Uma semana depois, eu agradeci apresentando o pedido de divórcio ao juiz.
A água fazia tanto barulho que Larisa não percebeu de imediato se ele tinha respondido ou não.

Ela terminava de lavar uma frigideira, esfregando a borda onde a sujeira tinha secado, e falava de costas para ele, sem se virar, porque assim era mais fácil.
— A empresa vai me mandar para um curso, Lenya.
Por três dias.
Está tudo pago, não vou precisar colocar nem um centavo do meu bolso.
Leonid estava sentado à mesa, de lado para ela, rolando alguma coisa no telefone.
A luz da tela iluminava sua bochecha e os óculos, que agora ele usava até em casa.
Ele não levantou a cabeça.
— E quem vai preparar o jantar? — perguntou, falando para o telefone.
— A Dasha vai viver de macarrão instantâneo, é isso?
Larisa fechou a torneira.
— A Dasha tem dezesseis anos.
— É justamente isso que eu estou dizendo. — Ele deu um sorriso de canto, como se ela própria tivesse acabado de confirmar que ele tinha razão.
— Já é adulta, e a mãe saindo por aí.
Ela secou as mãos na toalha pendurada na porta do forno.
Larisa pegou a frigideira de novo e começou a lavar o que já estava limpo.
Mais devagar do que precisava.
Fazia círculos e mais círculos no fundo liso, embora já não houvesse nada ali para esfregar.
Do lado de fora da janela, alguém estava ligando um carro no pátio.
Leonid colocou o telefone sobre a mesa com a tela virada para cima e pegou o controle remoto.
— Esses seus cursos… — Ele encontrou o canal que queria e aumentou o volume.
— Você não tem mais vinte anos para ficar pulando de seminário em seminário!
— Tenho quarenta e um.
— Pois é. — Ele pareceu até satisfeito com o número.
— É exatamente disso que eu estou falando.
Larisa colocou a frigideira no escorredor.
Ela bateu na borda com um tilintar e ficou torta.
Larisa a ajeitou para que não caísse.
Ficou alguns segundos ao lado da pia, olhando as gotas caírem do escorredor para a bandeja.
Depois acabou se sentando à mesa, em frente ao marido.
— Depois do curso — disse ela — talvez me promovam a chefe de equipe.
Quer dizer, me deem um grupo para coordenar.
O salário é diferente.
— Você? — Ele não chegou a rir, mas soltou o ar pelo nariz de um jeito que deixou perfeitamente claro o que queria dizer.
— Chefe de equipe?
— A Rita diz que é perfeitamente possível.
— Rita. — Ele assentiu várias vezes, como se agora tivesse entendido tudo sobre Rita.
— Entendi.
Pegou o telefone, olhou para ele e o colocou de volta na mesa, dessa vez com a tela virada para baixo.
Larisa conhecia aquele gesto.
Ele colocava o telefone de cabeça para baixo quando estava prestes a dizer algo que considerava importante e queria que ela percebesse que ele estava lhe fazendo um favor ao dedicar atenção a ela.
— Lar. — Ele pronunciou o nome dela de maneira neutra, sem irritação, como quem lembra alguém de uma data esquecida.
— Você devia agradecer por eu ter te escolhido.
Com esse seu diploma e com a sua mãe morando numa aldeia.
O relógio fazia tique-taque na sala.
Era redondo, pendurado na parede havia quinze anos.
Durante quinze anos, ela nunca tinha reparado no som.
Agora reparou.
No corredor, a porta do quarto de Dasha rangeu baixinho.
Abriu até a metade e parou, como se alguém do outro lado estivesse segurando para que não se abrisse completamente.
Larisa não gritou.
Nem sequer sentiu aquilo que, em teoria, deveria ter sentido.
Por dentro, tudo estava calmo, seco e vazio…
Ela se levantou.
Pegou a xícara dele, ainda com um pouco de chá já frio, levou até a pia, despejou o chá, enxaguou a xícara e a colocou de cabeça para baixo.
— Eu ainda não tinha terminado! — disse ele às costas dela.
— Faço outro, se quiser.
Ele não respondeu.
—
De manhã, no corredor de entrada, tudo estava como sempre.
O marido se preparava para ir trabalhar, procurava as chaves, batia nos bolsos da jaqueta e fazia barulho pelo corredor.
— Então — disse ele, abotoando a jaqueta e olhando para ela de lado, quase divertido — agora vamos ficar emburrados por três dias?
Larisa via que ele esperava os lábios dela apertados, um seco “faça o que quiser”, uma porta batendo.
Aquele era o território dele.
Ali ele sempre ganhava, porque conhecia cada reação dela de antemão.
Ela tirou do gancho a segunda jaqueta dele, a mais quente, aquela de que ele sempre se esquecia, embora as manhãs já estivessem frias.
Estendeu para ele.
— Leve esta.
E não esqueça as chaves, estão ali no móvel.
Ele pegou a jaqueta e ficou parado com ela nas mãos, olhando para a esposa, sem encontrar nada em que se apoiar.
Não havia mágoa, lágrimas, lábios apertados, nada daquilo que ele sabia interpretar.
Pela primeira vez em muitos anos, ele não entendia o que ela estava sentindo, e isso pareceu desorientá-lo um pouco.
Chegou a abrir a boca para dizer alguma coisa, mas desistiu.
— Bom.
Estou indo.
A porta se fechou.
Ela ouviu quando ele chamou o elevador e o zumbido da cabine subindo.
Larisa desceu dez minutos depois, de propósito, para não pegar o elevador com ele.
Dentro da cabine, tirou o telefone do bolso.
Normalmente, nesses minutos, lia coisas como: como deixar de se ofender, como salvar o casamento, como falar com um homem para que ele escute.
Dessa vez, abriu a barra de pesquisa vazia e digitou: divisão de apartamento escritura de doação.
Apareceram links, títulos, anúncios de advogados com números de telefone.
Larisa olhou para aquilo por um segundo, dois.
Depois fechou tudo, como se tivesse se queimado, e enfiou o telefone no bolso.
O elevador abriu e ela saiu.
Mas não apagou a aba.
No trabalho, o dia passou como de costume.
Telefonemas, planilhas, aniversário de alguém, bolo na sala de reuniões que ela não comeu.
Na hora do almoço, Rita se sentou ao lado dela e empurrou o próprio prato de salada para mais perto, quase encostando no cotovelo de Larisa.
— Coma.
Você está andando por aí há uma semana como se fosse de vidro.
O que ele fez dessa vez?
Larisa espetou uma folha de salada com o garfo, mas não comeu.
— Pelo contrário — disse ela.
— Eu parei de…
— Parou de quê?
— De responder e reagir.
Não aguento mais.
Rita olhou para ela com mais atenção e largou o garfo.
— O que você está planejando?
Não foi uma pergunta.
— Larisa.
Você não está pensando em divórcio, está?
Vocês têm apartamento, têm a Dasha, estão juntos há quinze anos…
Por quê?
Ele não bebe, não bate em você, leva dinheiro para casa.
Tem gente que se agarra com unhas e dentes a um homem desses!
Larisa tirou da bolsa um pequeno bloco de notas.
Era de espiral e normalmente servia para anotar compras.
Abriu o telefone, encontrou a página que precisava e começou a copiar no bloco o endereço e o horário de atendimento.
Com uma letra firme, número por número, sem olhar para Rita nem uma vez.
— Você está pelo menos me ouvindo? — perguntou Rita.
Larisa terminou de escrever os horários, colocou um ponto final e guardou o bloco na bolsa.
— A salada está realmente boa — disse ela.
— Qual é o molho?
—
No sábado, ela foi até a aldeia visitar a mãe sem avisar antes.
Primeiro de ônibus, depois a pé desde o ponto, atravessando um campo onde a lama tinha sido coberta pela primeira camada fina de gelo e quebrava sob seus pés.
Nina Fiodorovna abriu a porta, viu a filha na soleira e imediatamente começou a se agitar.
As mãos começaram a tremer, como sempre acontecia quando algo inesperado surgia.
— Larisa?
Por que não ligou?
Aconteceu alguma coisa?
Entre, entre, vou colocar a chaleira no fogo.
Larisa a abraçou.
Ficou assim um pouco mais do que de costume, sentindo sob as mãos as omoplatas magras e pontudas.
A mãe percebeu e ficou imóvel no abraço, apreensiva.
Sentaram-se à mesa.
— Mãe. — Larisa esquentava as mãos ao redor da xícara.
— Onde está a escritura de doação da vovó?
Aquela da metade da casa.
Ainda está guardada?
A mãe congelou com a chaleira na mão.
Ela se inclinou, e uma gota caiu do bico sobre a toalha plástica.
— Está.
Na cômoda, na pasta amarela. — Ela colocou a chaleira na mesa, mas não tirou as mãos dali, segurando a borda.
— Você vai deixá-lo?
— Eu perguntei sobre o documento, mãe.
— Mas como… — Nina Fiodorovna falava baixo, olhando não para a filha, mas para a toalha, para a pequena mancha molhada.
— Ele te tirou daquele dormitório, sua tola.
Você vivia praticamente de favor, não tinha casa, não tinha nada.
Ele tinha apartamento, salário.
Para onde você vai?
Larisa escutava.
Já tinha ouvido aquela frase centenas de vezes, mas sempre de Leonid, à mesa, dirigida a ela.
Agora a ouvia da boca da própria mãe, com as mesmas palavras e a mesma entonação, e percebeu que a mãe não dizia aquilo para culpá-la.
Dizia sinceramente, porque acreditava naquilo.
Durante quinze anos, tivera certeza de que a filha devia algo ao marido.
Larisa não respondeu.
Terminou o chá, levantou-se, foi até a cômoda, abriu a gaveta de baixo e tirou a pasta amarela.
Abriu, conferiu se o documento estava dentro e colocou a pasta na bolsa.
— Deixe onde estava — disse a mãe.
— Não carregue esse pecado.
— Eu trago de volta, mãe.
Vou fazer uma cópia e devolvo.
Nina Fiodorovna continuou sentada à mesa, pequena, olhando para a bolsa nas mãos da filha como se dela estivesse saindo alguma coisa vergonhosa.
—
À noite, o apartamento estava escuro.
Apenas a luz noturna perto do teto brilhava fracamente no corredor, aquela que Dasha ainda não deixava ninguém apagar.
Durante o dia, Leonid tinha tentado conversar como sempre, como se não tivesse dito nada na noite anterior.
No almoço, chegou até a chamá-la para assistir a um filme em que havia tiros e alguém traía alguém.
Ela sentou ao lado dele no sofá e riu nas partes em que deveria rir, porque era mais silencioso e mais fácil fazer isso do que explicar por que não tinha vontade de rir.
Agora ele dormia.
Dormia pesado, de costas, com a boca entreaberta e um braço pendurado pela lateral do sofá.
Larisa se levantou e foi até o cômodo onde ficava o armário dos documentos.
Abriu a porta segurando-a para que não rangesse.
Pegou a pasta de baixo, aquela onde estavam os documentos do apartamento, o contrato e os comprovantes de renda dele, os mesmos que ele tinha levado quando fizeram um financiamento para a cozinha.
Espalhou os papéis no chão de modo que a luz do telefone caísse de maneira uniforme e começou a fotografá-los.
Folha, virar, foto.
Conferir se o número estava legível, se o carimbo não tinha saído borrado.
Ela não tinha pressa e não tremia.
As mãos simplesmente faziam o que tinham de fazer, como no trabalho, quando escaneava notas fiscais de outras pessoas.
Colocou cada folha exatamente no lugar em que estava.
Passou a palma sobre uma dobra no contrato e alisou uma ponta que tinha se levantado.
Não revirou nada, não deixou bagunça.
A luz da cozinha se acendeu.
Larisa levantou a cabeça.
Na porta estava Dasha, descalça, usando uma camiseta larga e velha, olhando para a mãe sentada no chão, cercada de documentos e com o telefone na mão.
As duas ficaram em silêncio.
A luz da cozinha atravessava o corredor formando uma faixa, e naquela faixa dava para ver claramente que Dasha tinha entendido tudo.
Não os documentos em si, mas o que estava acontecendo de verdade.
Larisa não tentou explicar nada, e a filha não perguntou.
Ficou ali alguns instantes, mudando o peso de um pé descalço para o outro sobre o chão frio, e depois voltou para o quarto.
A porta se fechou devagar.
Um minuto depois, a luz da cozinha também se apagou.
Dasha havia apagado ela mesma, como se dissesse: não vou atrapalhar.
—
O curso acontecia do outro lado da cidade, durante três dias, em uma sala de conferências de um hotel.
Larisa fazia anotações enquanto o instrutor falava, levantava a mão, respondia quando perguntavam alguma coisa e, nos intervalos, bebia café solúvel da máquina junto com os outros.
Uma mulher chamada Olya, com quem ela começou a conversar perto da máquina de café, alugava um quarto.
A filha dela tinha ido embora, e a casa tinha ficado vazia demais e cara demais para manter sozinha.
— Para os primeiros tempos, se precisar — disse Olya, mexendo o açúcar com um palitinho de plástico.
— Cobro barato.
Para mim, basta não ficar sozinha…
— Posso entrar na segunda-feira? — perguntou Larisa.
Olya olhou para ela com um pouco mais de atenção, mas não começou a fazer perguntas.
— Pode ser na segunda mesmo.
Larisa voltou para casa não descansada, mas concentrada, como se durante três dias não tivesse ficado sentada numa cadeira, e sim carregado sacos pesados.
No corredor de entrada havia cheiro de batata frita, que Dasha tinha preparado sozinha.
Na geladeira, sob um ímã em forma de morango, havia um bilhete arrancado de um caderno quadriculado, escrito com a letra cheia de voltinhas de Dasha:
“O jantar estava gostoso (fui eu que fiz).
Estou com você.”
Larisa tirou o bilhete e leu.
Depois leu de novo.
Ficou segurando aquela folha quadriculada por mais tempo do que tinha segurado qualquer outro documento naquela semana.
Mais tempo do que a escritura de doação, mais tempo do que o contrato.
A filha já tinha tomado a decisão antes mesmo que alguém pedisse alguma coisa a ela.
Larisa dobrou o bilhete em quatro e o guardou no bolso interno da bolsa, onde estavam os documentos.
—
O escritório da advogada ficava no terceiro andar de um centro comercial, entre um cartório e uma empresa que vendia janelas.
A advogada era uma mulher já madura, usava óculos presos por uma correntinha e tinha o rosto cansado de quem já tinha ouvido de tudo.
Larisa colocou a pasta sobre a mesa.
A advogada folheava os documentos, colocava e tirava os óculos e fazia algumas anotações.
— Certo.
Qual fundamento vamos colocar? — Ela ergueu os olhos.
— Isso não chega a ser maus-tratos, entende.
Não há agressões, não há laudos médicos.
Alcoolismo também precisaria ser comprovado, e seu marido trabalha.
Aqui inclusive há comprovantes de renda bem razoáveis.
— Escreva: incompatibilidade de gênios.
— Certo, incompatibilidade então. — A advogada fez uma anotação.
— Seu marido sabe?
— Vai descobrir no dia certo.
A advogada olhou para ela por cima dos óculos, rapidamente, como se estivesse avaliando alguma coisa, mas não disse nada.
Empurrou o formulário para mais perto e mostrou onde assinar e onde colocar a data.
Larisa pegou a caneta.
E foi justamente naquele momento, quando só faltava escrever a data, que seus dedos começaram a tremer.
Ela pressionou a mão contra a mesa para que as letras não saíssem tortas.
Os dedos tremiam porque, dali em diante, já não seria possível voltar atrás.
Ela tinha feito tudo de propósito de modo que não fosse mais possível desistir.
Escreveu a data, pressionando a caneta com mais força do que o necessário, e a assinatura saiu grossa e marcada.
— O pedido será aceito e vocês receberão uma convocação.
Daqui a… — a advogada olhou para o calendário na parede — aproximadamente uma semana devem marcar a audiência.
A cópia você mesma entrega para ele ou prefere enviar pelo correio?
— Eu mesma entrego.
—
Naquela noite, tudo estava como na noite de uma semana antes.
Larisa estava na pia lavando a louça.
Leonid estava sentado à mesa com o telefone.
Só que agora ele estava bem-humorado, descansado, e de vez em quando olhava para ela por cima da tela quase com ternura.
— E aí, como foi o curso? — perguntou.
— Aprendeu alguma coisa?
— Aprendi.
— Se te derem um aumento, a gente viaja no verão, hein? — Ele largou o telefone e se recostou na cadeira.
— Você sempre sonhou com o mar.
Vamos para o sul, que tal?
Deixamos a Dasha com sua mãe e vamos nós dois…
Ele oferecia aquilo como quem oferece um doce para uma criança depois que ela para de chorar.
O verão, o mar, os dois juntos.
Tudo como sempre: primeiro esmagar, depois seduzir com uma promessa.
Larisa fechou a torneira.
Secou as mãos e tirou da bolsa, que estava sobre um banquinho, uma única folha.
Foi até a mesa e a colocou na frente dele, diretamente sobre o telefone.
Leonid pegou a folha ainda sorrindo e a afastou um pouco para conseguir enxergar sem os óculos.
— O que é isso… — começou a ler.
O sorriso não desapareceu imediatamente porque ele ainda não acreditava.
— O que é isso, Larisa?
— Você queria que eu agradecesse. — Ela falava calmamente, sem levantar a voz.
— Aqui está.
Obrigada.
Por tudo.
Ele leu de novo.
Virou a folha, como se no verso estivesse escrito que aquilo era uma brincadeira.
O verso estava em branco.
Colocou o papel sobre a mesa, alisou, depois pegou de novo.
— Por causa de uma frase? — Ele deu um sorriso torto.
— Você está falando sério?!
Por causa do que eu te disse?
Ora… em quinze anos qualquer um pode falar uma besteira.
— Não é por causa de uma frase.
— Então por quê? — Ele elevou a voz, e nela apareceu algo que antes não existia.
Nem tanto raiva, mas confusão.
— A gente tinha tudo.
Apartamento, dinheiro.
Eu não saio com outras mulheres, eu volto para casa.
Você até foi para esse curso e eu não disse uma palavra!
— Disse.
Ele se calou.
Depois encontrou algo em que se agarrar.
Aquilo que sempre funcionava.
— Sem mim você não dura nem um mês! — Ele se levantou e empurrou a cadeira para trás.
— Para onde você vai?
Vai voltar para a sua mãe na aldeia e quebrar gelo?
Você não tem nada que seja seu.
Tudo isso… — ele fez um gesto indicando a cozinha, as paredes — é meu.
Você só está registrada neste apartamento porque eu deixei.
Ele atacava justamente o único ponto que durante quinze anos sempre tinha doído.
E esperava que ela desmoronasse, que chorasse, que começasse a se justificar.
Na porta da cozinha apareceu Dasha.
Estava com uma mochila cheia nas costas e a jaqueta nas mãos.
Não ficou de lado.
Parou ao lado da mãe, tão perto que os ombros das duas se encostavam.
Leonid olhou para a esposa, depois para a filha e novamente para a esposa.
Algo mudou em seu rosto.
De repente, ele estava do outro lado da mesa, sozinho, enquanto as duas estavam em pé diante dele.
E aquela não era a configuração à qual ele estava acostumado havia quinze anos.
— Daria. — Ele tentou usar outro tom, paternal e severo.
— Aonde você pensa que vai a esta hora?
Volte para o seu quarto.
Dasha olhou para ele.
Não de modo desafiador, mas como se olha para alguém de quem se sente um pouco de pena.
— Eu vou com a mamãe, pai.
Larisa pegou das mãos da filha o gorro.
Era de lã, cinza, e ela mesma tinha tricotado dois invernos antes.
Colocou na cabeça de Dasha, ajeitou para cobrir bem as orelhas e puxou a gola da jaqueta para cima.
Era um gesto habitual, doméstico, repetido mil vezes antes da escola, antes do frio, antes de sair.
Só que daquela vez era um gesto de partida.
— Lara!
Espera.
Vamos conversar.
Você realmente não tem nada.
Nem casa, nem dinheiro para os primeiros tempos, nada.
Para onde você vai?
Larisa fechou completamente o zíper da jaqueta de Dasha.
Abriu a porta de entrada e deixou a filha sair primeiro para o corredor.
Dasha saiu e ficou esperando perto do elevador.
Larisa pegou a própria bolsa no banquinho e a colocou no ombro.
Já na soleira, sem se virar, disse, não diretamente para ele, mas em direção ao cabide:
— Tenho sim.
Metade da casa da minha avó.
Um quarto a partir de segunda-feira.
O tribunal é daqui a uma semana.
A convocação vai chegar, você assina o recebimento.
Ela atravessou a porta.
Segurou para que não batesse.
— As costeletas estão no congelador.
Descongele na potência média, senão você vai queimar de novo.
A porta se fechou com o clique da fechadura.
Sobre a mesa ficou a folha com a assinatura firme e grossa dela e a data marcada no papel.
Ao lado, a xícara dele com o chá pela metade, já frio, que daquela vez ele nem chegou a tocar de novo.







