— Eu prometi à minha irmã o dinheiro da venda da sua casa de campo!

— Chegou tarde demais, já transferi a propriedade para a minha filha por meio de uma escritura de doação.

— Natasha, estive pensando.

Precisamos vender a sua casa de campo.

Natalya sacudiu a água dos dedos e enxugou lentamente as mãos com um pano de cozinha.

— E por que motivo?

Sergei deu uma generosa mordida na costeleta.

Ele falava dos problemas da irmã como se Natalya fosse obrigada a correr naquele mesmo instante até uma imobiliária, deixando os chinelos pelo caminho.

— A Yulka precisa de um carro.

Os filhos dela estão crescendo, e não dá para continuar arrastando os meninos de micro-ônibus em micro-ônibus.

E o seu terreno está lá sem utilidade nenhuma.

Está ficando coberto de mato.

— Que a Yulia faça um empréstimo, — cortou Natalya.

Ela se apoiou na borda da mesa e olhou para Sergei.

— O que eu tenho a ver com isso?

— Somos uma família!

Sergei afastou o prato, indignado.

— Um homem deve ajudar os seus.

Eu já prometi.

— Ótimo.

Você prometeu, então compre você.

Mas não envolva a minha propriedade nisso.

Natalya havia herdado a casa de campo de uma tia muito antes do casamento.

Era um terreno comum de seiscentos metros quadrados, com uma velha casinha pré-fabricada.

Em oito anos de vida em comum, Sergei havia pregado exatamente três tábuas na varanda e cortado a grama uma única vez.

Depois daquela façanha, ficou três dias deitado no sofá, reclamando da lombar.

Mas agora acreditava firmemente que tinha direito de opinar.

— E de quem ela é? — perguntou o marido com insistência.

Ele abriu os braços de forma teatral.

— Eu consertei a varanda!

E também coloquei a cerca, aliás.

Pode considerar isso patrimônio adquirido em conjunto.

A eterna lógica masculina.

A propriedade alheia se torna imediatamente comum assim que surge alguma vantagem no horizonte.

Natalya já esperava por aquela conversa havia um mês.

Foi justamente naquela época que a cunhada começou a reclamar insistentemente dos preços nas concessionárias durante as ligações de domingo.

— Nós vamos vender, — insistiu Sergei.

Ele puxou o prato de volta, sentindo-se vencedor.

— Vai dar para pagar a entrada do carro da Yulka, e o restante colocamos numa conta poupança.

Assim ainda rende juros.

— Está com pena de ajudar a família, não é?

Ficou com dó dos seus canteiros?

Natalya sorriu ironicamente.

— A sua família, Seryozha, que viva de acordo com o que pode pagar.

A Yulia recebe pensão alimentícia, então que economize esse dinheiro.

— Mas aquilo é uma mixaria!

O ex dela manda quase nada.

— Não importa.

Não haverá nenhum espetáculo de generosidade às minhas custas.

Sergei levantou-se pesadamente.

Na visão de mundo dele, a esposa deveria concordar obedientemente, chorar de emoção e entregar-lhe as chaves.

— Amanhã vamos reunir os documentos, — decretou ele.

O marido deu um passo em direção ao corredor.

— E não discuta.

Eu sou o homem e já decidi.

O telefone sobre o móvel da entrada começou a tocar.

Natalya sabia perfeitamente quem ligava àquela hora.

Yulia adorava controlar o andamento das coisas.

— Vá atender, — disse Natalya enquanto ele se afastava.

Ela começou a colocar a louça na pia.

— Dê a boa notícia à sua irmãzinha.

Do corredor chegavam trechos da conversa.

O marido se justificava, prometia que tudo estava encaminhado e pedia alguns dias para resolver a papelada.

Natalya nem sequer se sentiu magoada.

Durante os anos de casamento, havia se acostumado ao fato de Sergei viver segundo o princípio: “Tudo de melhor para a minha família”.

A mãe dele, Vera Ivanovna, vivia tirando dinheiro do filho para seus “tratamentos de saúde”, enquanto a irmã Yulia considerava o irmão seu patrocinador pessoal.

Até então, Natalya havia fechado os olhos para isso.

Sergei tinha um bom salário e contribuía regularmente para o orçamento familiar.

Mas tentar se apropriar de um bem pessoal dela já era demais.

Sergei voltou à cozinha com uma expressão vitoriosa.

— Yulia já encontrou uma opção.

Ele serviu compota para si mesmo.

— A concessionária dará um desconto se ela levar o dinheiro até o fim da semana.

Então, amanhã de manhã, peça folga no trabalho.

— Eu disse claramente que não.

Sergei ficou imóvel com o copo na mão.

— Como assim, não?

Eu prometi à minha irmã!

Você quer me fazer passar vergonha diante dela e da minha mãe?

— Você faz isso sozinho quando dá de presente o que não lhe pertence.

Natalya abriu a torneira.

— Vá dizer à Yulia que a casa de campo não está à venda.

Ponto final.

O rosto do marido ficou vermelho.

Ele não estava acostumado a uma resistência tão firme.

Normalmente, Natalya fazia uma piada ou simplesmente evitava a discussão para não desgastar os próprios nervos.

— Ah, então é assim?!

Sergei bateu o copo com força sobre a bancada.

— Para morar no meu apartamento, tudo bem!

Mas quando é para ajudar a minha família, você foge!

— No seu apartamento?

Natalya fechou a torneira.

— Nós o compramos com financiamento.

E pagamos juntos.

Não confunda as coisas, Seryozha.

— Eu contribuo mais! — gritou o marido.

— Ótimo.

Quer fazer as contas?

Então vamos fazer.

Natalya enxugou as mãos e se virou para o marido.

— Sua irmã deixa os filhos dela conosco todos os fins de semana.

Sou eu quem dá comida a eles.

Sou eu quem os entretém.

No mês passado, compramos uma geladeira para a sua mãe.

Com o orçamento comum, aliás.

Sergei tentou dizer alguma coisa, mas Natalya não deixou.

— Já a minha filha Anya paga os próprios estudos e trabalha depois das aulas.

Eu nunca pedi nem um centavo a você para ajudá-la!

— Isso é diferente!

Anya é adulta, e aqueles ainda são crianças pequenas!

— Eles têm dez anos.

Já são bem grandinhos.

Natalya tirou o avental.

— A conversa acabou.

Eu não vou vender a casa de campo.

A noite seguinte foi ainda mais intensa.

Natalya mal havia cruzado a porta depois do trabalho quando ouviu vozes vindas da cozinha.

Sergei não estava sozinho.

A artilharia pesada havia chegado: Yulia em pessoa, acompanhada da mãe.

Vera Ivanovna estava sentada à cabeceira da mesa, com os lábios apertados.

Yulia girava nervosamente o telefone nas mãos, piscando os cílios maquiados.

— Entre, Natashenka, — cantou a sogra com voz melosa.

Ela apontou para um banquinho vazio.

— Precisamos ter uma conversa séria.

Natalya não se sentou.

Apoiou o ombro no batente da porta e cruzou os braços.

— Estou ouvindo com atenção.

Yulia começou imediatamente a chorar.

— Natasha, tente entender a minha situação!

Ela fungou.

— Os meninos precisam ir à escola de música e às atividades esportivas.

Nos ônibus há uma confusão terrível, e depois eles ficam doentes.

Eu preciso desesperadamente de um carro!

— Então compre um, — respondeu Natalya pacificamente.

— Com que dinheiro?!

Aquele canalha do meu ex manda uma pensão alimentícia ridícula!

Eu não consigo pagar!

— E o que eu tenho a ver com isso, Yulia?

Eu não tenho uma impressora que produz dinheiro.

Vera Ivanovna entrou na discussão.

— Natalya, você não tem vergonha?

A sogra se exaltou.

— Você tem dois terrenos!

Um que herdou da sua tia e outro que comprou com Seryozha.

Para que vocês precisam de tantos?

A terra deve produzir, não ficar parada!

— O que compramos juntos é para nós.

Vamos construir uma casa lá.

Já o da minha tia é uma lembrança pessoal.

Sergei, sentindo o apoio da família, ficou mais corajoso.

— Uma lembrança, diz ela!

A casa está apodrecendo e a cerca está caindo!

Por que você está se comportando como um cachorro que não come nem deixa os outros comerem?

A Yulia precisa mais!

Natalya olhou atentamente para o marido.

Depois desviou o olhar para a cunhada.

Yulia já havia parado de chorar e a encarava com raiva evidente e expectativa.

Eles realmente acreditavam que tinham o direito de chegar e pegar algo que pertencia a Natalya simplesmente porque, na opinião deles, “precisavam mais”.

— Então vamos fazer assim, — disse Natalya calmamente.

Ela se afastou do batente e caminhou até a mesa.

— Vocês acham que somos uma família e que tudo deve ser compartilhado, certo?

— É claro! — assentiu Vera Ivanovna, feliz.

— A família deve permanecer unida!

— Maravilhoso.

Natalya sorriu.

Mas aquele sorriso não prometia nada de bom.

— Sergei, querido, lembra do carro que compramos para você três anos atrás?

Aquele SUV luxuoso do qual você tira até o menor grão de poeira.

O marido ficou em alerta.

— Sim, compramos.

E daí?

— É patrimônio adquirido em conjunto.

Natalya olhou carinhosamente para a cunhada.

— Yulia, que tal vendermos o SUV do Sergei?

Compramos para você um carro mais simples e damos o restante do dinheiro para a minha Anya pagar o mestrado.

Ela também precisa muito.

A família deve ajudar uns aos outros!

Um silêncio ensurdecedor caiu sobre a cozinha.

Yulia arregalou os olhos.

Vera Ivanovna abriu a boca em busca de ar.

Sergei ficou tão vermelho que parecia prestes a sangrar pelo nariz.

— Que absurdo você está dizendo?! — gritou o marido.

Ele pulou da cadeira.

— Vender o meu carro?!

Eu o uso para ir ao trabalho!

Eu mesmo trabalhei para comprá-lo!

— Nós trabalhamos juntos para comprá-lo.

Pagamos com o orçamento comum, — retrucou Natalya.

Ela não elevou a voz.

— Foi você quem disse que, se alguém da família precisa mais, é preciso compartilhar.

Anya precisa muito desse dinheiro.

Você tem pena de andar de ônibus pelo bem da sua querida enteada e da sua própria irmã?

Sergei apertou a mandíbula.

Seu rosto ficou coberto de manchas vermelhas.

— Isso é diferente!

O carro é sagrado!

Eu não vou ficar sem carro!

— Então é aí que está o problema! — sorriu Natalya ironicamente.

Ela percorreu com o olhar os parentes imóveis.

— Quando é para vender a minha casa de campo, somos uma família.

Mas quando se trata do seu carro, de repente ele é “sagrado”.

Natalya virou-se para a sogra.

— Vera Ivanovna, diga isso a ele também!

Que ele dê o carro à irmã!

Por que está agindo como um cachorro que não come nem deixa os outros comerem?

As pernas dele estão boas, pode ir andando até o metrô!

A sogra apertou os lábios e desviou o olhar.

Yulia mexia nervosamente na alça da bolsa, percebendo que seu plano havia fracassado de forma vergonhosa.

Seu irmão jamais abriria mão de seu brinquedo preferido.

— Você está distorcendo tudo, — conseguiu dizer Sergei.

— Estou apenas colocando um espelho diante de vocês, — respondeu Natalya secamente.

Ela se aproximou da porta.

— Nunca mais vamos falar sobre a minha casa de campo.

Nunca.

E se Yulia precisa tanto de um carro, em vez de trabalhar meio período em um salão de beleza, pode arranjar um emprego de tempo integral.

— Como você é esperta! — explodiu Yulia.

Ela se levantou de um salto e pegou a jaqueta.

— Mãe, vamos embora!

Aqui ninguém vai nos ajudar!

Você trocou o próprio sangue por um pedaço de terra, irmãozinho!

Yulia disparou para o corredor como uma bala.

Vera Ivanovna, suspirando e reclamando das noras ingratas, apressou-se atrás da filha.

A porta de entrada bateu com força.

Sergei permaneceu parado no meio da cozinha.

Respirava pesadamente, sem encontrar palavras.

Seu mundo confortável, no qual podia ser generoso às custas da esposa, acabara de desmoronar.

— Se você trouxer esses parentes aqui mais uma vez para dividir a minha propriedade, — disse Natalya sem se virar, — amanhã mesmo colocarei o seu carro à venda no Avito.

Pela lei, tenho todo o direito de exigir a divisão dos bens.

Entendeu?

O marido engoliu as palavras e se virou para a janela.

Não conseguia responder a um golpe tão direto.

Abrir mão do próprio conforto pela irmã não fazia parte dos planos dele.

Depois de algumas semanas, os ânimos se acalmaram.

Como era de esperar, Yulia parou de telefonar, ofendida com o irmão por ele não ter conseguido obrigar a esposa.

Sergei passou a andar pela casa em completo silêncio, suspirando de forma exagerada, mas nunca mais voltou ao assunto de ajudar os parentes.

Natalya finalmente sentiu um grande alívio.

Bebia tranquilamente seu café da manhã, compreendendo uma verdade muito simples: às vezes, para proteger os próprios limites, basta propor que a pessoa sacrifique algo que é precioso para ela mesma.

E toda a generosidade exibida desaparece imediatamente.