«Arromba a fechadura, ela é obrigada a nos deixar entrar!» Mas atrás da porta os esperava uma surpresa.

— Tânia, você tem noção de que horas são?!

A ligação pegou Tatiana debruçada sobre os cálculos de um entroncamento rodoviário.

Ela mal teve tempo de largar o lápis quando o alto-falante do telefone explodiu com o grito histérico de Ksenia.

— Olá, Ksyusha.

Tenho perfeita noção.

Já está quase dando nove horas.

— Quase nove, diz ela!

Estamos aqui embaixo do seu prédio há quarenta minutos, parados nesse vento!

Meus dentes estão batendo de frio!

Ao fundo, o motor de um caminhão rugiu com esforço.

Ouviu-se um estrondo metálico, seguido pelos palavrões roucos de Kostia, que discutia com o motorista.

— Estamos com a carroceria cheia de coisas!

A tia Valia está sentada nos degraus e já gelou as costas!

Kostia e o motorista estão descarregando as caixas direto no asfalto!

Pegue as chaves e venha para cá agora mesmo, entre no primeiro carro que aparecer!

Tatiana empurrou o desenho para a beirada da mesa.

— Ksyusha, e quem disse para vocês irem para lá?

— Você está brincando comigo?!

No domingo nós explicamos tudo direitinho!

Do telefone veio o estalo do vento.

— Nosso conjunto residencial foi completamente paralisado, e a construtora sumiu sem deixar rastro!

Para onde você quer que a gente vá?

Para a estação com trouxas nas mãos?!

Você tem um estúdio vazio trancado, e nunca põe os pés lá!

Se mexa e venha para cá, estamos pagando o caminhão por hora!

— Eu já disse no domingo, Ksyusha.

O estúdio continuará fechado.

Ninguém vai morar lá.

— E daí o que você falou por avareza!

Você não tem vergonha, diante dos vizinhos, de deixar seus próprios parentes na rua?!

Alguém literalmente arrancou o telefone das mãos da cunhada.

Do alto-falante irrompeu a voz grave e trágica da tia, Valentina Vasilievna:

— Tânia!

Tenha temor a Deus!

Na minha idade eu tenho que ficar sofrendo no meio da corrente de ar?!

Sua madrinha deixou esse apartamento para você atormentar a família?!

Traga essas chaves agora mesmo, minha pressão subiu para quase duzentos!

Tatiana olhou para o relógio na parede.

— Tia Valia, tome um comprimido para a pressão.

As chaves não vão chegar.

— O quê?! — arfou a mulher.

— Vamos chamar um chaveiro!

Kostia já foi falar com a administração do prédio!

Vamos abrir essa fechadura num instante, já que você não tem vergonha na cara!

A ligação foi encerrada com uma série de sinais curtos.

Tatiana se levantou da mesa e foi até o cabideiro.

Vestiu uma jaqueta verde-escura e conferiu os bolsos.

No direito estava o corpo achatado de um medidor de distância a laser.

No bolso interno havia uma folha dobrada em quatro com o carimbo azul e redondo do serviço sanitário.

O estúdio no antigo prédio de painéis pré-fabricados havia passado para Tatiana sete meses antes, depois da morte de sua madrinha.

O imóvel parecia um depósito abandonado.

Pedaços de papel de parede pendiam das paredes, havia ferro fundido enferrujado no banheiro, o piso estava estufado e um velho cheiro de umidade impregnava o ambiente.

A primeira coisa que Tatiana fez foi retirar a velha porta de compensado, instalar uma robusta porta de metal com duas fechaduras, mandar retirar toda a tralha quebrada e começar, sem pressa, a comprar materiais de construção em promoções.

Nenhuma pessoa normal decidiria morar naquela caixa de concreto naquelas condições.

Mas Ksenia e Kostia sempre tiveram alguns problemas com a lógica.

Depois de venderem o quarto que tinham em um apartamento comunitário e pegarem vários empréstimos, investiram em um duvidoso condomínio nos arredores.

Um mês antes, a obra havia parado completamente e a empreiteira desaparecera junto com o dinheiro dos compradores.

Ksenia se recusou terminantemente a pagar aluguel: por que dar seus suados rublos a um estranho quando a cunhada tinha um apartamento parado?

Durante um batizado de família, Tatiana tratou de esfriar o entusiasmo deles imediatamente.

Disse claramente que o estúdio não estava em condições de moradia e que não deixaria ninguém entrar.

Ksenia fez uma careta, enquanto a tia apertou os lábios e declarou que aquela vida confortável demais ainda levaria a sobrinha à desgraça.

E agora os parentes haviam decidido partir para o ataque.

O bonde chegou à parada certa em vinte minutos.

A cena no pátio era grandiosa.

Um velho UAZ com reboque bloqueava a entrada do prédio.

O motorista, com uma jaqueta engordurada, fumava irritado perto da carroceria aberta.

Sobre a grama seca do canteiro havia uma montanha de pertences: caixas amarradas com barbante, bacias de plástico, um tapete empoeirado enrolado, um micro-ondas e quatro pneus com rodas.

Valentina Vasilievna estava sentada sobre uma caixa de madeira, usando um cachecol de lã azul.

Ao lado dela, Kostia andava de um lado para o outro, gritando furiosamente insultos ao telefone.

Assim que viu a cunhada, Ksenia correu para interceptá-la.

Seu casaco se abriu, e os dedos com esmalte bordô começaram a gesticular ameaçadoramente diante do rosto de Tatiana.

— Finalmente apareceu!

Sua consciência acordou?!

Estamos congelando aqui!

Abra logo, está na hora de os homens levarem as coisas para cima!

— Nada vai subir — respondeu Tatiana.

Ksenia parou, colocando as mãos na cintura.

— Você enlouqueceu?!

Alugamos o caminhão até o meio-dia!

O taxímetro está correndo!

Abra imediatamente!

— Eu não convidei vocês para cá, Ksenia.

Valentina Vasilievna, sentada sobre a caixa, imediatamente começou a se lamentar em voz alta para todo o pátio.

— Gente, olhem para ela!

Está deixando o próprio irmão na rua, no frio!

As coisas estão largadas na calçada e ela ainda torce o nariz!

Garota sem coração, não tem nem um pingo de vergonha!

No segundo andar, uma janela se abriu com estrondo.

Uma aposentada do prédio colocou a cabeça para fora, com um lenço amarrado na cabeça.

— Ei, vocês aí com essa lata velha!

Por que jogaram os pneus no gramado?!

Vou ligar agora mesmo para o policial do bairro por danificarem a área comum!

Tirem esse lixo da entrada!

— Senhora, feche a janela e não se meta onde não foi chamada! — rosnou Kostia, enfiando o telefone no bolso.

Ele se aproximou da irmã até ficar quase colado nela.

— Escuta, Tânia.

Pare de fazer cena.

Nós perdemos dinheiro, você entende?

Precisamos passar o inverno em algum lugar!

Vamos pagar a eletricidade, você não vai ficar pobre por causa disso!

Por que está fazendo esse escândalo diante de todo o pátio?!

— Abaixe as mãos, Kostia.

E baixe a voz também.

Ksenia avançou, com os olhos faiscando.

— Estamos pouco nos importando com os seus caprichos!

O chaveiro da administração está vindo com as ferramentas!

Kostia prometeu uma gorjeta para ele, e ele fura o cilindro da fechadura em um minuto!

Vamos colocar nossas coisas lá dentro, instalar nosso próprio trinco, e depois você pode correr atrás das autoridades até o fim dos tempos!

Ninguém vai colocar uma família com uma pessoa idosa para fora no frio, você não tem esse direito!

— Estão esperando o chaveiro? — Tatiana sorriu ironicamente.

— Então vamos subir.

Vamos ver esse chaveiro de vocês.

Ela foi tranquilamente até a entrada, digitou o código no painel e puxou a maçaneta.

Ksenia deu uma cotovelada triunfante no marido.

— Está vendo?!

Foi só pressionar um pouco e ela ficou razoável na mesma hora!

Pegue o tapete, Kostia!

Mande aquele homem levar as caixas até o elevador!

Tia Valia, levante-se, vamos nos instalar!

Começou uma penosa conquista dos andares.

O elevador de carga estava quebrado desde a terça-feira anterior, e nem mesmo o tapete enrolado cabia no elevador de passageiros.

Kostia, ofegando pesadamente e praguejando a cada instante, arrastou o rolo empoeirado pelas escadas de concreto até o quarto andar.

Atrás dele vinha Ksenia, carregando várias panelas e uma chaleira.

Valentina Vasilievna vinha se arrastando atrás, gemendo alto e contando a cada morador que encontrava como estava sendo tratada vergonhosamente.

Tatiana chegou primeiro.

Parou no patamar diante do apartamento número quarenta e quatro, com as mãos nos bolsos.

Kostia foi o primeiro a aparecer no andar.

Seu rosto estava roxo pelo esforço.

Largou o tapete sobre o concreto, enxugou a testa com a manga, recuperou o fôlego e de repente ficou imóvel.

Logo depois apareceu Ksenia, ofegante.

Seu sorriso triunfante desapareceu imediatamente.

A porta de entrada do apartamento quarenta e quatro parecia a entrada de uma sala de isolamento para doenças infecciosas.

Uma larga faixa de plástico amarela e preta havia sido esticada em forma de cruz sobre a porta, o batente e as fechaduras.

Na faixa repetia-se, em letras grandes, a inscrição: «ZONA PERIGOSA.

ENTRADA ESTRITAMENTE PROIBIDA».

Na junção entre a folha da porta e a estrutura metálica pendiam dois lacres de papel numerados, com o carimbo azul do serviço sanitário e epidemiológico.

E bem no centro havia uma folha protegida por plástico transparente:

«ATENÇÃO!

O LOCAL FOI SUBMETIDO A TRATAMENTO TOTAL COM SUBSTÂNCIAS DE ALTA TOXICIDADE.

É CATEGORICAMENTE PROIBIDO ENTRAR SEM EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO ESPECÍFICO!

RISCO DE DANOS QUÍMICOS AO SISTEMA RESPIRATÓRIO.

PERÍODO DE DESCONTAMINAÇÃO: 40 DIAS.

A REMOÇÃO DO LACRE ACARRETA MULTA E ACIONAMENTO DOS SERVIÇOS DE EMERGÊNCIA».

De baixo da porta vinha nitidamente para o corredor um cheiro nauseante de produtos químicos: uma mistura de querosene, capim apodrecido e venenoso karbofos.

Valentina Vasilievna finalmente conseguiu subir as escadas.

Olhou para as faixas amarelas, aspirou o ar e imediatamente se dobrou em uma violenta crise de tosse.

— Cof, cof!

Meu Deus…

Socorro!

Que cheiro é esse?!

Parece que jogaram veneno em cima de uma carcaça apodrecida!

— Tânia! — guinchou Ksenia, recuando e apertando as panelas contra o peito.

— Que palhaçada é essa?!

O que você colou aqui?!

— Não há palhaçada nenhuma.

Vocês não queriam se mudar para cá?

Não estavam planejando furar a fechadura?

Pois então!

Arranquem a fita.

Chamem seu chaveiro e mandem ele usar o pé de cabra.

— Você…

Quem você chamou aqui?! — Kostia apontou para o aviso.

— Que veneno é esse?!

Você ficou louca?!

— É só uma desinfestação comum, Kostik.

Lembra da mercearia no subsolo?

O inquilino fugiu, cortaram a eletricidade por causa das dívidas e toda a mercadoria nas geladeiras apodreceu.

Os ratos morreram, e do porão começaram a subir percevejos e pulgas pela ventilação.

Eles se espalharam por toda a nossa prumada, do térreo até o último andar.

Os vizinhos escreveram reclamações para todos os órgãos possíveis.

Ontem de manhã, os exterminadores encheram tudo com uma névoa venenosa pulverizada sob alta pressão.

Tatiana tirou do bolso interno o papel dobrado e o abriu diante do rosto do irmão.

— Aqui, leia.

Certificado de tratamento com substâncias tóxicas.

O produto penetra nos tijolos e no reboco.

O tempo de permanência é de quarenta dias em ambiente completamente fechado.

Sem uma roupa de proteção química, ficar lá dentro certamente causa danos aos pulmões em poucas horas.

Kostia recuou do papel como se fosse ferro em brasa.

— Você está mentindo…

Você armou tudo isso de propósito!

Chamou essa gente só para não deixar a gente entrar!

— E por que eu deveria organizar minha vida em função das confusões de vocês? — respondeu Tatiana.

— Eu apresentei o pedido ao serviço sanitário três semanas atrás, quando vocês ainda estavam tentando se livrar do quarto no apartamento comunitário.

Ontem aplicaram o produto e lacraram o apartamento.

Então podem entrar com seus pertences, queridos hóspedes!

Podem até estender o tapete aqui diante da porta.

Amanhã de manhã vocês já terão parado de tossir.

Para sempre.

Valentina Vasilievna agarrou a gola do casaco e fitou o lacre com os olhos arregalados.

— Kostik!

Filho!

Ela nos atraiu para cá para nos mandar direto para a morte!

Ela sabia de tudo e ficou calada!

Nós teríamos entrado aqui e nunca mais sairíamos!

Ela queria nos envenenar!

— Ela está mentindo! — Ksenia bateu o pé, embora seu rosto tivesse empalidecido visivelmente.

— Imprimiu esse papel em qualquer lugar e colou a fita com durex!

Kostia, arrombe a fechadura!

Ela não tem o direito de nos deixar na rua!

Arranque essa porcaria!

— Vamos, Kostia, puxe — incentivou Tatiana em voz baixa, indicando o teto com o olhar.

— Está vendo aquela câmera ali em cima?

O responsável pelo prédio a conectou à central de segurança.

É só tocar no lacre e em cinco minutos chega uma viatura.

Você vai explicar ao sargento armado por que está tentando invadir uma área submetida a tratamento químico.

E já aproveita para pagar a multa por violar o controle sanitário.

Vai ser uma boa quantia, terá tempo de pagar até se aposentar.

Kostia olhou, acuado, para a lente preta da câmera e depois para a placa de advertência.

Manchas roxas apareceram em seu pescoço.

— Você é venenosa mesmo, Tânia.

Nós viemos até você como família, como gente civilizada!

Carregamos essas coisas pela cidade inteira!

E você soltou percevejos em cima da gente!

— Como família? — Tatiana deu um passo à frente, e o irmão atarracado recuou em direção às escadas.

— Agir como família é pedir permissão, não colocar alguém diante de um fato consumado pelo telefone!

É entender um não normal na primeira vez, e não aparecer na casa dos outros com um pé de cabra!

Vocês desperdiçaram o próprio dinheiro, se enfiaram num buraco e agora a culpa é minha?!

Ela percorreu com o olhar os parentes que haviam ficado em silêncio.

— O estúdio permanecerá lacrado até o fim de novembro.

Nenhum chaveiro vai entrar aqui.

E agora peguem o tapete e desapareçam do patamar antes que os vizinhos chamem a polícia por bloquearem a passagem.

— Que você acabe sozinha! — gritou Ksenia, recuando pelos degraus.

— Vai lembrar de nós quando for você quem precisar de ajuda!

Nem deixaremos você cruzar nossa porta!

— Vou sobreviver muito bem sem a porta de vocês — cortou Tatiana.

— O ar ficará até mais limpo.

De baixo veio o pesado barulho de botas ferradas.

O motorista apareceu no patamar, vermelho de esforço.

— Ei, cidadãos!

Vocês vão descarregar ou não?!

O tempo do contrato acabou!

Ou pagam uma taxa extra pela espera, em dobro, ou jogo toda essa tralha no gramado e vou embora!

— Que pagamento?! — berrou Ksenia.

— Você é obrigado a nos levar de volta!

— A volta é outro trajeto, senhora! — rosnou o homem.

— Passe uma boa quantia em dinheiro ou descarrego tudo direto na lama!

Furioso, Kostia chutou o tapete enrolado.

O rolo balançou e começou a descer escada abaixo com estrondo.

— Calem a boca todos vocês!

Vamos levar tudo de volta!

A descida dos aspirantes a moradores parecia uma retirada desorganizada.

Kostia quase acabava com as costas arrastando o maldito tapete de volta para o pátio e tropeçando em cada curva.

Ksenia contava as panelas em voz alta, perdendo constantemente a paciência e despejando maldições sobre o marido, o motorista ganancioso e o mundo inteiro.

Valentina Vasilievna, enrolada no cachecol, lamentava-se por todo o prédio dizendo que nunca mais pisaria naquele bairro amaldiçoado.

Tatiana saiu para a varanda de passagem aberta do quarto andar.

Lá embaixo, a discussão continuava acalorada.

O motorista se recusava terminantemente a carregar novamente as caixas enquanto Kostia não lhe desse dinheiro pela espera.

Ksenia corria em volta das caixas, apontando o dedo para o rosto do marido.

A tia estava sentada sobre os pneus de outra pessoa, com a cabeça entre as mãos.

Por fim, Kostia enfiou a mão no bolso, contou algumas notas para o motorista e os dois começaram a jogar os embrulhos na carroceria.

A lateral do reboque se fechou com um estrondo metálico.

O caminhão rugiu, soltou uma nuvem de fumaça azulada diretamente sobre o canteiro e saiu lentamente do pátio.

Dois meses se passaram.

Numa quinta-feira úmida do fim de novembro, Tatiana subiu novamente ao quarto andar.

O período de quarentena sanitária havia terminado por completo.

Ela tirou uma tesoura do bolso, cortou a fita amarela e preta já desbotada e removeu os lacres de papel ressecados.

A nova chave girou facilmente na fechadura, e a porta metálica se abriu suavemente.

Dentro do estúdio havia apenas cheiro de frescor e de reboco seco.

Não restara um único inseto — a equipe havia tratado cuidadosamente todas as frestas.

O telefone vibrou no bolso.

Chegara uma longa mensagem da prima Nadezhda.

Nadezhda contou, com ironia, que Kostia e Ksenia acabaram alugando, por uma quantia nada pequena, um quarto frio de esquina em um barracão de madeira na extremidade da zona industrial.

Metade dos móveis deles ficou encharcada durante as prolongadas chuvas de outono, eles brigaram feio com Valentina Vasilievna por causa das despesas da mudança e agora toda a família estava sem um centavo, acusando todo mundo ao redor de não ter coração.

Tatiana guardou o telefone no bolso da jaqueta e tirou o medidor de distância a laser.

O feixe vermelho pousou em linha reta sobre a parede áspera.

Era hora de calcular quantos azulejos seriam necessários para o banheiro.

A reforma prometia ser longa, cuidadosa e, acima de tudo, absolutamente tranquila.