Cheguei à minha casa de campo e encontrei um grupo de desconhecidos.

Ao que parece, agora eles moravam ali, e tudo era perfeitamente legal.

Liudmila Vassilievna passou todo o caminho até a casa de campo atormentada pela culpa.

A estufa.

Como ela pôde se esquecer da estufa?

Cuidava de jardinagem havia vinte anos e, ainda assim, tinha deixado passar uma coisa tão elementar.

É verdade que setembro estava excepcionalmente quente, quase como no verão, mas mesmo assim.

Os tomates poderiam ter queimado com o calor, e os pepinos poderiam ter murchado.

E, acima de tudo, era preciso fechar as janelinhas durante a noite, pois a temperatura ainda caía.

O trem suburbano a balançava de forma monótona e tranquilizadora.

Pela janela passavam paisagens familiares: bétulas, campos e vilarejos de casas de campo.

Liudmila Vassilievna fechou parcialmente os olhos e pensou nos netos.

Machenka tinha começado o terceiro ano, e Kolka, o primeiro.

Como eles cresciam depressa.

Parecia que ainda ontem engatinhavam naquela mesma casa de campo e tentavam comer tomates verdes, e agora já eram estudantes.

Sua filha Natasha, é claro, teria conseguido se virar sem ela, mas como abandonar as crianças num momento tão importante?

O primeiro de setembro era uma verdadeira festa.

Cadernos novos, livros escolares e uniformes.

Liudmila Vassilievna passou três dias correndo de loja em loja com Natasha para escolher uma mochila para Kolka.

O menino fazia birra e queria uma com robôs, enquanto Natasha insistia num modelo preto clássico.

— Mãe, não o mime — dizia a filha.

— Ele vai se acostumar a achar que tudo precisa ser como ele quer.

E o que havia de errado nisso?

Liudmila Vassilievna deu de ombros ao se lembrar daquela conversa.

Que as crianças tivessem ao menos alguma coisa colorida na vida.

Quando se tornassem adultas, teriam muitos motivos para chorar.

E então havia Igor…

Seu filho mais novo parecia preso na infância.

Tinha trinta e dois anos e continuava esperando que a própria vida resolvesse tudo por ele.

Ora frequentava alguns cursos, ora inventava projetos com os amigos.

Mas, na prática, vivia às custas dela.

Morava em seu apartamento, comia sua comida e nem sequer pagava pela internet.

— Mãe, é normal nem todos os projetos darem certo — Igor gostava de repetir.

— Não posso passar a vida inteira trabalhando para os outros.

Natasha já havia deixado de medir as palavras com ele havia muito tempo.

— Trinta e dois anos!

Um empreendedor de startup crescido demais.

Liudmila Vassilievna suspirou.

Os filhos…

Uma era responsável demais, enquanto o outro era irresponsável demais.

Aos vinte e cinco anos, Natasha já era casada.

Aos trinta, havia dado à luz o segundo filho e trabalhava como contadora numa empresa respeitável.

Seu marido, Alexei, era um bom homem e trabalhava como engenheiro.

Tinham apartamento próprio, carro e planos para o futuro.

Igor, porém…

A estação.

Liudmila Vassilievna despertou de seus pensamentos e pegou as bolsas.

Da estação até a casa de campo eram cerca de quinze minutos a pé, caminhando sem pressa.

Era agradável andar: o ar estava fresco, e o sol aquecia sem queimar.

Um verdadeiro dia de verão de São Martinho, como sua mãe costumava dizer.

O vilarejo de casas de campo a recebeu em silêncio.

A maioria dos proprietários já tinha voltado para a cidade, preparando-se para o inverno.

Somente aqui e ali havia sinais de vida: fumaça saindo de uma chaminé, o som de um rádio, o latido de um cachorro.

Liudmila Vassilievna virou em direção ao próprio terreno e parou imóvel.

O portão estava completamente aberto.

Havia luz acesa dentro da casa.

Na varanda, uma mesa havia sido posta, e ao redor dela estavam sentadas pessoas completamente desconhecidas.

Homens e mulheres, todos adultos, na faixa dos trinta ou quarenta anos.

Riam, brindavam e claramente comemoravam alguma coisa.

Liudmila Vassilievna sentiu o sangue gelar.

Ladrões?

Mas que tipo de ladrão organizava banquetes?

Membros de uma seita?

Moradores de rua?

Seu coração batia tão forte que parecia que toda a rua podia ouvi-lo.

Ela se aproximou.

Um dos homens, magro e de óculos, percebeu sua presença e se levantou.

— Boa noite!

A senhora deve ser uma vizinha, não é?

— Sou a proprietária desta casa de campo — disse Liudmila Vassilievna, tentando manter a voz firme.

— E quem são vocês?

O grupo ficou em silêncio.

Uma mulher de cabelos curtos pousou a taça.

— Desculpe-nos, por favor.

Nós alugamos esta casa por uma semana.

Temos um contrato.

— Que contrato? — Liudmila Vassilievna sentiu sua voz começar a tremer.

— Com quem?

— Com um rapaz.

Acho que se chamava Igor — disse o homem de óculos.

— Um sujeito muito simpático.

Ele disse que a casa ficaria livre até outubro.

Liudmila Vassilievna fechou os olhos.

Claro, Igor.

Quem mais poderia ser?

— Posso ver o contrato? — pediu ela.

A mulher de cabelos curtos entrou na casa e voltou um minuto depois com uma folha de papel.

Liudmila Vassilievna reconheceu imediatamente a caligrafia do filho.

Letras grandes e traços descuidados.

“Alugo a casa de campo e o terreno pelo período de uma semana…”

Embaixo estava a assinatura: “I. Frolov”.

— Pagamos adiantado — disse com cuidado outra mulher, um pouco mais velha.

— Quinze mil rublos por uma semana.

É aniversário da Tanya, e logo também será o do Seryozha.

Decidimos comemorar em meio à natureza.

Liudmila Vassilievna devolveu o contrato em silêncio.

Sua cabeça zumbia.

Quinze mil rublos.

Pela casa de campo que ela levara vinte anos para construir.

Por seu jardim, suas hortas, sua estufa…

— Vocês… — começou ela, mas parou.

— Provavelmente são boas pessoas.

Não quero estragar a festa de vocês.

Isso foi um mal-entendido.

Igor não tinha o direito de alugar a casa.

Ele não é o proprietário.

— Nós não sabíamos — disse o homem de óculos, confuso.

— Ele nos mostrou alguns documentos…

— Provavelmente falsos.

Ou talvez fossem os meus.

Liudmila Vassilievna sentou-se no banco ao lado do portão.

Suas pernas estavam bambas.

— Meu Deus, o que está acontecendo…

Os presentes trocaram olhares.

A mulher de cabelos curtos se aproximou.

— Escute, e o que devemos fazer agora?

Tiramos férias e pagamos o dinheiro…

— Não sei — respondeu sinceramente Liudmila Vassilievna.

— Não sei.

Ela tirou o telefone e procurou o número de Igor.

O telefone chamou por muito tempo.

Por fim, ele atendeu.

— Alô, mãe, oi!

Como você está?

— Igor — disse ela em voz baixa.

— Estou na casa de campo.

Há pessoas aqui.

Elas dizem que você alugou a casa para elas.

Houve uma pausa.

Depois, uma risada nervosa.

— Bem… sim.

E daí?

A casa estava vazia de qualquer forma.

Eu pensei…

— Você pensou — repetiu Liudmila Vassilievna.

— Pensou em ganhar dinheiro com algo que não lhe pertence.

— Mãe, não dramatize.

Que diferença faz?

São boas pessoas, eu as verifiquei.

Elas vão deixar tudo limpo.

— Igor — disse ela, e sua voz ficou dura como pedra.

— Amanhã de manhã você pega suas coisas e vai embora.

Para sempre.

— Mãe, o quê?!

Por quê?!

— Porque você tem trinta e dois anos e ainda não entende a diferença entre certo e errado.

Ela encerrou a ligação e guardou o telefone na bolsa.

As pessoas sentadas à mesa permaneciam em silêncio, observando-a.

— Desculpem — disse Liudmila Vassilievna, levantando-se.

— Continuem aproveitando.

Só, por favor, deixem tudo arrumado depois.

E deixem as chaves com a vizinha, tia Klava.

Casa número oito.

— A senhora não quer ficar conosco? — perguntou inesperadamente a mulher mais velha.

— É um aniversário, afinal.

Temos bolo e também churrasco…

Liudmila Vassilievna olhou para ela, surpresa.

— Não, obrigada.

Preciso voltar para casa.

Tenho que resolver as coisas com meu filho.

— Entendo — assentiu a mulher.

— Às vezes, os filhos aprontam cada coisa…

Aliás, meu nome é Galina.

Galina Petrovna.

— Liudmila Vassilievna.

— Muito prazer.

E sabe de uma coisa?

A senhora pode voltar amanhã, se quiser.

Ficaremos aqui até quarta-feira.

Talvez possamos preparar alguma coisa juntas.

Liudmila Vassilievna ficou ainda mais surpresa.

— Por que fariam isso?

— Porque a senhora é uma boa pessoa.

Outra pessoa teria feito um escândalo e chamado a polícia.

A senhora, porém, entendeu que não tínhamos culpa.

O caminho de volta pareceu interminável.

No trem, Liudmila Vassilievna não conseguia se concentrar em nada.

Um único pensamento girava em sua cabeça: “Como ele pôde fazer isso?”

Em casa, Igor a recebeu com um sorriso culpado.

— Mãe, não fique brava.

Eu não fiz por mal.

Só precisava de dinheiro…

— Para quê? — perguntou ela, cansada.

— Para que você precisava de dinheiro?

— Bem… tenho uma ideia.

Estou preparando um plano de negócios…

— Igor — disse Liudmila Vassilievna, sentando-se diante do filho.

— Amanhã você arruma suas coisas e vai embora.

— Mãe!

— Não.

Chega.

Já basta.

Você tem trinta e dois anos, Igor.

Na sua idade, os homens sustentam famílias, criam filhos e constroem casas.

E você…

— Estou tentando me encontrar!

— Você vai se encontrar.

Mas não aqui.

Igor ficou em silêncio por um minuto e depois perguntou:

— Posso ir para a casa da Natasha?

— Pergunte a ela.

Ele telefonou para a irmã na frente da mãe.

Liudmila Vassilievna ouviu Natasha responder de forma curta e firme.

— Não, Igor.

Tenho filhos e marido.

Você tem trinta e dois anos, já está na hora de resolver seus próprios problemas.

— Mas para onde devo ir?

— Não sei.

Trabalhe, alugue uma casa e viva como um adulto.

Depois dessa conversa, Igor passou uma hora sentado em silêncio, encarando o telefone.

Por fim, ligou para alguém.

— Dima, oi.

Escute, posso ficar na sua casa por uma semana?

Só temporariamente…

Sim, claro que vou pagar.

No dia seguinte, ele juntou duas sacolas de roupas e foi embora.

Antes de sair, disse:

— Nunca pensei que você fosse tão cruel, mãe.

— E eu nunca pensei que você fosse tão irresponsável — respondeu Liudmila Vassilievna.

Uma semana depois, Igor telefonou.

Sua voz parecia cansada.

— Mãe, consegui trabalho como entregador.

Numa loja online.

Pagam pouco, mas pelo menos é alguma coisa.

A mãe do Dima está cobrando três mil rublos por semana pela comida e pela hospedagem.

— Ela está certa em cobrar — disse Liudmila Vassilievna.

— Você é um homem adulto.

— Sim, já entendi.

E, na quarta-feira, ela realmente voltou para a casa de campo.

Galina Petrovna e seus amigos revelaram-se pessoas surpreendentemente calorosas.

Galina trabalhava como médica numa clínica, e seu marido, Sergei, era professor de história.

Os outros eram amigos deles: Tanya, psicóloga, Andrei, programador, Natasha, designer, que não devia ser confundida com sua filha, e Igor, engenheiro, completamente diferente de seu filho.

— Que lugar maravilhoso — dizia Tanya, admirando a horta.

— Olhe estes tomates!

E os pepinos!

Liudmila Vassilievna, a senhora é uma feiticeira.

— Imagine — respondia a dona da casa, constrangida.

— Eu apenas amo a terra.

— Nós somos gente da cidade — ria Andrei.

— O máximo que sabemos fazer é cultivar salsa no parapeito da janela.

Eles cozinharam juntos, caminharam pelos arredores e, à noite, sentaram-se ao redor da fogueira.

Havia muito tempo Liudmila Vassilievna não se sentia tão calma e feliz.

— Sabe de uma coisa? — disse Galina Petrovna na última noite.

— Por que não transformamos isso numa tradição?

Podemos nos encontrar aqui todo mês de setembro.

Teremos outros aniversários, e talvez a senhora também…

— O meu é em outubro — admitiu Liudmila Vassilievna.

— Perfeito!

Então incluiremos outubro também.

— Mas não posso aceitar dinheiro de vocês — disse Liudmila Vassilievna.

— Depois de tudo o que aconteceu…

— E nós não vamos pagar pela hospedagem — sorriu Galina.

— Vamos vir como amigos.

Traremos comida e ajudaremos com os trabalhos.

Certo, pessoal?

— Claro! — respondeu Tanya.

— Eu, por exemplo, nunca fiz geleia.

A senhora me ensina?

Liudmila Vassilievna sentiu o coração se aquecer.

Havia muito tempo não se sentia tão necessária para pessoas novas.

Um mês depois, Igor telefonou novamente.

— Mãe, aluguei um apartamento.

É de um cômodo, mas é meu.

E no trabalho já me contrataram em meio período.

Não mais como entregador, mas como assistente de gerente.

— Muito bem — disse Liudmila Vassilievna.

— Tenho orgulho de você.

— Posso ir visitá-la algum dia?

— Claro que pode.

Você é meu filho.

— Obrigado, mãe.

Por ter me mandado embora.

Eu entendi muitas coisas.

E, em outubro, o grupo realmente apareceu.

Trouxeram um bolo enorme, flores e presentes.

Comemoraram o aniversário de Liudmila Vassilievna como ela não comemorava havia muitos anos.

Com músicas, risadas e longas conversas até o amanhecer.

— Sabe de uma coisa? — disse ela a Galina Petrovna quando os outros foram dormir.

— Se alguém tivesse me dito seis meses atrás que eu encontraria meus melhores amigos entre desconhecidos que haviam se instalado ilegalmente na minha casa de campo, eu nunca teria acreditado.

— E eu nunca teria acreditado que me tornaria amiga de uma mulher que poderia ter chamado a polícia, mas não chamou — respondeu Galina.

— Talvez tudo realmente tenha acontecido para melhor — disse Liudmila Vassilievna, pensativa.

— Igor finalmente amadureceu, e eu conheci pessoas novas…

— Com certeza foi para melhor — concordou Galina.

— Caso contrário, estaríamos todos sentados em nossos apartamentos, entediados.

No ano seguinte, eles nem precisaram combinar nada.

Simplesmente sabiam que se encontrariam na casa de campo em setembro.

Igor também apareceu e conheceu o grupo.

Trouxe consigo uma jovem simpática e trabalhadora.

— Mãe — disse ele enquanto ajudava a pôr a mesa.

— Você se lembra de quando dizia: “Cheguei à minha casa de campo e encontrei um grupo de desconhecidos.

Ao que parece, agora eles moram aqui, e tudo é perfeitamente legal”?

— Lembro — sorriu Liudmila Vassilievna.

— Naquela época, pensei que fosse o fim do mundo.

— Mas acabou sendo o começo de uma vida nova.

— Sim — concordou ela, olhando para a mesa posta, ao redor da qual logo se reuniriam as pessoas mais queridas de sua vida.

— Acabou sendo um começo.