— O teu salário está com a tua mãe, então que seja ela a cozinhar para ti — disse eu. Na manhã seguinte, dei entrada no pedido de divórcio.

— Katya, e o que é que vamos comer, ratos?

A pergunta veio da cozinha escura.

Ekaterina tirou os sapatos.

A perna esquerda latejava depois do turno.

O saco amarelo pesava-lhe nos dedos.

— Abriste o frigorífico? — perguntou ela.

— Abri.

Lá dentro há luz e meio frasco de mostarda.

Sergey saiu para o corredor.

As calças de casa estavam deformadas nos joelhos.

Tinha o telemóvel na mão.

No ecrã piscava um jogo.

— Eu trabalho até às oito, Seryozha.

— Eu também trabalho.

Katya pousou o saco no móvel.

Desatou as alças.

Lá dentro havia um pedaço de queijo, uma dúzia de ovos e uma embalagem de queijo fresco.

Nada de carne.

Nada de pelmeni.

— E onde está a comida normal? — fez uma careta o marido.

— Na loja.

Ela foi até à casa de banho.

Abriu a água.

Sergey arrastou-se atrás dela.

— Não percebi a piada.

És minha mulher ou o quê?

— Sou tua mulher.

E tu és meu marido.

— Então alimenta o teu marido.

Katya secou as mãos com a toalha.

Olhou para ele através do espelho.

— Ontem foi dia dez.

Dia de receber o salário.

Sergey desviou o olhar.

— E então?

— Onde estão os teus oitenta e cinco mil rublos?

Fez-se uma pausa pesada.

Ouvia-se a água a pingar da torneira.

— Transferi para a minha mãe — resmungou Sergey.

— Ela precisa de fechar a varanda com vidros.

Katya virou-se.

— Os oitenta e cinco mil todos?

— A equipa de obras pediu um adiantamento.

Ela assentiu.

Saiu da casa de banho.

Foi para a cozinha.

— Então vais jantar na varanda.

Na casa da Tamara Pavlovna.

O rosto de Sergey ficou coberto de manchas vermelhas.

Atirou o telemóvel para cima da mesa.

— Katyusha, estás a falar a sério?

Estás a fazer um escândalo por causa de um pedaço de salsicha?

— Não estou a fazer escândalo nenhum.

Estou apenas a constatar um facto.

Katya tirou os ovos do saco.

Ligou o fogão.

Pôs uma frigideira ao lume.

— O meu salário vai para a hipoteca.

E para as contas.

— Somos uma família! — Sergey levantou a voz.

— Numa família, todos contribuem para a comida.

Tu contribuíste para a varanda da tua mãe.

Sergey cruzou os braços sobre o peito.

— A reforma dela é uma miséria.

Sou o único filho dela.

— Excelente.

E eu sou a única filha dos meus pais.

Ela partiu três ovos para a frigideira.

O óleo começou a chiar.

— Mas eu não estou a pagar vidros para a varanda deles.

Nós estamos a poupar para renovar a casa de banho.

— A casa de banho pode esperar.

Na casa da minha mãe entra frio pela varanda.

— Então que seja a tua mãe a dar-te de comer.

Katya pôs os ovos num prato.

Sentou-se à mesa.

Pegou no garfo.

Sergey olhava para ela de cima para baixo.

— Vais mesmo comer sozinha?

— Vou.

— Não tens nada de sagrado dentro de ti, Katka.

Ele virou-se e foi para o quarto.

Bateu com a porta.

Katya terminou o jantar em silêncio.

Lavou o prato.

Dentro dela não havia raiva.

Só um cansaço surdo e pegajoso.

A manhã começou em silêncio.

Sergey preparava-se ostensivamente sem dizer uma palavra.

Fazia barulho com as chaves.

Batía com as portas do armário.

Katya bebia café.

No lava-loiça estava a caneca suja do marido.

Na mesa, migalhas de pão.

Ele tinha comido metade de um pão seco.

— À noite vou passar pela casa da minha mãe — disse ele da porta.

— Ao menos vou jantar como uma pessoa normal.

— Manda cumprimentos meus à Tamara Pavlovna.

A porta bateu.

Katya acabou o café.

Preparou-se para ir trabalhar.

Era o fim de janeiro.

O início de 2026.

A hipoteca ainda duraria nove anos.

A prestação era de quarenta e três mil rublos por mês.

Era Katya quem a pagava.

O apartamento tinha sido comprado durante o casamento.

Nos documentos, pertencia aos dois.

Na prática, era apenas ela que o sustentava.

À noite, Katya voltou tarde.

No corredor estavam os sapatos do marido.

A luz da cozinha estava acesa.

Cheirava a cebola frita e salsicha barata.

Tamara Pavlovna estava sentada à mesa.

— Boa noite, Katya — disse a sogra.

A voz era doce como mel.

Os olhos, afiados.

— Boa noite.

O que a traz por aqui?

— Vim ver o meu filho.

O meu filho esfomeado.

A sogra fez um gesto com a cabeça na direção do fogão.

Havia lá uma panela enorme.

De baixo da tampa saíam massas todas coladas umas às outras.

Ao lado estavam as peles vermelhas das salsichas.

— Obrigada por cuidar dele.

Katya tirou o casaco.

Foi até ao lava-loiça.

Lavou as mãos.

— Seryozha disse que te recusas a cozinhar para ele.

— Seryozha contou-lhe a história toda?

Tamara Pavlovna apertou os lábios.

— A verdade é que uma mulher tem a obrigação de cozinhar para o marido.

— E um marido tem a obrigação de trazer dinheiro para casa.

— Ele ajudou a mãe! — a voz da sogra tremeu.

— A minha varanda está podre.

Katya pegou na toalha.

— A sua varanda custa oitenta e cinco mil rublos?

— O trabalho está caro hoje em dia.

Os materiais também estão caros.

— Fico feliz por si.

Vai ter uma varanda quentinha.

Katya abriu o frigorífico.

Tirou o seu queijo.

— E eu o que tenho a ver com isso?

Tamara Pavlovna levantou-se.

A luz amarela da lâmpada realçou-lhe as rugas.

— Estás na nossa família há três anos.

Podias ao menos respeitar a mãe do teu marido.

— Eu respeito-a à distância.

— Trouxe comida para ele para três dias.

Massa, carne enlatada.

— Excelente.

Só não se esqueça de lavar a panela depois.

E o meu fogão também.

A sogra ficou sem ar de tanta indignação.

— Estou a tentar falar contigo a bem, Ekaterina!

— Não precisa de tentar falar comigo de maneira nenhuma.

Katya fez uma sandes.

Serviu-se de chá.

— Se o seu filho acha normal entregar-lhe todo o salário, então que vá viver consigo.

— O apartamento foi comprado a meias! — cuspiu a sogra.

— A hipoteca sou eu que pago.

Da minha conta onde recebo o salário.

— Ele fez obras aqui!

Katya sorriu com desprezo.

— Colou papel de parede no corredor.

Dois rolos.

Uma contribuição realmente grandiosa.

Ouviram-se passos no corredor.

Sergey entrou na cozinha.

Olhou para a mãe.

Depois olhou para Katya.

— O que é que vocês fizeram aqui?

— Nada, Seryozhenka — disse Tamara Pavlovna entre dentes.

— Vou-me embora.

Come a massa.

Senão esta ainda te mata à fome.

Passou orgulhosamente ao lado de Katya.

Bateu-lhe com o ombro.

A porta da entrada bateu.

Sergey sentou-se à mesa.

Puxou a panela para si.

Serviu massa no prato.

— Satisfeita?

Estragaste o humor à minha mãe.

— A tua mãe está com um ótimo humor.

Tem janelas novas na varanda.

À minha custa.

— Esse dinheiro é meu! — Sergey deu um murro na mesa.

O garfo tilintou contra o prato.

— Aqui não há dinheiro teu.

Tudo aqui foi comprado com o meu.

— És uma cabra interesseira, Katka.

Só queres dinheiro.

— Eu quero um parceiro.

Não uma sanguessuga.

Ela acabou o chá.

Levantou-se.

Foi para o quarto.

Ligou uma série no portátil.

Viviam como colegas de casa.

Frases curtas.

Cansaço.

No ar pairava a sensação de que a separação estava próxima.

A quinta-feira passou em silêncio.

Sergey comia massa.

Katya fazia saladas para si.

Na sexta-feira à noite, Katya recebeu uma notificação no telemóvel.

«Débito.

1250 rublos.

Yandex.Eda.»

Ela parou no meio da rua.

Olhou para o ecrã.

O saldo tinha mudado.

O cartão estava associado à conta partilhada da aplicação.

Katya abriu rapidamente o histórico.

Entrega de pizza.

Morada: o apartamento deles.

Cliente: Sergey Andreevich.

Katya sorriu com ironia.

Carregou no botão «Bloquear cartão».

Chegou a casa uma hora depois.

Sergey estava sentado no sofá.

Ao lado dele estava uma caixa de pizza vazia.

No ecrã da televisão passavam cenas de um filme.

— Bom apetite.

Sergey sobressaltou-se.

Virou-se.

— Ah, olá.

Katya atirou as chaves para o móvel.

— A pizza estava boa?

— Normal.

Já estava farto da massa.

— Por mil e quinhentos rublos devia estar boa.

Sobretudo pelos meus mil e quinhentos rublos.

Sergey franziu a testa.

— Outra vez a mesma conversa.

No dia vinte e cinco recebo o adiantamento e devolvo-te.

— Não vais devolver.

Katya foi para o quarto.

Tirou do armário uma velha caixa de sapatos.

Era onde guardavam dinheiro em espécie.

Uma reserva para emergências e para as férias.

Tinham juntado aos poucos.

Deviam estar lá cento e vinte mil rublos.

Katya abriu a tampa.

A caixa estava suspeitosamente leve.

Lá dentro havia pó.

E duas notas de quinhentos rublos.

Katya ficou imóvel.

Sentiu uma dor no baixo ventre.

Pegou na caixa.

Saiu para a sala.

Atirou-a para o sofá ao lado do marido.

A caixa bateu surdamente no estofado.

— Onde está o dinheiro, Seryozha?

Ele olhou para a caixa de cartão.

O rosto ficou cinzento.

— Que dinheiro?

— Cento e vinte mil rublos.

As nossas férias na Turquia.

O dinheiro que juntámos durante um ano.

Sergey engoliu em seco.

Empurrou a caixa para o lado.

— Kat, eu explico tudo.

— Explica.

O tempo está a contar.

Ele passou a mão pelo cabelo.

O olhar fugia de um lado para o outro.

— A equipa de obras pediu mais dinheiro.

Os materiais ficaram mais caros.

Depois descobriram que era preciso reforçar a laje.

Katya olhava para ele.

Dentro dela, alguma coisa fechou-se à chave.

Definitivamente.

Com um clique forte e claro.

— Tiraste o dinheiro das nossas férias para pagar a varanda da tua mãe.

— Eu devolvo tudo!

— Quando?

Com o adiantamento?

— Vou pedir um empréstimo.

Amanhã mesmo.

Katya soltou uma risada curta.

Não por achar graça.

Mas porque era impossível acreditar em tamanha estupidez.

— Então vais pedir um empréstimo para me devolver o meu próprio dinheiro que roubaste?

E quem vai pagar esse empréstimo?

Do orçamento da família?

— Eu pago sozinho!

— Com o dinheiro que dás à mamã?

Sergey levantou-se de um salto.

A caixa caiu no chão.

— Mas porque é que estás sempre a implicar com a minha mãe?!

Ela está a passar dificuldades!

É uma mulher idosa.

— E eu sou um cavalo de carga.

Para mim é tudo fácil.

Ela inclinou-se.

Apanhou a caixa.

Pousou-a na mesa.

— Faz as malas.

— O quê?

— Faz as malas.

Vais viver na nova varanda quentinha.

Sergey sorriu torto.

Nervosamente.

— O apartamento é dos dois.

Metade é meu.

Por lei.

Não me podes expulsar.

Katya assentiu.

— Por lei, metade das prestações da hipoteca também são tuas.

Amanhã vamos ao notário.

Fazemos a divisão dos bens.

Eu pago-te a tua parte, descontando as tuas dívidas das contas da casa.

E divorciamo-nos.

Sergey empalideceu.

— És parva?

Um divórcio por causa de uma varanda?

— Por causa de um rato.

Tu és um rato, Seryozha.

Roubas a tua própria família.

— Eu não vou a lado nenhum.

Sentou-se novamente no sofá.

Cruzou os braços sobre o peito.

Com a postura de um menino ofendido.

— Está bem.

Katya virou-se.

Foi para a cozinha.

Pegou num saco do lixo.

Varreu para dentro dele a caixa da pizza.

Depois foi para o quarto.

Fechou a porta por dentro.

Deitou-se na cama.

Nessa noite dormiram em divisões diferentes.

Ele no sofá da sala.

Ela no quarto.

No sábado de manhã Katya levantou-se cedo.

Sergey roncava no sofá.

A televisão estava ligada sem som.

Katya foi até à sala.

Num canto havia um móvel.

Em cima dele estava o bem mais precioso de Sergey Andreevich.

A consola de jogos.

O modelo mais recente.

Branca, brilhante.

Ele tinha-a comprado seis meses antes.

Por setenta e cinco mil rublos.

Com o bónus do trabalho.

Katya aproximou-se do móvel.

Desligou os cabos da tomada.

Enrolou os fios.

Pegou nos comandos.

Meteu tudo numa mochila desportiva resistente.

A mochila ficou pesada.

Vestiu-se.

Pegou nas chaves.

Saiu do apartamento.

Eram nove da manhã.

O ar lá fora estava gelado e cortante.

A neve rangia debaixo das botas.

Katya foi até à casa de penhores mais próxima.

Abriria às dez.

Passeou pelos pátios durante quarenta minutos.

Depois entrou.

Atrás do vidro estava um rapaz de óculos com ar entediado.

— Aceitam uma consola? — perguntou Katya.

O rapaz assentiu.

— Tem documentos?

— A caixa ficou em casa.

Tenho o meu passaporte.

Ele verificou o número de série.

Ligou a consola.

Testou os comandos.

— Está em perfeito estado.

Dou-lhe quarenta mil.

— Sessenta.

O rapaz soltou uma risada.

— No Avito vende por sessenta.

Aqui compramos para revender.

Quarenta e cinco.

É o máximo.

Katya pensou.

Quarenta e cinco mil rublos.

Menos do que ele tinha roubado das poupanças.

Menos do que tinha dado pela varanda.

Mas não era uma questão de números.

Era uma questão de justiça.

— Faça os papéis.

Ela assinou o documento.

Pegou no dinheiro.

Cinco notas vermelhas.

Guardou-as na carteira.

O rapaz entregou-lhe o recibo do penhor.

— Vai querer recuperá-la?

— Não.

Katya saiu.

Entrou num supermercado.

Comprou um bom pedaço de carne de vaca.

Legumes frescos.

Queijo.

Um frasco de creme caro para o rosto.

Gastou quatro mil rublos.

Voltou para casa ao meio-dia.

Sergey já estava acordado.

Andava nervosamente de um lado para o outro na sala.

Viu Katya.

Correu até ela.

— Onde está?!

— Quem? — perguntou Katya calmamente.

Tirou as botas.

— A consola!

Katka, enlouqueceste completamente?

Onde a escondeste?

Katya foi para a cozinha.

Pousou os sacos.

Colocou a carne na mesa.

Pegou numa faca.

— Não a escondi.

— Então onde está?!

Eu queria jogar.

É o meu dia de folga.

Ela lavou as mãos.

Tirou do bolso do casaco o recibo da casa de penhores.

Aproximou-se do marido.

Estendeu-lhe o papel cinzento.

Sergey pegou nele.

Baixou os olhos.

Leu.

O rosto alongou-se.

O queixo caiu.

— Tu…

Tu penhoraste-a?

— Vendi.

— Por quarenta e cinco mil rublos?!

Ela custa setenta e cinco!

— Estava mesmo a precisar de dinheiro para comprar carne.

Sergey apertou o papel no punho.

Deu um passo na direção de Katya.

Os olhos ficaram vermelhos de raiva.

— És uma cabra desgraçada.

Aquilo era meu!

Não tinhas o direito de tocar!

— E tu não tinhas o direito de tocar no dinheiro das minhas férias — cortou Katya.

— O meu trabalho.

As minhas poupanças.

Tu roubaste cento e vinte mil.

Eu recuperei quarenta e cinco.

Ainda tiveste sorte.

— Vou à polícia!

Vou apresentar queixa contra ti!

Katya olhou para ele como se fosse um obstáculo.

Como se não fosse ninguém.

— Vai.

Apresenta.

E aproveita para contar ao polícia do bairro como roubavas dinheiro em espécie à tua mulher.

Vais fazer figura de palhaço diante de toda a gente.

Sergey respirava pesadamente.

— Devolve-me o dinheiro!

Eu próprio vou recuperá-la!

— Que dinheiro?

Katya deu umas palmadas no saco com a carne.

— Aqui está o teu dinheiro.

Em bifes.

E vou pagar as contas deste mês com uma parte.

O resto vou guardar para o divórcio.

Também há taxas para pagar.

— Eu não vou viver contigo.

Cuspiu aquelas palavras na cara dela.

— Foi exatamente isso que te pedi ontem — respondeu Katya calmamente.

Passou por ele.

Abriu o armário do corredor.

Tirou uma grande mala aos quadrados.

Daquelas que os comerciantes usavam nos anos noventa.

Atirou a mala aos pés do marido.

— As tuas coisas estão na prateleira da direita.

Os sapatos estão em baixo.

Não te esqueças do casaco.

— Não tens o direito de me expulsar!

Metade do apartamento é meu!

— Vai a tribunal.

Faz a divisão.

Mas enquanto o processo não acontecer, não dormes aqui.

Sergey deu um pontapé na mala.

— Vai-te lixar!

Vou ligar à minha mãe.

— Liga.

Ele tirou o telemóvel.

Com os dedos trémulos marcou o número.

Pôs em alta-voz.

Chamou durante bastante tempo.

Finalmente ela atendeu.

— Sim, Seryozhenka, meu filho.

— Mãe, ela está a expulsar-me.

E vendeu a minha consola.

Do outro lado fez-se silêncio.

— Como assim vendeu?

Como assim está a expulsar-te?

Vou chamar a polícia agora mesmo!

Vou aí já!

Passa-me o telefone!

Sergey estendeu o telemóvel a Katya.

Havia triunfo nos olhos dele.

Katya não pegou no telefone.

Apenas se inclinou para o microfone.

— Tamara Pavlovna.

Se vier aqui agora, vou pôr as coisas dele no patamar das escadas.

E se começar a gritar à porta, chamo a polícia por perturbação da tranquilidade.

— Tu és louca! — gritou a sogra.

— O meu filho pagava metade do apartamento!

— O seu filho transferiu-lhe oitenta e cinco mil rublos.

E roubou-me cento e vinte mil.

Vá ao banco e peça um empréstimo.

Pague as dívidas do seu filhinho.

Katya endireitou-se.

— As chaves do apartamento.

Em cima da mesa.

Agora.

Sergey ficou confuso.

A mãe continuava a gritar ao telefone, ameaçando com tribunais, castigos divinos e polícia.

Mas a voz dela parecia agora distante e miserável.

— Seryozha, as chaves — repetiu Katya.

Ele olhou para a mala aos quadrados.

Depois para Katya.

Nos olhos dela não havia histeria nem lágrimas.

Só betão frio.

Ele tirou o molho de chaves do bolso das calças.

Desprendeu a chave metálica do porta-chaves do intercomunicador.

Atirou-a para cima do móvel.

A chave tilintou alto e claro.

— Isto não vai ficar assim.

Ainda te vais arrepender.

— Não duvido.

Faz as malas.

Quarenta minutos depois Sergey estava à porta.

Com a mala aos quadrados nas mãos.

De botas de inverno e casaco.

Parecia miserável.

Estava curvado.

— Kat, talvez possamos conversar? — perguntou de repente.

A raiva já tinha desaparecido.

Restava o medo.

Ela olhou para ele.

Lembrou-se dos três anos de casamento.

Lembrou-se de como ele prometia fazer as obras.

De como se escondia atrás da mãe em todas as discussões.

Katya pegou na chave em cima do móvel.

Rodou-a entre os dedos.

O metal estava frio.

— Já dissemos tudo o que havia para dizer.

Adeus.

Katya fechou a porta.

Rodou a fechadura duas vezes.

O apartamento ficou em silêncio.

Ela foi para a cozinha.

Pôs arroz a cozer.

Aqueceu a frigideira.

Pôs um pedaço de carne.

A carne começou a chiar, libertando um suco transparente.

Cheirava bem.

Cheirava a casa.

À noite chamou um serralheiro.

No domingo de manhã, a fechadura antiga foi retirada.

Instalaram uma nova.

Pesada, segura.

O serralheiro entregou-lhe cinco chaves novas num saco selado.

— Pronto, senhora.

Agora nenhum estranho entra.

— Obrigada.

Ela pagou-lhe três mil rublos.

Fechou a porta.

Preparou chá na sua caneca preferida com gatos.

Sentou-se junto à janela.

Lá fora caía neve.

Branca, limpa.

O telemóvel estava em cima da mesa.

Dez chamadas perdidas de Tamara Pavlovna.

Cinco de Sergey.

Algumas mensagens longas e furiosas sobre advogados e divisão dos bens.

Katya eliminou as notificações.

Ela não tinha nenhum recibo ou documento que provasse a dívida dos cento e vinte mil rublos.

Seria impossível provar o roubo do dinheiro em espécie.

Mas o recibo da casa de penhores aquecia-lhe a alma melhor do que qualquer pedido de desculpas.

Pelo menos tinha recuperado uma parte.

E recuperado a sua paz.

Deu um gole no chá quente.

Finalmente, gostava do silêncio.