O ex voltou depois de 12 anos, exatamente no dia em que soube da herança.

Eu servi boršč para ele e chamei minha filha.

A campainha tocou às sete da manhã.

Em um sábado.

Eu estava justamente preparando a massa para tortas salgadas de memorial: na segunda-feira completariam nove dias da morte da tia Galya.

Fui até o olho mágico, enxugando as mãos no avental.

E, no começo, não acreditei no que vi.

No patamar da escada estava Seryozha.

Meu ex-marido.

Com quem eu não falava havia doze anos, oito meses e, para ser bem sincera, quatro dias.

Com uma mala.

Com aquela mesma mala xadrez na qual, quando foi embora em dois mil e treze, colocou suas camisas, o barbeador e a fotografia da nossa filha Katya.

A fotografia, aliás, ele depois jogou fora: a própria Katya me contou que a encontrou na lixeira perto da entrada do prédio, na manhã seguinte à partida dele.

Abri a porta.

Em silêncio.

— Len, — disse ele.

E sorriu com aquele sorriso dele, pelo qual um dia eu derretia.

— Len, eu pensei… Eu fui um idiota, Len.

— Olá, Seryozha, — eu disse com voz calma.

— A que devo a visita?

— Posso entrar?

Eu me afastei.

Em silêncio.

E sabe, naquele momento algo muito calmo estalou dentro de mim.

Como um interruptor.

Eu nem fiquei com raiva.

Eu simplesmente entendi muito, muito bem por que ele tinha vindo.

Porque ex-maridos não aparecem na porta às sete da manhã de sábado com uma mala.

Ex-maridos aparecem na porta com uma mala em um único caso: quando precisam muito, muito de alguma coisa.

E quatro dias antes eu havia herdado o apartamento de três quartos da tia Galya.

Em Chistye Prudy.

Com vista para a água, molduras de gesso nos tetos e parquet de carvalho por onde ainda havia caminhado o pai da minha tia, com botas engraxadas.

E Seryozha, evidentemente, já sabia disso.

De quem, não era difícil adivinhar.

A mãe dele era amiga da minha vizinha de andar.

E a vizinha, tia Valya, soube primeiro, porque eu havia pedido ajuda a ela para carregar as caixas com os papéis da minha tia.

Moscou é uma cidade pequena, como dizem.

— Que cheiro bom! — disse Seryozha, deixando a mala no corredor.

— É boršč?

— Boršč.

De ontem.

— Ah, Len.

Como senti falta do teu boršč.

Aquela, sabes… — ele fez um gesto com a mão e se sentou no banquinho da cozinha sem esperar convite, — não sabia fazer.

Cozinhava de pacote.

Consegues imaginar?

“Aquela” era Ira.

Ela tinha vinte e três anos quando ele me deixou por ela.

Agora, portanto, tinha trinta e cinco.

E, pelo visto, “aquela” já tinha acabado.

Eu servi boršč para ele em silêncio.

Coloquei creme azedo.

Pus pão.

Ele comia com avidez.

Eu observava.

— Len, — disse ele, sem levantar os olhos do prato, — eu sei que fui culpado.

Mas tantos anos se passaram.

Pensei, talvez… somos pessoas adultas.

Talvez uma segunda chance.

Estou cansado, Len.

Completamente sozinho.

— E Ira?

— Foi embora.

Com outro.

Mais jovem.

Ele sorriu amargamente, e eu quase aplaudi: um ator, digno do Teatro de Arte de Moscou.

— Vês, a vida também me ensinou uma lição.

— Acontece, — concordei.

— E tu, como estás?

Sozinha?

— Sozinha.

— E Katya, como está?

Nesse momento quase deixei a concha cair.

Doze anos.

Durante doze anos, ele não perguntou como Katya estava.

Nem uma vez.

Nem no aniversário de oito anos dela, nem quando ela ficou no hospital com apendicite, nem quando terminou a escola com medalha de ouro.

Pensão alimentícia, sim, ele pagava, o mínimo, de um salário informal, uns oito mil rublos.

Mas “como está Katya” era a primeira vez em doze anos.

— Katya está bem, — eu disse.

— Estuda.

— Onde?

— Em São Petersburgo.

Design.

— Ah, está crescendo uma garota talentosa.

Puxou ao pai.

Virei-me para o fogão.

Para que ele não visse meu rosto.

Porque eu estava sorrindo.

Eu sorria como, provavelmente, uma raposa sorri diante de um galinheiro.

Porque Katya não estava em São Petersburgo.

Katya estava sentada no quartinho.

Naquele que antes tinha sido o quarto de criança dela.

Ela havia chegado de avião no dia anterior.

Para o memorial.

E estava ouvindo tudo.

— Seryozh, — eu disse, virando-me, — e a mala, para quê?

Ele se engasgou com o boršč.

Limpou os lábios.

— Len, bem, eu pensei… talvez tu não me expulsasses.

Eu poderia ficar alguns dias.

Conversaríamos.

Estou alugando um apartamento em Butovo, mas o dono decidiu vender, e preciso sair até o dia quinze.

Não é para sempre, Len.

Não sou nenhum folgado.

— Aham, — eu disse.

— Claro.

Não és folgado.

— É verdade que o apartamento da tia Galina ficou para ti?

E aí estava.

Aí estava o motivo do prato de boršč.

Aí estava o motivo do “fui um idiota”.

Aí estava o motivo do “senti saudade”.

Eu até o respeitei um pouquinho pela franqueza.

Perguntou depois de uns vinte minutos, não depois de duas horas.

Progresso.

— É verdade, — eu disse.

— Ficou.

— Em Chistye?

— Em Chistye.

Ele floresceu.

De verdade, como um tomate em agosto.

O rosto ficou rosado, os olhos brilharam.

— Len, — disse ele com emoção, — Len, isso é um sinal.

É o destino.

Nós poderíamos lá juntos… bem, recomeçar.

Eu reformaria tudo, ainda lembro como se faz, ainda tenho habilidades daquela casa.

Transformaríamos aquilo em uma joia.

Poderíamos alugar ou morar lá.

Len…

— Seryozh, — interrompi suavemente, — tu lembras como foste embora?

Ele se calou de repente.

— Len, bem…

— Tu lembras o que disseste na despedida?

Só quero verificar.

Minha memória já não é a mesma.

Ele ficou em silêncio por um momento.

— Len, para quê…

— Eu lembro.

Tu disseste: “Lena, tu envelheceste.

Contigo é entediante.

Eu quero viver, não existir.”

Essa frase é tua, palavra por palavra.

Eu a repeti na cabeça durante dez anos para aprender a não chorar no travesseiro.

Aprendi.

— Len, eu fui um idiota.

— Não discuto.

— Eu mudei.

— Dá para notar muito.

Especialmente pela forma como perguntaste sobre o apartamento logo na entrada.

Ele corou.

De verdade.

Não teatralmente.

— Len, eu não vim por causa do apartamento…

— Vieste por causa do apartamento, Seryozh.

Não vamos fazer isso.

Nós dois somos adultos.

Tu mesmo disseste.

Ele ficou calado.

E, naquele momento, a porta rangeu.

Katya saiu do quarto usando uma camiseta velha e larga minha e calças de moletom.

O cabelo estava como um ninho.

O rosto, sonolento.

Ela tinha vinte anos.

Entrou na cozinha sem olhar para o pai.

Abriu a geladeira.

Serviu-se de kefir.

Sentou-se em frente a mim.

E só então levantou os olhos.

Seryozha ficou imóvel com a colher na mão.

— Katya? — ele expirou.

— Bom dia, — disse Katya com voz neutra.

— Quem é o senhor?

Quase me engasguei.

Aquilo, claro, foi um golpe abaixo da cintura.

Mas que golpe bonito.

— Katya, eu… eu sou teu pai.

— Ah, — disse Katya.

— Pai.

Entendi.

Eu pensei que fosse um entregador.

Por que o senhor não deixa minha mãe dormir às sete da manhã?

— Katyush…

— Não Katyush.

Ekaterina Sergeevna.

Tratamo-nos por “senhor” e “senhora”, se não se importa.

Seryozha abriu a boca.

Fechou.

Abriu de novo.

— Katya, eu vim… conversar.

Com tua mãe.

E contigo também.

Eu… eu queria…

— O apartamento da tia Galina? — perguntou Katya, tomando um gole de kefir.

— Ele é meu.

Fez-se um silêncio tão denso que dava para ouvir os vizinhos de cima dando descarga.

— Como assim? — perguntou Seryozha baixinho.

— Assim mesmo, — disse Katya.

— Tia Galya foi minha madrinha.

Escreveu o testamento em meu nome.

Ainda há seis meses.

Mamãe vai assumir como minha representante, já que tenho só vinte anos, mas isso é uma formalidade técnica.

O apartamento é meu.

Mamãe sabia.

Eu sabia.

Tia Galya sabia.

Só o senhor não sabia.

E, sinceramente, veio com a mala à toa.

Eu olhava para minha filha em silêncio e pensava: de quem ela puxou assim?

Com certeza não de mim.

Eu teria hesitado por uma hora antes de dizer.

Ela, não: disparava como uma metralhadora.

— Len, — Seryozha virou-se para mim, — Len, isso é verdade?

— É verdade, Seryozh.

— E tu… tu ficaste calada?

Ficaste ouvindo enquanto eu aqui…

— Mas tu perguntaste? — dei de ombros.

— Tu chegaste, sentaste, serviste boršč para ti mesmo, inventaste tudo sozinho, decidiste sozinho que nós em Chistye transformaríamos aquilo “em uma joia”.

Eu não te convenci de nada.

Só te servi boršč.

Hospitalidade.

Katya bufou no kefir.

Seryozha se levantou.

Muito lentamente.

O rosto dele estava como se alguém tivesse acabado de despejar um balde em cima dele.

De água fria.

Em janeiro.

— Obrigado pelo almoço, — disse ele entre os dentes.

— De nada, — eu disse.

— Não esqueças a mala.

Ele saiu para o corredor.

Pegou a mala xadrez.

Aquela mesma.

Com a qual, doze anos antes, tinha ido embora de mim para Ira e suas sopas de pacote.

— Seryozh, — chamei quando ele já estava à porta.

— Uma pergunta.

Posso?

— O quê?

— Se o apartamento da tia Galina não fosse em Chistye, mas em algum lugar, digamos, em Kapotnya, tu também terias sentido saudade?

Ele não respondeu.

Bateu a porta.

Bateu tão forte que o cristal no meu armário tilintou.

Katya olhou para mim.

Eu olhei para Katya.

E começamos a gargalhar.

As duas.

Como loucas.

Até as lágrimas, até eu precisar me sentar no chão porque minhas pernas não me seguravam.

— Mãe, — disse Katya entre risos, — tu és um gênio.

“Hospitalidade.”

— Gênio és tu.

“Bom dia, quem é o senhor?”

— Puxei à mamãe, — disse Katya com orgulho.

Ficamos sentadas mais um pouco.

Depois me levantei e fui terminar de amassar a massa.

Tia Galya, que Deus a tenha, sabia escolher herdeiros.

E sabe, acho que ela fez tudo assim de propósito, em nome de Katya, não no meu.

Para que Seryozha não tivesse nem uma chance de pensar que podia voltar.

Ela nunca gostou dele, do Seryozha.

Desde o primeiro encontro dizia: “Lenka, os olhos dele são inquietos.

Não confies.”

Precisei de doze anos para entender que minha tia tinha razão.

E de quatro dias depois da morte dela para que Seryozha confirmasse isso.

Com uma mala.

Aquela mesma, xadrez.

As tortas salgadas naquele dia ficaram de lamber os dedos.

De repolho e de maçã.

Katya devorou três de uma vez e exigiu que eu a ensinasse a assar.

E à noite ela disse:

— Mãe.

Vais alugar o apartamento da tia Galina, não vais?

Eu estudo em São Petersburgo, por enquanto não preciso dele.

— Vou, filha.

O dinheiro vai para os teus estudos.

— Mãe.

— O quê?

— Escolhe tu mesma os inquilinos.

E homens solteiros de quarenta e cinco anos com malas xadrez, elimina logo de cara.

Eu ri.

E a abracei.

E, pela primeira vez naqueles quatro dias, chorei.

De alívio.

Por minha filha ter crescido assim.

Por eu não tê-la quebrado enquanto eu mesma me quebrava.

E porque tia Galya, em algum lugar lá em cima, com certeza estava naquele momento fumando seus queridos “Belomor” e rindo às gargalhadas.