“Katya, por que você pediu comida só para você?” — ele estava parado com a sacola nas mãos, como se tivessem cuspido nele.

Quarta-feira.

Sete da noite.

Entro no apartamento.

Há cheiro de homem que passou o dia inteiro deitado.

Sabe, existe um cheiro assim: não é suor, não é sujeira, é exatamente aquela mistura de sofá, videogame, salgadinhos, refrigerante e pés dentro de meias de lã.

Uma mistura.

Da sala vêm sons de “piu-piu”, “just do it”, “fuck”: Kostya xinga em inglês quando o matam no “Call of Duty”.

Ele ficou viciado nesse jogo uns cinco anos atrás e, desde que começou, nunca mais largou.

Sem tirar os sapatos, dou uma olhada na cozinha.

Uma montanha de louça.

A de ontem.

Mais a do café da manhã de hoje.

E, pelo cheiro, também alguma coisa do almoço: pelo visto, Kostya fritou pelmeni para si mesmo.

A frigideira está sobre o fogão, com a gordura já endurecida e três pelmeni dentro.

Sobre a mesa há uma tábua de cortar coberta de migalhas de pão e uma faca suja de manteiga.

A calça jeans dele está pendurada no encosto da cadeira.

Simplesmente pendurada.

De manhã, eu a tinha deixado no cesto de roupa suja do banheiro.

Ele a tirou de lá, vestiu, tirou e pendurou na cadeira.

Por quê?

Não sei.

Fico parada no corredor.

Ainda usando o casaco de inverno.

Na mão, tenho uma sacola do supermercado “Pyaterochka”: passei lá no caminho e comprei leite, queijo cottage, uma abobrinha e filé de frango para preparar rapidamente alguma coisa para o jantar.

Kostya, sem tirar os olhos da tela, diz:

— Ah, você chegou.

Escuta, o que tem para o jantar?

E onde estão minhas meias pretas?

Não encontrei de manhã.

Ele nem sequer se virou.

Fico parada.

Em silêncio.

Algo estala dentro de mim.

Sabe, como um interruptor.

Como se alguém tivesse mudado a posição de uma pequena alavanca dentro do meu peito.

Tudo o que eu estava prestes a dizer, como “já vou tirar a roupa e preparar alguma coisa”, desapareceu.

Simplesmente desapareceu.

Tiro os sapatos.

Em silêncio.

Vou para o quarto.

No caminho, deixo a sacola do supermercado diretamente no chão do corredor.

Que fique ali.

Troco de roupa.

Visto um conjunto de ficar em casa diferente daquele que normalmente uso quando preparo o jantar.

É um pijama de duas peças cor de creme, com detalhes de seda, que comprei na “Incanto” um mês antes e quase nunca usei.

É bonito.

Pego um livro na mesa de cabeceira, “Uma Vida Pequena”, de Yanagihara.

Eu tinha começado a lê-lo em janeiro, mas nunca conseguira terminar porque não tinha noites livres.

Abro o “Yandex.Eda”.

Peço rolinhos de sushi só para mim.

“Philadelphia”, “Dragon”, sopa de missô e chá oolong.

Para uma pessoa.

Mil oitocentos e vinte rublos.

Pago com o cartão Tinkoff.

Tempo previsto de entrega: de vinte e cinco a quarenta minutos.

Deito-me.

Leio.

Uma hora depois, a campainha toca.

Kostya grita da sala:

— Katya, é o entregador!

Fico em silêncio.

— Katya!

Fico em silêncio.

Xingando, ele larga o videogame e vai abrir a porta.

Ouço a porta se abrir.

O entregador diz:

— Um pedido para Ekaterina.

— Que pedido?

— Rolos de sushi.

— Que rolos?

— Aqui estão.

Assine aqui.

Não precisa pagar nada, já foi pago on-line.

A porta se fecha.

Silêncio.

Um silêncio longo, de uns quinze segundos.

Kostya entra no quarto com uma sacola da “Yobidoyobi” nas mãos.

Ele olha para mim.

Eu continuo olhando para o livro.

Nenhuma emoção.

— Katya.

O que é isso?

— Rolos de sushi.

— Eu estou vendo que são rolos.

Você pediu só para você?

— Sim.

— E para mim?

Levanto os olhos.

— O que tem você?

— Como assim?

Você pediu uma porção só?

— Uma.

Ele fica parado.

Com a sacola nas mãos.

Com uma expressão como se eu tivesse acabado de anunciar que iria morar na Argentina.

— Katya, você está falando sério?

— Kostya.

Se está com fome, peça alguma coisa para você.

Ou cozinhe aqueles pelmeni que secaram na frigideira.

— Katya, eu nem reconheço você.

— Dê-me o meu pedido.

Ele coloca a sacola sobre a cama.

Sai sem dizer nada.

Ouço que ele fica parado no corredor, olhando para a sacola do supermercado.

Depois a pega.

Leva para a cozinha.

Durante cinco minutos, fica tudo em silêncio.

Depois ouço a porta da geladeira bater.

Depois novamente.

Então ele volta para a sala e, para minha surpresa, liga o videogame outra vez.

Eu como.

Os rolos estão razoáveis.

Não são maravilhosos, mas estão bons.

O oolong está gostoso.

Deito-me.

Termino o capítulo.

Adormeço.

Na manhã seguinte, como sempre, o despertador toca às sete.

Levanto-me, tomo banho e preparo café para mim.

Para mim.

Uma única xícara.

Faço um ovo frito para mim.

Um.

Como.

Lavo o meu prato.

A minha xícara.

O prato de Kostya do café da manhã do dia anterior ainda está na pia, com restos de queijo cottage ressecados como cimento.

Olho para ele e não toco.

Saio.

No trabalho, tudo acontece como sempre.

À noite, volto para casa e a montanha de louça aumentou.

A frigideira de Kostya com os pelmeni continua no mesmo lugar.

A calça jeans continua pendurada na cadeira.

Kostya está na sala.

Videogame.

— Oi, Katya.

Você ficou chateada ontem?

— Não.

— E o que tem para o jantar?

— Não sei.

— Como assim, não sabe?

— Kostya.

Eu não sei o que você vai comer no jantar.

Pausa.

— Katya, você está falando sério?

— Absolutamente.

Vou para o quarto.

A briga acontece na quinta-feira à noite.

Não imediatamente, mas por volta das dez.

Ele passa uma hora acumulando raiva.

Depois invade o quarto.

— Katya.

Você enlouqueceu?

— Não.

— Você está me atormentando há uma semana.

— Um dia.

Não uma semana.

— Katya, chega.

Talvez eu tenha perguntado de um jeito errado ontem?

Está bem, desculpe.

Desculpe!

Está satisfeita?

Fecho o livro.

— Kostya.

Sente-se.

Ele se senta na beirada da cama.

Cruza os braços.

Como uma criança prestes a levar uma bronca.

— Escute.

Eu trabalho as mesmas horas que você.

Das oito e vinte e cinco às cinco e meia.

Meu salário é de cento e vinte mil.

O seu é de cento e quarenta mil.

A diferença é de vinte mil rublos.

Isso equivale a uma entrega de eletrodomésticos ou a duas caixas da sua proteína.

— E daí?

— Daí que eu não entendo por que, quando volto do trabalho, preciso fritar abobrinha para você, lavar suas meias, passar suas camisas, comprar seu gel de banho e marcar seu dentista, enquanto você joga videogame.

— Estou cansado!

— E eu não estou cansada?

Ele fica em silêncio.

— Kostya.

Não estou perguntando quem está mais cansado.

Não pretendo transformar isso em uma competição.

Só estou dizendo que não será mais assim.

— Como assim, não será mais assim?

— Assim.

Não vou mais cozinhar para dois.

Não vou mais lavar suas roupas.

Não vou mais lavar sua louça.

Não vou mais comprar suas coisas.

— Katya!

— O quê?

— Você quer se divorciar?

— Não.

— Então o que isso significa?

— Você tem trinta e três anos, Kostya.

É um homem adulto.

Eu não sou sua mãe.

É só isso.

Ele se levanta.

Está vermelho.

Naquele momento, realmente parece ter quatorze anos.

— Então você é assim, é?

— Sou.

— Durante oito anos você foi normal, e agora…

— Durante oito anos eu carreguei tudo nas costas.

Agora não consigo mais.

— Então viva sozinha!

— Eu não estou sozinha.

Estou com você.

— Então o que é isso?!

— Kostya.

Não se trata de estar sozinha ou acompanhada.

Trata-se de ser justo.

Ou fazemos cinquenta por cento cada um, ou cada um cuida de si.

Escolha.

Ele bate a porta.

Vai para a sala.

Liga o videogame.

Joga até as duas da madrugada.

Adormeço ouvindo os sons de “piu-piu”.

Sexta-feira.

Sábado.

Domingo.

Eu vivo.

Eu realmente vivo.

Cozinho para mim.

De manhã, preparo uma torta de queijo cottage com frutas vermelhas.

Abobrinha no vapor.

Filé de frango com bulgur.

Não uma montanha de comida para a família inteira, mas uma porção só para mim.

Uma porção pequena e bonita, que não como correndo, mas sentada, com chá e um livro.

Lavo minhas roupas.

Coloco a máquina para funcionar pela metade.

Antes, ela ficava sempre cheia porque havia tanto as minhas roupas quanto as de Kostya.

A montanha de meias de Kostya continua no canto do corredor.

Continua crescendo.

No domingo, já não é uma montanha, mas uma cordilheira inteira.

No domingo à noite, entro na cozinha para pegar água.

Kostya está sentado com o telefone nas mãos.

Está digitando alguma coisa.

Dou uma olhada rápida para a tela por cima do ombro dele.

“Em qual programa lavar camisas pretas para não encolherem.”

Vou até a cozinha, sirvo água e, quando volto ao quarto, começo a rir.

Baixinho, para ele não ouvir.

Rio de alívio.

Com uma espécie de sensação calorosa.

Não com maldade.

Não pensando: “Finalmente recebeu o que merecia”.

Mas pensando: “Meu Deus, ele é realmente uma pessoa viva.

Ele pensa.

Pesquisa no Google.

Não é burro.

Simplesmente, durante oito anos, nunca precisou pensar”.

Na segunda-feira, ele lava a roupa.

Sozinho.

Alguma coisa encolhe.

Ouço-o xingar no banheiro.

Mas ele lavou.

Na terça-feira, compra na “Ozon” uma coisa para separar as meias.

Uma coisa idiota.

Um organizador de plástico de quatrocentos rublos.

Não ajudou, mas o gesto contou.

Na quarta-feira, ou seja, hoje, ele volta do trabalho e lava toda a louça em silêncio.

Toda.

Inclusive a frigideira com os pelmeni.

Ainda não conversamos.

Não de verdade.

No apartamento, reina um silêncio gelado.

Nós nos contornamos como dois gatos.

Ele diz: “Bom dia”.

Eu respondo: “Bom dia”.

Ele pergunta: “Quer alguma coisa do mercado?”.

Eu digo: “Queijo cottage com cinco por cento de gordura”.

Ele traz o queijo cottage.

Eu digo: “Obrigada”.

Ele responde: “De nada”.

Nós não vamos nos divorciar.

Eu sei disso.

Ele também sabe.

Estamos juntos desde os vinte e três anos.

Já são oito anos, e ele não é uma pessoa ruim.

Simplesmente nunca aprendeu.

Em casa, ninguém lhe ensinou.

O pai dele ficava deitado no sofá, enquanto a mãe corria de um lado para o outro.

Até hoje, quando a mãe dele vem nos visitar, a primeira coisa que faz é ir para a cozinha e começar a cozinhar.

Depois diz para mim: “Katenka, você vai preparar borscht para o Kostenka?”.

Mas Kostenka tem trinta e três anos e pode preparar sozinho.

Ele pode.

Simplesmente, até aquela quarta-feira, nunca tinha precisado.

Hoje é quarta-feira.

Passou uma semana desde aquela quarta-feira.

Estou deitada no quarto, lendo.

Terminei “Uma Vida Pequena”.

Chorei durante meia hora.

É um livro terrível.

Kostya entra.

— Katya.

— Hum.

— Escuta.

Vou pedir pizza.

Para você, com cogumelos?

Olho para ele.

— Com cogumelos.

E massa fina.

— Eu sei.

Ele sai.

Continuo deitada, olhando para o teto.

Não sorrio.

Mas também não estou franzindo a testa.

O interruptor que mudou de posição na quarta-feira passada continua na nova posição.

Não vou colocá-lo de volta.

Eu me conheço.

Da sala, não ouço o videogame.

É o YouTube.

Uma voz diz: “Como lavar corretamente camisas masculinas: sete erros que todo mundo comete”.

Fecho os olhos.

Que continue assistindo.