— Vamos comprar dois apartamentos de um quarto e finalmente viver bem! — sonhava a sogra.

Ela e o filho consideravam a herança de Tatiana um «patrimônio da família».

Tatiana saiu do cartório com uma pasta de documentos debaixo do braço.

Os seis meses de espera finalmente haviam terminado.

O apartamento de três cômodos no centro da cidade agora lhe pertencia oficialmente, por direito de herança de seu avô, Piotr Mikhailovich.

O velho fora previdente: havia redigido o testamento com bastante antecedência, quando sua saúde ainda lhe permitia ir sozinho ao cartório.

O apartamento ficava em um prédio de tijolos construído nos anos noventa.

Setenta metros quadrados, cômodos separados, uma cozinha de quinze metros quadrados e dois banheiros.

O avô mantinha o imóvel em boas condições: reforma recente, encanamento novo e móveis embutidos no hall de entrada.

O bairro era considerado prestigioso, com um parque, escolas e uma clínica nas proximidades.

Enquanto a herança estava sendo formalizada, Tatiana e seu marido, Konstantin, alugavam um apartamento de um quarto na periferia.

Pagavam trinta mil rublos por mês, além das contas de serviços públicos.

Konstantin trabalhava como motorista em uma empresa de transportes e recebia quarenta e cinco mil rublos.

No entanto, os salários frequentemente atrasavam, havia períodos de paralisação e multas por infrações, de modo que, no fim, ele recebia bem menos.

Tatiana trabalhava como contadora em uma empresa comercial e recebia regularmente um salário de oitenta e cinco mil rublos.

Depois de obter o certificado de propriedade, Tatiana sugeriu ao marido que se mudassem para o apartamento herdado.

Konstantin ficou feliz: nada de aluguel, cômodos espaçosos e uma localização conveniente.

Eles poderiam economizar o dinheiro que antes gastavam com moradia.

— Você consegue imaginar, Tânia, quanto vamos economizar? — dizia o marido, olhando as fotografias do apartamento no telefone.

— Trinta mil rublos por mês vão ficar na família.

— Em um ano, isso se transforma em uma quantia considerável.

— Sim, vai ser conveniente, — concordava Tatiana.

— O vovô realmente me deixou um ótimo apartamento.

Kostia girava as chaves do novo apartamento entre os dedos e planejava onde colocaria a mesa do computador e onde instalaria os aparelhos de ginástica.

Eles nunca haviam conversado sobre o fato de o apartamento pertencer exclusivamente à esposa.

Parecia natural: eram marido e mulher e compartilhavam a vida doméstica.

Na manhã de sábado, a sogra, Galina Ivanovna, telefonou.

A mulher tinha cinquenta e oito anos, trabalhava como despachante em uma garagem de ônibus e ganhava sessenta mil rublos.

Morava em um apartamento de dois cômodos em um antigo prédio da época de Khrushchev, herdado dos pais.

— Tatianotchka, posso ir ver o novo apartamento de vocês? — perguntou com a voz interessada.

— Kostia me contou que é grande e fica em um bairro bom.

— Claro, Galina Ivanovna, pode vir.

— Vou lhe mostrar tudo.

A sogra chegou uma hora depois com uma bolsa grande.

De dentro dela, tirou uma fita métrica, um bloco de anotações, um lápis e algumas folhas de papel.

Tatiana ficou surpresa com uma preparação tão cuidadosa, mas não disse nada.

— Nossa, que hall de entrada espaçoso! — exclamou Galina Ivanovna, começando imediatamente a medir as paredes com a fita métrica.

— Qual é a área total?

— Setenta metros quadrados, — respondeu Tatiana.

— Excelente!

— E os cômodos são todos separados?

— Sim, todos são independentes.

— A sala tem vinte metros quadrados, o quarto tem quinze e o escritório, doze.

A sogra anotava os números no bloco e assentia satisfeita.

Passou por todos os cômodos, olhou dentro da despensa e verificou o estado das janelas e da varanda.

— Kostik, mostre a cozinha para a mamãe, — pediu Galina Ivanovna.

Konstantin acompanhou a mãe até a cozinha e falou sobre os eletrodomésticos embutidos, a máquina de lavar louça e o exaustor.

A sogra examinou atentamente cada armário, verificou as torneiras e abriu a geladeira.

— Tatiana, podemos tomar um chá?

— Eu gostaria de conversar, — sugeriu a sogra, acomodando-se à mesa da cozinha.

Tatiana colocou a chaleira no fogo, pegou alguns biscoitos e cortou um limão.

Galina Ivanovna espalhou diante de si as folhas de papel, que se revelaram plantas de apartamentos retiradas de anúncios imobiliários.

— Sabe, Tatianotchka, pensei em uma coisa, — começou a sogra, mexendo o açúcar no chá.

— O apartamento de vocês é grande, mas a família é pequena.

— Duas pessoas em três cômodos é um desperdício.

Tatiana ouvia em silêncio, pressentindo algo desagradável.

— Pensei no seguinte: e se vendêssemos o seu apartamento e comprássemos dois apartamentos de um quarto?

— Um para vocês e outro para mim.

— Seria conveniente para todos.

— Eu alugaria o meu e teria uma renda extra.

Konstantin levantou os olhos da xícara e observou a mãe com interesse.

— Mãe, não é uma ideia ruim.

— Tânia, o que você acha?

Tatiana tomou um gole de chá e colocou lentamente a xícara sobre o pires.

A calma não a abandonava, mas sua surpresa aumentava a cada segundo.

— Galina Ivanovna, por que motivo eu deveria vender o meu apartamento?

— Como assim, por que motivo? — a sogra abriu uma das plantas.

— Veja, encontrei algumas opções.

— Um apartamento de um quarto no bairro Norte, com trinta e oito metros quadrados, por quatro milhões.

— Outro no bairro Leste, com quarenta metros quadrados, por quatro milhões e meio.

— Segundo a avaliação do corretor, o seu apartamento vale cerca de onze milhões.

— Compramos dois apartamentos de um quarto por oito milhões e meio e ainda sobram dois milhões e meio para reforma e mobília.

— E como a senhora propõe dividir esse dinheiro? — perguntou Tatiana.

— Ao meio, naturalmente.

— Você reforma o seu apartamento e eu reformo o meu.

— É justo, não é?

Konstantin assentia energicamente, apoiando a ideia da mãe.

— Tânia, para ser sincero, mamãe tem razão.

— Para que precisamos de tanto espaço?

— E o dinheiro extra seria útil.

— Poderíamos trocar de carro e finalmente fazer uma boa viagem.

— Por que exatamente eu deveria vender o apartamento? — perguntou Tatiana.

— Por que a senhora, Galina Ivanovna, não vende o seu apartamento de dois cômodos e compra um de um quarto?

— Porque eu não teria dinheiro suficiente para comprar um apartamento decente de um quarto! — exclamou a sogra, abrindo os braços.

— O seu apartamento, por outro lado, é caro e fica no centro.

— Você poderia dividir um pouco com os parentes.

— Dividir? — Tatiana pousou a xícara com um leve golpe.

— O apartamento pertence pessoalmente a mim.

— Eu o herdei do meu avô.

— Sim, claro, pertence a você.

— Mas a família é uma só.

— Kostik é meu filho e você é esposa dele.

— Isso significa que tudo é de todos.

Tatiana olhou para o marido.

Konstantin evitava seu olhar e observava as plantas sobre a mesa.

— Kostia, o que você acha?

— O apartamento é nosso ou é meu?

— Bem… formalmente, é seu, claro.

— Mas, pensando racionalmente, isso seria útil para toda a família.

— Minha mãe não é uma estranha.

Galina Ivanovna sorriu satisfeita ao ouvir o apoio do filho.

— Está vendo, Tatianotchka?

— Kostik entende que a família é uma coisa só.

— Você, por outro lado, pensa de maneira um pouco… egoísta.

— Egoísta? — as sobrancelhas de Tatiana se ergueram.

— Onde está o egoísmo?

— Como assim, onde?

— Você recebeu um apartamento sem fazer nada, apenas pelos seus belos olhos.

— Seu avô era bondoso e teve pena da neta.

— E agora você não quer levar os parentes em consideração.

— Galina Ivanovna, meu avô deixou o apartamento para mim porque eu cuidava dele.

— Eu comprava os remédios, levava-o aos médicos e trazia mantimentos.

— Onde estavam todos os outros parentes?

— Todos estavam ocupados!

— Cada um tinha seus compromissos, trabalho e problemas.

— Eu também trabalhava.

— E estudava por correspondência.

— Mesmo assim, encontrava tempo.

A sogra apertou os lábios, claramente insatisfeita com o rumo da conversa.

— Está bem, você cuidou dele.

— Parabéns.

— Mas o apartamento é grande e vocês são apenas dois.

— Isso não é racional.

— Racionalidade é uma questão pessoal, — disse Tatiana, levantando-se da mesa e começando a retirar a louça.

— Se eu quero morar em três cômodos, é um direito meu.

Konstantin se remexia desconfortavelmente na cadeira, percebendo que a conversa estava tomando um rumo desagradável.

— Mãe, talvez seja melhor não falarmos disso hoje?

— Tatiana acabou de concluir a documentação da herança.

— Vamos deixá-la se acostumar.

— Acostumar-se com o quê? — Galina Ivanovna reuniu as plantas em uma pilha.

— Não estou pedindo que ela me dê alguma coisa de presente.

— Estou propondo uma troca justa.

— Justa de que maneira? — Tatiana não conseguiu mais se conter.

— A senhora quer conseguir um apartamento às minhas custas.

— Onde está a justiça nisso?

— Às suas custas?

— Você enlouqueceu!

— Compramos dois apartamentos de um quarto e duas famílias vivem separadamente.

— Todos ficam felizes.

— A senhora ficará feliz.

— Eu, por outro lado, perco espaço, perco um bairro prestigioso e perco dinheiro.

A sogra se levantou e começou a arrumar a bolsa.

— Sabe de uma coisa, Tatiana?

— Pense bem.

— Não estou insistindo, mas é uma ideia sensata.

— Kostik, acompanhe a mamãe.

Depois que a sogra foi embora, Konstantin permaneceu na cozinha, olhando sombriamente para as migalhas de biscoito que haviam ficado sobre a mesa.

— Por que você atacou minha mãe daquele jeito? — perguntou o marido.

— Ela lhe fez uma proposta normal.

— Normal?

— Kostia, este apartamento é meu.

— Meu avô o deixou para mim.

— Você entende?

— Eu entendo.

— Mas somos uma família.

— Minha mãe não é uma estranha.

— E eu sou o quê, uma estranha?

— Por que os interesses da sua mãe são mais importantes do que os meus?

— Não são mais importantes.

— É só que… eu não entendo para que precisamos de tanto espaço.

— O dinheiro extra seria útil.

Tatiana sentou-se diante do marido e o encarou atentamente.

— Kostia, o apartamento pertence pessoalmente a mim.

— Não é um bem adquirido durante o casamento.

— Tenho o direito de dispor da minha herança como quiser.

— Claro que você tem esse direito.

— Mas somos marido e mulher.

— Deveríamos tomar decisões juntos.

— Decisões conjuntas dizem respeito a questões conjuntas.

— Isto, por outro lado, é uma propriedade minha.

Konstantin suspirou pesadamente e se levantou da mesa.

— Está bem, é um direito seu.

— Mas pense: talvez mamãe realmente tenha razão.

— Dois apartamentos separados são melhores do que um grande.

No dia seguinte, enquanto Tatiana estava no trabalho, a sogra telefonou.

— Tatianotchka, encontrei outras opções.

— São bons apartamentos de um quarto em prédios novos.

— Você pode olhar hoje à noite?

— Galina Ivanovna, eu já respondi ontem.

— Não vou vender o apartamento.

— Não seja tão apressada.

— Pedi uma avaliação a um corretor, assim saberemos o valor exato.

— Talvez o negócio seja ainda mais vantajoso.

— Por que a senhora pediu uma avaliação do meu apartamento?

— Apenas para termos informação.

— Para saber exatamente quanto dinheiro vamos conseguir no final.

Tatiana fechou os olhos, contando até dez.

— Galina Ivanovna, cancele a avaliação.

— Eu não vou vender o apartamento.

— Por que você é tão teimosa?

— Kostik concorda.

— Kostia pode concordar com o que quiser.

— Mas quem decide sou eu.

— Está bem, está bem.

— Pense mais um pouco.

— Temos tempo.

Naquela noite, o marido voltou para casa pensativo.

Permaneceu em silêncio durante muito tempo enquanto jantava, mas por fim começou a falar.

— Tânia, e se mamãe estiver certa?

— Se olharmos a situação com honestidade…

— Kostia, nós já conversamos sobre isso ontem.

— Sim, conversamos.

— Mas pensei novamente.

— Veja, se analisarmos a questão objetivamente, uma operação assim seria uma decisão familiar razoável.

— Estamos todos no mesmo barco.

Tatiana pousou o garfo e olhou atentamente para o marido.

— No mesmo barco?

— E você, pessoalmente, o que coloca nesse barco?

— Como assim, o que eu coloco?

— Eu trabalho e trago dinheiro para casa.

— Quarenta e cinco mil rublos?

— Dos quais metade vai para o aluguel?

— Não é exatamente metade.

— E, além disso, não é apenas uma questão de dinheiro.

— E de que mais?

Konstantin hesitou, procurando as palavras.

— Bem… apoio moral, ajuda em casa.

— Sou seu marido.

— Você é meu marido.

— E isso lhe dá direitos sobre a minha herança?

— Não direitos, mas… participação nas decisões familiares.

Tatiana se levantou da mesa e foi até o quarto.

Pegou no armário a pasta com os documentos e voltou para a cozinha.

Colocou diante do marido o certificado de herança, o extrato do Registro Estatal Unificado de Imóveis e o documento com a avaliação do apartamento.

— Leia, — disse com calma.

— Que nome está escrito no campo «proprietário»?

Konstantin olhou os documentos contra a vontade.

— Tatiana Sergeevna, — leu em voz alta.

— E daí?

— Isso significa que este apartamento é meu.

— Somente meu.

— Não nosso, não da família e não de todos.

O marido se recostou na cadeira e sorriu com ironia.

— Formalmente, sim.

— Mas, na prática, somos uma família.

— Tudo deveria ser decidido em conjunto.

— Na prática, você ganha gratuitamente uma moradia confortável no centro da cidade.

— Isso não é suficiente?

Konstantin permaneceu em silêncio, compreendendo que não tinha nenhum argumento lógico.

Depois, seu tom se tornou mais sério.

— Tânia, você não entende.

— Isso já não é mais uma discussão.

— Esta é sua decisão definitiva?

— Definitiva.

Tatiana recolheu calmamente os documentos, guardou-os na pasta e fechou a gaveta da mesa.

A conversa estava encerrada.

Na manhã seguinte, Galina Ivanovna telefonou bem cedo.

— Tatianotchka, pensei novamente sobre nossa conversa de ontem.

— Talvez não devêssemos ter pressa.

— Vamos encontrar um meio-termo.

— Galina Ivanovna, não houve conversa alguma.

— Houve uma proposta sua e uma recusa minha.

— Como assim, uma recusa?

— Somos uma família!

— Kostik é meu filho, portanto os interesses dele devem ser levados em consideração.

— Os interesses do seu filho já foram considerados.

— Meu marido recebe gratuitamente uma moradia em um excelente apartamento.

— Mas que ganância é essa! — a voz da sogra ficou mais ríspida.

— Você recebeu uma herança e imediatamente ficou metida?

— E os parentes?

— O que os parentes têm a ver com isso?

— Meu avô deixou o apartamento pessoalmente para mim.

— Veja só!

— Quando você se casou, prometeu ficar ao lado do marido na alegria e na tristeza.

— Então a alegria é apenas sua?

Tatiana encerrou a chamada.

Uma hora depois, Galina Ivanovna telefonou novamente.

— Tatiana, você desligou na minha cara.

— Isso é falta de educação.

— Considero esta conversa encerrada.

— Não está encerrado coisa nenhuma!

— Ainda vamos falar sobre isso.

— E Kostik concorda comigo: os assuntos familiares são resolvidos em família.

— Isto não é um assunto familiar.

— É a minha herança.

— Sua, sua…

— E depois?

— Vai registrar até os próprios filhos apenas em seu nome?

— Adeus, Galina Ivanovna.

Desta vez, Tatiana bloqueou o número da sogra no telefone.

As ligações pararam, mas começaram a chegar mensagens por intermédio de Konstantin.

— Mamãe disse que você a bloqueou, — falou o marido naquela noite.

— Isso é uma bobagem.

— Ela está preocupada.

— Que se preocupe em silêncio.

— Tânia, não se pode tratar os pais desse jeito.

— Mamãe queria apenas o melhor.

— O melhor para quem?

— Para todos.

— Dois apartamentos separados realmente são mais convenientes.

— Kostia, já expliquei minha posição.

— Não há mais nada a discutir.

Konstantin começou a evitar conversas diretas sobre o apartamento, mas passou a reclamar de cada pequeno detalhe.

Não estava satisfeito com a comida, não gostava da disposição dos móveis, a luz era forte demais e o volume da televisão era baixo demais.

Ele tinha constantemente alguma coisa para criticar.

— Você ficou fria, — declarou o marido uma semana depois.

— Vivemos como dois estranhos.

— E como deveríamos viver?

— Como uma família.

— Discutir planos e tomar decisões juntos.

— Que planos?

— Vender o meu apartamento?

— Não apenas isso.

— Tudo, em geral.

— Eu também tenho opinião, por sinal.

— Você tem o direito de ter uma opinião.

— Mas não tem o direito de dispor da minha propriedade.

— Está vendo!

— Minha propriedade, meu apartamento, meus direitos.

— Onde está a família nisso tudo?

Tatiana observou atentamente o marido.

Konstantin caminhava nervosamente pela cozinha, gesticulando.

Era evidente que as reclamações acumuladas precisavam finalmente sair.

— Kostia, o que você oferece a esta família?

— Concretamente.

— Como assim, o que eu ofereço?

— Trabalho, trago dinheiro e ajudo em casa.

— Quarenta e cinco mil rublos e lavar a louça uma vez por semana?

— O dinheiro não é a única coisa importante!

— Existem apoio moral, compreensão e cuidado.

— E onde está esse apoio quando sua mãe exige que eu venda o meu apartamento?

— Mamãe quer viver melhor.

— O que há de errado nisso?

— Ela quer viver melhor às minhas custas.

— Às custas da família!

— Não somos estranhos!

Konstantin parou diante da esposa e tentou segurar suas mãos.

Tatiana se afastou.

— Tânia, o que está acontecendo com você?

— Antes você era diferente.

— Era bondosa e prestativa.

— Eu era.

— Até me deparar com a ganância.

— Que ganância?

— Estamos propondo um plano sensato!

— Nós?

— Então você e sua mãe estão do mesmo lado?

— Eu estou do lado da família.

— Do lado dos interesses comuns.

— Interesses comuns de quem?

— Seus e da sua mãe?

O marido não respondeu.

Foi para o outro cômodo, batendo a porta com força.

À noite, arrumou uma bolsa e foi para a casa da mãe.

Tatiana passou uma noite tranquila.

Leu um livro, assistiu a um filme e foi dormir em silêncio.

Ninguém batia portas, ninguém reclamava constantemente e ninguém fazia planos às suas custas.

Konstantin voltou dois dias depois.

Entrou no apartamento com uma expressão séria e se sentou diante da esposa.

— Preciso lhe dizer uma coisa, — começou solenemente.

— Estou ouvindo.

— Eu entendi qual é o problema.

— Você não sabe trabalhar em equipe.

— Interpreta tudo como um ataque pessoal.

— Continue.

— Família significa compromissos.

— Não se pode viver pensando apenas nos próprios interesses.

— Você transformou a casa em um território privado.

Tatiana ouvia em silêncio, estudando o rosto do marido.

Konstantin falava com confiança.

Era evidente que havia ensaiado o discurso.

— E o que você propõe?

— Vamos começar de novo.

— Vamos esquecer todas as ofensas.

— Vamos resolver os problemas juntos, como uma família normal.

— Ou seja, vender o apartamento?

— Não é necessário vendê-lo.

— Podemos trocá-lo por dois apartamentos menores.

— Ou fazer uma hipoteca para comprar outro apartamento para mamãe.

— Com o meu dinheiro?

— Com o dinheiro da família.

— Usando seu apartamento como garantia.

Tatiana se levantou e foi até o quarto.

Pegou no armário duas sacolas grandes e começou a enchê-las com as roupas do marido.

Ternos, camisas, jeans e camisetas.

Ela os dobrava com cuidado, sem amassar os tecidos.

— O que você está fazendo? — Konstantin apareceu na porta do quarto.

Tatiana continuou em silêncio a arrumar as coisas dele.

Os sapatos foram para uma sacola separada, os documentos para uma pasta e os carregadores e fones de ouvido para uma caixa.

— Tânia, o que você está fazendo?

— Estou ajudando você a arrumar suas coisas.

— Arrumar minhas coisas para ir aonde?

— Esta é a minha casa!

— Esta é a minha casa.

— A sua é onde apoiam e compreendem você.

Tatiana levou as sacolas até o hall e as colocou ao lado da porta.

Pegou o passaporte do marido no armário e o colocou em cima.

— Kostia, você pode ir embora.

— Está falando sério?

— Está me expulsando?

— Estou encerrando meu relacionamento com um homem que considera minha herança um patrimônio da família.

— Mas somos marido e mulher!

— Éramos.

— Até o momento em que você se colocou do lado dos interesses alheios contra os meus.

Konstantin ficou parado, indeciso, e depois pegou as sacolas.

— Está bem.

— Espero que você caia em si.

— Vai me telefonar quando se acalmar.

— Não vou telefonar.

— Tânia, não diga bobagens.

— Somos uma família.

— Não.

— Família é quando o marido defende os interesses da esposa, em vez de fazer planos às custas dela.

O marido saiu sem bater a porta.

Provavelmente esperava que a esposa mudasse de ideia depois de alguns dias.

Tatiana recuperou o jogo de chaves reserva que um dia havia dado à sogra para emergências.

Galina Ivanovna não poderia mais aparecer com uma fita métrica para medir os metros quadrados alheios.

No dia seguinte, chegou uma mensagem de Konstantin: «Eu me acalmei e quero conversar.

Podemos nos encontrar?»

Tatiana não respondeu.

Uma semana depois, chegou outra mensagem: «Somos adultos, podemos discutir tudo com calma».

Novamente, silêncio.

Duas semanas depois, ele escreveu: «Mamãe está disposta a desistir da ideia dos apartamentos.

Podemos viver como antes».

«Não poderemos mais viver como antes.

Agora eu sei o que é mais importante para você», escreveu Tatiana.

«A família é mais importante.

Eu já lhe disse isso».

«Sua família é você e sua mãe.

Eu era apenas a fonte de financiamento dos planos de vocês».

Não chegaram mais mensagens.

Um mês depois, eles se encontraram no cartório de registro civil.

Divórcio por consentimento mútuo, nenhum bem adquirido em conjunto e nenhum filho.

Quinze minutos para concluir os documentos.

— Não vai mudar de ideia? — perguntou Konstantin na saída.

— Não.

— Mamãe realmente não vai mais falar sobre o apartamento.

— Eu sei.

— Agora ela não tem mais motivo.

O ex-marido foi embora de mãos vazias.

Exatamente como havia entrado na vida de Tatiana.

O ex-marido não tinha qualquer direito sobre a herança da esposa e jamais teria.

Tatiana trocou as fechaduras do apartamento.

Mandou instalar uma nova porta de entrada com uma fechadura reforçada.

Ninguém mais planejaria a venda da herança deixada por seu avô.

Galina Ivanovna tentou telefonar uma vez de um número desconhecido.

Quando ouviu a voz da ex-nora, desligou imediatamente.

Evidentemente, havia entendido que fazer planos com o dinheiro dos outros já não funcionava.

O apartamento voltou a ficar silencioso e tranquilo.

Tatiana organizou os móveis de acordo com o próprio gosto e pendurou os quadros de que ela gostava, não os escolhidos pelo marido.

Comprou roupas de cama novas em cores vivas.

Konstantin preferia tons de cinza.

À noite, ela passou a ter mais tempo para si mesma.

Ninguém reclamava da iluminação, criticava sua escolha de filmes ou planejava como gastar o dinheiro alheio.

O avô Piotr Mikhailovich havia deixado o apartamento para a pessoa que cuidara dele enquanto estava vivo.

Ele fora um homem sábio.

Compreendia que uma herança atrai não apenas parentes carinhosos, mas também aqueles que consideram a propriedade dos outros um patrimônio da família.

Tatiana nunca mais deu chaves reserva a ninguém.

E certamente ninguém voltaria a encostar em sua propriedade uma fita métrica alheia, acompanhada de grandiosos planos de redistribuição.