sogra ficou em silêncio.
Depois disse baixinho:
— E o que mais me resta? Ficar sentada esperando a morte?
—
De manhã, quando a crise passou, os três se sentaram à mesa.
Sergey falava com calma, mas com firmeza.
— Mãe, assim não dá mais. Ou reduzimos a criação ao mínimo, ou procuramos uma casa mais perto da cidade. Em Semyonovka, por exemplo. Lá passa ônibus e tem mercado perto.
— Você quer vender as minhas cabras?
— Vamos deixar uma. A Marta. Ela é mais calma. E umas cinco galinhas, não mais. A horta — mil metros quadrados, só o mais necessário.
Anna Petrovna olhava pela janela.
Do lado de fora, amanhecia, um galo cantava.
— E a casa?
— A casa continua. Vamos vir ajudar. Mas com horário. Uma vez a cada duas semanas. E não mais de um dia.
— Vocês são cruéis.
— Não, — disse Irina. — Cruel é empurrar todo mundo para o túmulo por causa de duas cabras e uma horta. Nós queremos viver, Anna Petrovna. E queremos que a senhora viva, e não apenas sobreviva.
A sogra assentiu.
Uma vez só, quase imperceptivelmente.
Uma semana depois, Zorka foi vendida aos vizinhos.
Metade das galinhas também.
A horta foi cavada só pela metade — para as batatas e um pouco de verdura.
Sergey instalou na casa da mãe um botão de chamada de emergência e combinou com a vizinha Valya — ela prometeu passar lá todos os dias.
—
Passaram-se quatro meses.
Fevereiro veio nevado, mas não brutal.
Irina estava à janela com uma xícara de café, olhando a neve cair.
— Mamãe ligou, — disse Sergey, saindo do quarto. — A Marta pariu. Teve dois cabritinhos.
— Vamos no fim de semana?
— Se você quiser.
Era estranho — aquela leveza na voz dele.
Antes, qualquer menção à mãe se transformava em silêncio tenso ou discussão.
Agora — era apenas uma notícia sobre a cabra.
Anna Petrovna realmente havia mudado.
Ligava uma vez por semana, de forma breve.
Perguntava da saúde deles, contava sobre a criação.
Nenhum conselho, nenhuma reprovação, nenhuma indireta.
Quando Irina ficou resfriada no mês anterior, ela apenas perguntou se precisava de remédios.
Não apareceu sem avisar com potes e emplastros de mostarda.
Irina terminou o seu espresso.
— Você acha que vai dar certo? Quer dizer, Sochi no verão?
— Não sei. Mas espero que sim.
Lá fora, a neve parou de cair.
O sol apareceu.







