Olga saiu do escritório pela última vez, segurando nas mãos uma pequena caixa com os seus pertences pessoais.
O vento de outubro bagunçava seus cabelos, e por dentro ela se sentia surpreendentemente leve.

Nenhum arrependimento, nenhuma dúvida.
Só alívio.
Sete anos de trabalho naquela empresa tinham ficado para trás.
Sete anos em que cada salário ia para os mesmos endereços de sempre antes mesmo que Olga conseguisse pensar em si.
A sogra, Valentina Sergueievna, a irmã do marido, Lena, os sobrinhos, as contas de serviços, a comida, os remédios, o material escolar.
A lista nunca terminava.
Tudo começou aos poucos.
Quando Olga se casou com Pavel, a sogra deixou claro desde o início que a nora tinha que ser útil.
Não com palavras diretas, claro.
Valentina Sergueievna sabia falar de um jeito que fosse impossível recusar.
— Olenka, chegou aqui a conta da luz e do gás.
A aposentadoria não dá.
Você podia me ajudar?
Eu te devolvo depois, com certeza.
Esse “depois” nunca chegava.
Em vez disso, os pedidos ficavam cada vez mais frequentes.
— Olenka, os filhos da Lena vão começar as aulas.
Você sabe como tudo está caro hoje em dia.
Talvez você possa transferir um dinheirinho?
— Olenka, o médico me receitou uns remédios.
São tão caros.
Ajuda a mamãe, querida.
No começo, Olga achava que estava ajudando a família.
Que era assim mesmo que deveria ser.
Pavel sempre assentia quando a sogra ligava e dizia:
— Ah, ajuda a mamãe.
Ela está sozinha.
Sozinha.
Valentina Sergueievna não estava sozinha.
Ela tinha uma filha, Lena, que trabalhava como vendedora em uma loja, mas, por algum motivo, nunca ajudava a mãe.
Provavelmente achava que essa era obrigação da nora.
Olga fazia transferências.
Pagava as contas.
Comprava mantimentos e os levava para a sogra.
Às vezes ficava um pouco com Valentina Sergueievna, ouvindo os intermináveis relatos sobre os vizinhos, sobre a saúde, sobre como era difícil viver só com a aposentadoria.
— Olha, o filho da Maria Ivanovna visita a mãe toda semana, leva presentes.
E o meu Pavel se esqueceu da mãe de vez.
Olga ficava calada.
Pavel não se esquecia.
Ele só sabia que a esposa resolveria todos os problemas.
Com o tempo, as exigências aumentaram.
Valentina Sergueievna deixou até de agradecer.
O dinheiro passou a ser visto como algo natural.
Como se Olga tivesse a obrigação de entregá-lo.
Como se aquele não fosse o salário dela, e sim um orçamento familiar do qual todos tinham direito de tirar.
Lena também já tinha se acostumado.
Ligava uma vez por mês, sempre com o mesmo pedido:
— Olia, manda um dinheiro para as crianças.
Elas precisam de sapatos.
Ou de casacos.
Ou para as atividades.
Os filhos da Lena eram saudáveis, bem alimentados, com celulares de última geração.
Mas o dinheiro nunca era suficiente.
Olga mandava.
Porque dizer não significava ouvir de Pavel:
— E daí, o que que tem?
São crianças.
Crianças.
Crianças que nem eram dela, que Olga via duas vezes por ano.
Mas recusar não era uma opção.
Três anos antes, Pavel tinha perdido o emprego.
Ele disse que era temporário, que logo encontraria algo melhor.
Esse “temporário” se arrastou.
Pavel procurava trabalho, mas de forma bem morna.
Recusava vagas em que o salário parecia baixo demais.
Esperava algo mais adequado.
Enquanto esperava, todas as despesas caíam nas costas de Olga.
Não só as deles, mas também as da família de Pavel.
Valentina Sergueievna não passou a pedir menos.
Pelo contrário.
— Olenka, você entende, agora está difícil para o Pavel.
Não quero preocupá-lo.
Você vai ajudar, não vai?
Olga ajudava.
Porque estava cansada de discutir.
Cansada de explicar que o dinheiro não dava.
Cansada de ouvir que a família era mais importante que tudo.
Pavel não se metia nessas brigas.
Ficava no computador, procurando emprego ou jogando.
Quando Olga tentava falar sobre o fato de que não dava para sustentar todo mundo sozinha, o marido dispensava o assunto:
— Você está exagerando.
A mãe pede só um pouquinho.
Para a Lena também está difícil.
“Um pouquinho”.
Olga fez as contas um dia.
Em um ano, quase um terço do salário dela ia para os parentes de Pavel.
Um terço.
E ainda tinha o financiamento do apartamento, a comida, as roupas, a gasolina.
Para ela mesma, quase nada sobrava.
Quando Olga comprou um casaco novo, Valentina Sergueievna olhou e comentou:
— Deve ter sido caro.
E eu aqui sem dinheiro nem para remédios.
Olga fechou as mãos em punho.
Ficou quieta.
O casaco não tinha sido caro, mas ela não queria explicar isso para a sogra.
No verão, Lena pediu dinheiro para as férias das crianças.
Disse que elas estavam cansadas, que precisavam do mar.
— Olia, me ajuda.
Eu devolvo depois.
Olga fez a transferência.
Lena não devolveu nada.
Mas mostrava fotos da praia, com as crianças tomando sorvete e andando de banana boat.
Olga ficou em casa.
Passou as férias na chácara de uma amiga, porque não tinha dinheiro para ir ao mar.
Pavel disse:
— E daí?
Aqui também é bom.
Bom.
Para Olga não estava nada bom.
Em setembro, Valentina Sergueievna pediu que Olga pagasse a reforma do banheiro.
Disse que os canos estavam totalmente podres e que iria inundar os vizinhos se não arrumassem logo.
Olga pagou.
Depois descobriu que a sogra tinha mandado trocar não só os canos, mas também o revestimento e ainda comprou um misturador mais caro.
Porque, já que era para fazer, era para fazer direito.
Quando Olga perguntou por que tinha gasto a mais, a sogra se ofendeu:
— Pensei que você não tivesse pena de mim.
Não sou uma estranha.
Não era uma estranha.
Mas também não era alguém realmente “dela”.
Valentina Sergueievna nunca se interessava em saber como Olga estava.
Nunca perguntava se ela estava cansada, se precisava de ajuda.
Só pedia.
Exigia.
Achava que tinha esse direito.
Olga estava cansada.
Cansada de acordar pensando para quem teria que transferir dinheiro naquele dia.
Cansada de contar cada centavo.
Cansada de ouvir acusações quando dizia não.
E também estava cansada de Pavel.
Do fato de o marido não enxergar o problema.
De não querer enxergar.
Para ele, era cômodo que a esposa resolvesse tudo.
Que a mãe estivesse satisfeita, que a irmã não reclamasse, que os sobrinhos estivessem bem vestidos e alimentados.
Olga pensou durante meses.
Pesou tudo, tentou encontrar um meio-termo.
Mas o meio-termo não existe quando o outro lado não quer ceder.
Então Olga tomou uma decisão.
Primeiro, escreveu a carta de demissão.
O chefe ficou surpreso, tentou fazê-la mudar de ideia, ofereceu férias.
Mas Olga estava decidida.
Ela precisava parar.
Respirar.
Entender o que faria a seguir.
Depois, entrou no aplicativo do banco e cancelou todos os pagamentos automáticos.
As contas de serviços de Valentina Sergueievna, as transferências para Lena, as assinaturas de besteiras que Pavel pedia.
Olga não explicou nada.
Simplesmente interrompeu o fluxo de dinheiro.
Na primeira semana, tudo ficou quieto.
Pelo visto ninguém tinha percebido.
Ou perceberam, mas acharam que era erro.
No oitavo dia, Valentina Sergueievna ligou.
— Olenka, você se esqueceu de pagar as contas.
Chegou o boleto aqui.
— Eu não vou mais pagar, Valentina Sergueievna.
Silêncio.
— Como assim não vai pagar?
Você sempre pagou.
— “Sempre” não quer dizer “para sempre”.
— Mas por quê?
O que aconteceu?
— Eu me demiti.
Não tenho mais dinheiro.
— Se demitiu?
Pra quê?
— Eu precisava.
— E eu?
Com o quê vou pagar?!
— A senhora tem a sua aposentadoria, Valentina Sergueievna.
E tem uma filha também.
— A aposentadoria é pouca!
E a Lena mal consegue se virar!
— Sinto muito.
Mas eu não posso mais.
Valentina Sergueievna desligou.
Olga soltou o ar.
No dia seguinte, foi a vez de Lena ligar.
— Olia, o que deu em você?
A mãe está chorando.
Ela disse que você se recusou a ajudá-la.
— Eu me demiti.
Não posso mais ajudar.
— Como assim se demitiu?
E vocês vão viver de quê?
— Esse é o meu problema, Lena.
— Mas você sabe que a mãe não tem dinheiro!
Como ela vai ficar?
— Não sei.
Talvez você possa ajudá-la.
— Eu tenho meus filhos!
Eu também preciso de ajuda!
— Então arrumem outro patrocinador.
Olga desligou o telefone.
As mãos tremiam, mas ela sorria.
Pela primeira vez em muitos anos, sentia-se leve.
Pavel soube à noite.
Voltou de mais uma entrevista, para a qual na verdade nem tinha chegado, porque ficou preso no trânsito.
— A mãe ligou, — disse o marido.
— Ela disse que você negou ajuda.
— Sim.
— Por quê?
— Porque estou cansada.
— Cansada de quê?
Você só fazia umas transferências.
— “Só”?
Pavel, por sete anos eu sustentei a sua família.
Paguei contas, comprei comida, roupas, remédios.
Sete anos.
E você nem notou.
— Eu achei que não fosse tão difícil para você.
— Não fosse difícil?
Mal dava para nós dois.
E você está há três anos sem trabalhar.
E, mesmo assim, sua mãe pedia, sua irmã pedia.
E você ficava calado.
— Mas eles são a família.
— Eu também sou família.
Mas, estranhamente, só eu tinha que sustentar todo mundo.
Pavel franziu a testa.
Claramente não esperava uma conversa assim.
— Você podia ter falado, se estava tão pesado.
— Eu falei.
Você é que não ouvia.
— Tá bom, eu entendi.
Você descansa um pouco e tudo volta ao normal.
— Eu me demiti, Pavel.
O marido congelou.
— O quê?
— Eu me demiti do trabalho.
— Pra quê?!
— Eu precisava.
— E vamos viver de quê?
— Eu tenho algumas economias.
Dão para uns dois meses.
Depois a gente vê.
— “A gente vê”?
Você ficou louca?
Quem vai pagar o financiamento?
— Eu.
Enquanto tiver dinheiro.
Depois você arruma um emprego.
Ou eu arrumo.
Mas para a sua família, não dou mais um centavo.
— Você não pode simplesmente abandonar a minha mãe!
— Posso.
E abandonei.
Pavel queria dizer alguma coisa, mas Olga foi para o quarto e fechou a porta.
Não queria falar mais nada.
A manhã seguinte começou com o telefone tocando.
Olga olhou para a tela.
Valentina Sergueievna.
Ela rejeitou a chamada.
Um minuto depois, outra ligação.
Lena.
Rejeitou.
Mais um minuto.
De novo a sogra.
Olga desligou o celular.
Pavel estava sentado na cozinha, carrancudo.
Quieto.
Tomava café e olhava pela janela.
— A mamãe vai vir aqui, — disse o marido.
— Para conversar.
— Que venha.
— Você vai falar com ela?
— Se eu quiser.
— Olga, não dá pra ser assim.
— Dá, sim.
Olga se vestiu e saiu de casa.
O dia estava livre.
Pela primeira vez em muitos anos, ela não precisava correr para lugar nenhum.
Não precisava pensar em trabalho, em contas, em pedidos.
Só em si mesma.
Ela caminhou pelo parque.
Observava as folhas amarelas, as pessoas, o céu.
Pensava no que viria depois.
Mas, curiosamente, não estava com medo.
À noite, Olga ligou o celular.
Quinze chamadas perdidas da Valentina Sergueievna.
Oito de Lena.
Três de Pavel.
Nenhuma mensagem.
Só ligações.
Olga sorriu e desligou o telefone de novo.
Que esperassem.
Naquela noite, ela dormiu mal.
Não por preocupação, mas porque não estava acostumada a deitar no silêncio sem pensar no dia de trabalho seguinte.
Pavel se virava ao lado, suspirava, mas não dizia nada.
Provavelmente estava pensando na situação.
Ou com raiva.
Olga não sabia e não perguntou.
Por volta das seis da manhã, a campainha tocou de repente.
Longo, insistente.
Depois de novo.
E de novo.
Olga abriu os olhos.
Pavel também acordou, mas não se mexeu.
Continuou deitado, olhando para o teto.
A campainha não parava.
— Pavel, abre a porta, — murmurou Olga.
O marido ficou em silêncio.
— Pavel!
— É a mamãe, — disse baixinho.
— Provavelmente.
— E daí?
— Vai você abrir.
Olga levantou.
Vestiu o roupão e foi até o hall.
Olhou pelo olho mágico.
No corredor estava Valentina Sergueievna, com o casaco jogado por cima do roupão.
O rosto vermelho, o olhar decidido.
Olga abriu a porta.
Valentina Sergueievna entrou no apartamento sem nem cumprimentar.
— Quem você pensa que é?! — gritou a sogra.
— Como ousa abandonar os parentes na hora da dificuldade?!
Olga fechou a porta com calma.
Ficou parada, olhando para a sogra.
— Você está me ouvindo?!
Estou falando com você! — Valentina Sergueievna se aproximou, apontando o dedo no ar, bem na frente do rosto de Olga.
— Você está envergonhando a família inteira!
Como pode agir assim?!
— Valentina Sergueievna, são seis da manhã, — disse Olga, em tom calmo.
— A senhora acordou os vizinhos.
— Eu não tô nem aí pros vizinhos!
Você acha que é fácil pra mim vir aqui a essa hora?!
Mas você não me deixou escolha!
— Ninguém pediu para a senhora vir.
— Como assim ninguém?!
Você desligou o telefone!
Não atende as ligações!
Você acha que pode simplesmente parar e abandonar uma mãe?!
— A senhora não é minha mãe.
Valentina Sergueievna congelou.
Os olhos se arregalaram.
— O que você disse?!
— Eu disse que a senhora não é minha mãe.
É mãe do Pavel.
É ele que tem que ajudá-la.
— O Pavel está sem trabalho!
Você sabe disso!
— Eu sei.
Eu sei disso há três anos.
E há três anos eu sustento todo mundo sozinha.
— É assim que tem que ser!
Você é a nora!
É obrigada a ajudar a família!
— Eu não sou obrigada a nada.
Valentina Sergueievna ficou sem ar de tanta indignação.
O rosto ficou roxo.
— Ingrata!
Nós te recebemos na família!
Como se fosse nossa!
E você!
— “Como se fosse nossa”? — Olga sorriu, amarga.
— Como alguém da família que tem que pagar por todos?
— Você ganha dinheiro!
Então tem que dividir!
— Eu não ganho mais.
Me demiti.
— Pra quê?!
Pra me castigar?!
— Pra poder viver para mim mesma.
Valentina Sergueievna começou a agitar as mãos.
— Isso é egoísmo!
Egoísmo puro!
Como você não tem vergonha?!
— Eu não tenho vergonha.
— Eu não tenho dinheiro pra pagar o apartamento!
Entende?!
Não tenho!
— Eu entendo.
Mas isso não é problema meu.
— Como não é seu?!
Você é a nora!
— Nora não é caixa eletrônico.
A sogra se sobressaltou, como se tivesse levado um tapa.
Ficou em silêncio por um instante, depois falou mais baixo, mas com a voz tremendo de raiva:
— Pavel!
Pavel, vem aqui!
Silêncio.
O marido não aparecia.
— Pavel!
Eu sei que você está ouvindo!
Vem aqui agora!
A porta do quarto se abriu um pouco.
Pavel saiu, mas não se aproximou.
Ficou parado na entrada, olhando para o chão.
— Diz pra sua esposa parar com esse teatro! — exigiu Valentina Sergueievna.
Pavel ficou calado.
— Pavel!
Você está me ouvindo?!
— Tô, mãe.
— E então?!
— Eu não sei o que dizer.
— Como assim não sabe?!
Você é o homem da casa ou não é?!
Pavel levantou os olhos.
Olhou para a mãe, depois para Olga.
— Mãe, agora não.
Ainda está muito cedo.
— Cedo?!
E quando, então?!
Quando me expulsarem do apartamento?!
— Ninguém vai te expulsar.
— Vão, sim!
Se eu não pagar as contas!
E eu não tenho dinheiro!
A aposentadoria é pequena!
— Mãe, pede para a Lena te ajudar.
— A Lena mal consegue sobreviver!
— Então economiza.
Valentina Sergueievna explodiu.
— Economizar?!
Eu não tenho dinheiro nem para remédios e você fala em economizar?!
— Mãe, eu estou sem trabalho.
Não posso ajudar.
— Então que a sua esposa ajude!
— Ela se demitiu.
— Que arrume outro trabalho!
Pavel abriu as mãos, num gesto de impotência.
— Mãe, foi decisão dela.
— Decisão dela?! — Valentina Sergueievna se virou para Olga.
— Então agora você decide por toda a família?!
— Por mim, — respondeu Olga, calma.
— Só por mim.
— Você não tem coração!
É fria!
Eu sabia que você era assim!
Sempre soube, desde o começo!
— E por que ficou calada por sete anos, então?
— Porque eu esperava que você mudasse!
Que se tornasse uma pessoa normal!
— Pessoa normal é quem dá dinheiro pra senhora?
— Pessoa normal é quem ajuda os mais velhos!
Olga se aproximou da porta e a escancarou.
— Por favor, saia, Valentina Sergueievna.
A sogra parou.
— O quê?
— Saia.
A conversa acabou.
— Você está me expulsando?!
— Estou pedindo que a senhora saia do meu apartamento.
— Seu?!
Esse apartamento foi comprado durante o casamento!
Então é dos dois!
Também é do meu filho!
— Saia.
— Eu não saio enquanto você não prometer que vai ajudar!
— Então vai ficar aí parada no vão da porta.
Tanto faz pra mim.
Valentina Sergueievna olhou para o filho.
— Pavel!
Você vai deixar ela falar comigo desse jeito?!
Pavel continuou calado.
Não se mexia.
Não dizia nada.
Só olhava para o lado.
— Pavel!
O marido suspirou.
— Mãe, vamos embora, por favor.
A gente conversa depois.
— Como eu vou embora?!
Sem resolver o problema?!
— Mãe, por favor.
Valentina Sergueievna ficou ali, vermelha, descabelada, com as mãos tremendo de raiva.
Depois se virou bruscamente e saiu.
Na soleira, virou-se de novo:
— Lembre-se do que eu estou te dizendo, Olga!
Você ainda vai se arrepender!
Tudo vai voltar pra você!
Olga fechou a porta em silêncio.
Virou a chave.
Encostou as costas na porta e soltou o ar.
Pavel ainda estava perto do quarto.
— Por que você falou com ela daquele jeito? — perguntou o marido, em voz baixa.
— Daquele jeito como?
— Grossa.
— Grossa? — Olga levantou a sobrancelha.
— Pavel, sua mãe entrou no apartamento às seis da manhã e começou a gritar.
Isso não é ser grossa?
— Mas ela estava nervosa.
— E daí?
Eu tenho que ignorar a mim mesma só para ela não ficar nervosa?
— Não, mas dava pra fazer de outro jeito.
— De que jeito?
— Ah, explicar.
Dizer que por enquanto você não pode ajudar.
— Não é “por enquanto” que eu não posso.
Eu simplesmente não vou mais ajudar.
Pavel ficou em silêncio.
— Ela é minha mãe.
— Eu sei.
— Eu tenho pena dela.
— Eu não tenho.
— Olga, como você pode dizer uma coisa dessas?
— Posso.
Depois de sete anos sendo usada como fonte de dinheiro.
— Ninguém te usou.
— Sério?
E o que foi, então?
— Ah, você ajudava.
Voluntariamente.
— Voluntariamente?
Pavel, toda vez que eu tentava recusar, você pedia para eu ajudar.
Toda vez.
— É que pra mamãe estava mesmo difícil.
— E pra mim estava fácil?
Pavel não respondeu.
— Eu trabalhava.
Sozinha.
Três anos sozinha.
Pagava o apartamento, a comida, tudo.
E ainda sustentava a sua família.
E você nem percebia.
— Eu percebia.
— Não.
Você fingia que não via.
Porque era conveniente pra você.
— Olga, eu estava procurando trabalho!
— Três anos, Pavel?
Em três anos dá pra encontrar qualquer coisa.
Mas você não queria.
Estava esperando algo melhor.
Enquanto esperava, eu dava um jeito sozinha.
Pavel ficou quieto, olhando para o chão.
Depois falou baixinho:
— Então você acha que eu sou um mau marido.
— Eu acho que você é um filho conveniente.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que pra sua mãe é fácil com você.
Você faz tudo o que ela manda.
Não discute.
Não defende a esposa.
Só concorda.
— Eu amo a minha mãe.
Ela é minha mãe.
— E eu?
Eu sou o quê?
Pavel levantou os olhos.
— Você é minha esposa.
— E o que isso significa pra você?
— Bem…
Que estamos juntos.
Uma família.
— Família é quando duas pessoas se apoiam mutuamente.
Não quando uma só sustenta todo mundo.
— Eu não te explorei.
— Não?
Três anos sem trabalho.
Três anos em que eu paguei tudo.
E você não me explorou?
Pavel franziu a testa.
— Não é que eu tenha ficado sem trabalho de propósito.
— Eu sei.
Você simplesmente não se esforçou o suficiente pra encontrar.
— Eu me esforcei!
— Não o bastante.
O marido fechou as mãos em punho.
— Então você acha que a culpa é minha.
— Eu acho que a culpa é sua.
E também minha.
Porque eu deixei que tudo isso continuasse por anos.
Pavel ficou em silêncio.
Depois se virou e foi para o quarto.
Fechou a porta.
Olga ficou parada no corredor.
Os dias seguintes passaram em silêncio.
Pavel quase não falava.
Olga também não.
Valentina Sergueievna não apareceu mais, mas ligava com frequência.
Olga não atendia.
Lena também ligava.
Mandava mensagens.
Acusava Olga de ser fria, egoísta, ingrata.
Olga lia e apagava.
Depois de uma semana, Pavel finalmente arrumou um emprego.
Não era o trabalho dos sonhos, mas era alguma coisa.
O salário não era grande, mas pelo menos Pavel parou de ficar em casa o dia todo, e isso já era um avanço.
Na noite do primeiro dia de trabalho, o marido voltou cansado.
Sentou-se à mesa e Olga serviu o jantar.
— Como foi? — perguntou a esposa.
— Normal, — respondeu Pavel, curto.
— Foi puxado?
— Nem tanto.
Silêncio.
— A mãe ligou, — disse o marido.
— Eu sei.
— Você não vai falar com ela?
— Não.
— Por quê?
— Porque é inútil.
Valentina Sergueievna vai continuar pedindo dinheiro.
E eu não vou dar.
— Ela só quer que você explique.
— Não há nada para explicar.
Está tudo claro.
Pavel largou o garfo.
— Olga, você não acha que já basta?
Ficou chateada, mostrou que tem personalidade.
Mas não dá pra ficar brava pra sempre.
— Eu não estou brava.
Eu só terminei com isso.
— Com o quê?
— Com o fato de ser usada.
— Ninguém te usou!
— Pavel, não começa.
— Não, vamos terminar essa conversa!
Você acha que todo mundo à sua volta é ruim e que só você é boa!
— Eu não acho que ninguém seja ruim.
Eu só entendi que meu tempo e meu dinheiro são meus.
E só meus.
— Mas a família tem que se ajudar!
— Tem, sim.
Mutuamente.
Não em mão única.
— A mamãe também te ajudou!
— Em quê?
Pavel ficou calado.
Pensou.
Depois disse:
— Bem… te dava conselhos.
Olga deu uma risada curta.
— Conselhos.
Que se resumiam a eu trabalhar mais e dar mais.
— Não só isso.
— E o quê mais?
Pavel não respondeu.
Olga se levantou da mesa.
— Eu vou pedir o divórcio, Pavel.
O marido estremeceu.
— O quê?
— Eu vou pedir o divórcio.
Daqui a um mês.
— Por quê?
— Porque eu não quero viver assim.
Não quero ser a vaca leiteira da sua família.
Não quero ficar calada quando não me respeitam.
E não quero estar com alguém que não consegue ficar do meu lado.
— Olga, espera…
Vamos conversar…
— Não tem mais o que conversar.
Eu já tomei minha decisão.
— Mas… mas nós…
Estamos juntos há tantos anos…
— Justamente.
Tantos anos em que eu fui aguentando.
Chega.
Pavel ficou sentado olhando para a esposa.
Depois perguntou baixinho:
— E agora?
— Agora eu vou viver para mim.
E você pode viver como quiser.
Debaixo da asa da sua mãe, se isso for confortável pra você.
Mas sem mim.
Olga foi para o quarto.
Pavel ficou na cozinha.
Um mês depois, o pedido foi feito.
O divórcio foi pelo cartório, porque eles quase não tinham bens em comum, e o apartamento estava financiado, e Olga concordou em continuar pagando se Pavel saísse de lá.
Pavel saiu.
Foi morar com a mãe.
Valentina Sergueievna ficou contente.
O filho de novo por perto.
É claro que agora teria que sustentá-lo sozinha, mas disso a sogra ainda não tinha se dado conta.
Olga ficou sozinha.
No silêncio.
Num apartamento onde ninguém pedia dinheiro, não exigia ajuda, não a acusava de egoísmo.
Depois de dois meses, ela conseguiu um novo trabalho.
O salário era um pouco menor, mas o horário, bem melhor.
Agora ela gastava o dinheiro só com ela mesma.
Comprava o que queria.
Ia a cafés, ao cinema, viajava.
Vivia.
Pavel ligava de vez em quando.
Perguntava como ela estava.
Dava a entender que poderiam voltar.
Olga respondia de forma curta e educada.
Não pensava em voltar.
Valentina Sergueievna também ligou.
Uma única vez.
Gritava que Olga tinha destruído a família, que era egoísta e uma mulher fria.
Olga ouviu tranquilamente e então disse:
— Valentina Sergueievna, foi a senhora que destruiu a família.
Quando decidiu que a nora tinha que sustentar todo mundo.
Fique bem.
E desligou.
A sogra não ligou mais.
Lena escreveu seis meses depois.
Pediu dinheiro emprestado.
Olga nem respondeu.
A vida ia se acertando.
Devagar, mas com firmeza.
Sem gritos, sem acusações, sem pedidos intermináveis de ajuda.
Olga entendeu uma coisa: família não é quem exige.
Família é quem está ao seu lado.
Não só quando precisa de dinheiro, mas sempre.
E, se não houver pessoas assim, é melhor estar sozinha do que com quem te usa.
Certa noite, Olga estava sentada na varanda com uma xícara de chá.
Olhava o pôr do sol e pensava em como tinha sido bom encontrar coragem para dizer “não”.
Como tinha sido bom deixar de ser conveniente para todo mundo.
Como tinha sido bom escolher a si mesma.
E não se arrependeu nem uma vez.







