Vera encontrou a conversa por acaso.
Estava procurando o número do encanador no telefone do marido.

Mas acabou encontrando cento e quarenta e três mensagens cheias de corações e áudios enviados durante a noite.
Uma semana depois, ela estava sentada no escritório de um tabelião quando recebeu uma ligação de um número desconhecido.
Vera encontrou aquela conversa numa quinta-feira, às dez e meia da noite.
Estava procurando o número do encanador porque a torneira da cozinha pingava havia três dias, e Gleb sempre prometia consertá-la, mas acabava esquecendo.
Ela abriu o telefone dele.
A senha não mudava havia quatro anos: a data de nascimento da filha, seis dígitos.
Contatos, pesquisa, “encanador”.
Nada.
Ela abriu o aplicativo de mensagens para procurar uma conversa antiga com o técnico e viu o nome “Lika”.
A foto de perfil era um girassol.
Cento e quarenta e três mensagens.
Ela não tinha contado de propósito.
O próprio aplicativo mostrava o número.
Gleb dormia no quarto.
Através da parede, dava para ouvir sua respiração: regular, profunda, com um leve assobio ao expirar.
Ele sempre respirava daquele jeito quando dormia de costas.
Vera conhecia aquele som havia quatorze anos.
Seus dedos rolavam lentamente pela tela.
Ela não ouviu os áudios.
Leu apenas as mensagens.
O texto já era suficiente.
“Estou com saudades.”
“Quando?”
“Posso no sábado.”
“Você é a minha luz.”
Um emoji, um coração, outro emoji.
E então uma fotografia: Gleb em um restaurante, usando a camisa azul que Vera lhe dera de presente no aniversário de quarenta anos.
Ele sorria.
Não como sorria em casa.
Mais aberto.
Parecia mais jovem.
Vera bloqueou o telefone e o colocou exatamente onde o havia encontrado, no braço do sofá.
Levantou-se.
Foi até a pia.
A torneira pingava.
Ela contou as gotas até perder a conta.
Na manhã seguinte, preparou mingau.
Aveia, como sempre fazia às sextas-feiras.
A filha Polina estava sentada à mesa, mexendo na comida com a colher enquanto olhava para o tablet.
— Mãe, hoje temos seis aulas.
— Eu sei.
— Vai me buscar?
— Vou.
Gleb entrou na cozinha de cueca e camiseta.
Espreguiçou-se, bocejou e serviu café da cezve.
Sentou-se em frente a Vera.
Ela olhava para as mãos dele.
Grandes, com pelos escuros nos pulsos e a aliança no dedo anelar.
A aliança havia perdido o brilho.
Antes brilhava.
— O que você tem? — perguntou ele.
— Como assim?
— Não sei.
Você está quieta.
— Eu sempre sou quieta.
Ele deu de ombros.
Terminou o café.
Beijou Polina no alto da cabeça.
Foi se vestir.
Dez minutos depois, a porta de entrada bateu.
Vera ficou diante do fogão segurando a cezve.
A borra de café no fundo parecia um mapa.
Ou talvez uma mancha de tinta.
Ela despejou o restante na pia, e o líquido escuro escorreu lentamente pelo ralo.
A torneira continuava pingando.
Ela apertou com mais força.
Não adiantou.
No trabalho, abriu o navegador e digitou: “divisão de bens em caso de divórcio”.
Depois apagou e escreveu: “como pedir divórcio unilateralmente”.
Depois apagou isso também.
Ficou sentada diante da tela.
O cursor piscava.
Sua colega Zhanna se aproximou com uma caneca na mão.
— Vera, você vai almoçar?
— Não.
Tenho coisas para fazer.
— Tudo bem, então pego um salgado para você.
Pode ser de repolho?
— Pode.
Zhanna foi embora.
Vera digitou novamente: “tabelião perto da estação Akademicheskaya”.
Quatro resultados.
Escolheu o primeiro, ligou e marcou um horário para quarta-feira.
Depois fechou a aba e abriu a planilha de trabalho.
Os números pareciam flutuar diante de seus olhos.
Ela piscou.
Puxou a cadeira para mais perto da mesa.
Os números voltaram ao lugar.
Faltavam cinco dias para quarta-feira.
O fim de semana passou como sempre.
Sábado: supermercado, limpeza, desenho animado com Polina.
Gleb saiu dizendo que ia “para a casa de campo do Serëga ajudar com a cerca”.
Voltou por volta das nove, com cheiro de ar fresco e de um perfume feminino que não pertencia a Vera.
Não.
Talvez não fosse exatamente perfume.
Era algo floral, levemente adocicado.
Vera percebeu o cheiro quando ele tirou a jaqueta no corredor e a pendurou no gancho.
Ela não disse uma palavra.
Serviu sopa para ele e colocou pão na mesa.
Ele comia e falava sobre a cerca, sobre a esposa de Serëga que fazia salgados incríveis, sobre o caminho de volta.
Vera apenas assentia.
— A torneira está pingando de novo, — disse ele, apontando com a cabeça para a cozinha.
— Eu sei.
— Amanhã dou uma olhada.
— Tudo bem.
Ele não olhou.
O domingo passou entre sofá, futebol e telefone.
Gleb ficou deitado virado para a parede, digitando rapidamente alguma coisa.
Vera o via pelo canto do olho enquanto passava pelo quarto com o cesto de roupas.
Os dedos dele corriam pela tela.
Ele sorria.
Com aquele sorriso.
Aberto.
Jovem.
Vera levou as roupas para o banheiro, colocou tudo na máquina e ficou ouvindo o tambor ganhar velocidade.
O barulho aumentava.
A máquina tremia como se houvesse algo vivo dentro dela.
Polina apareceu correndo, descalça.
— Mãe, por que a máquina está fazendo tanto barulho?
— As roupas ficaram mal distribuídas.
— Ah.
Mãe, posso tomar sorvete?
— Depois do jantar.
— Ah, mãe!
— Depois do jantar, Polja.
A menina saiu correndo.
A máquina se acalmou.
Vera apoiou a palma da mão na lateral quente do aparelho e ficou assim até o timer do fogão tocar.
Segunda e terça-feira passaram em um estado estranho.
Não era raiva.
Não era dor.
Era algo entre as duas coisas.
Como se alguém tivesse esticado uma corda dentro dela e esquecido de soltá-la.
Ela fazia tudo como sempre: trabalho, Polina, jantar, torneira.
Mas suas mãos se moviam um pouco mais devagar.
E sua voz parecia um pouco mais abafada.
Na terça-feira à noite, Gleb disse:
— Quinta vou chegar tarde.
Reunião até as oito.
Vera olhou para ele.
Ele não desviou o olhar.
Olhos cinzentos, tranquilos.
Pálpebras levemente inchadas e uma pequena ruga entre as sobrancelhas que antes não existia.
Ou talvez existisse, e ela nunca tivesse notado.
— Tudo bem, — disse.
Depois acrescentou, sem nem entender por quê:
— Quer que eu prepare algo para você levar?
Sobrou comida do almoço.
— Sim, obrigado.
Ele sorriu.
Um sorriso normal, doméstico, apenas com os lábios, sem aquela outra abertura.
Vera se virou para a geladeira e tirou um recipiente.
Quarta-feira.
Onze e meia.
O cartório ficava no térreo de um edifício residencial, entre uma farmácia e uma alfaiataria.
Porta de vidro, placa com letras douradas.
Lá dentro havia cheiro de papel e de alguma coisa de madeira.
Talvez os móveis.
Talvez o chão.
A tabeliã era uma mulher de mais de sessenta anos.
Baixa, robusta, com óculos de armação fina.
Sobre a mesa havia pilhas de documentos, dois lápis e um pequeno cacto em um vaso de barro.
— Kovalëva Vera Andreevna?
— Sim.
— Sente-se.
A senhora ligou a respeito do acordo de divisão de bens?
— Sim.
E também preciso de uma consulta.
Quero entender quais são as minhas opções.
A tabeliã, Raisa Mikhailovna — Vera leu o nome na placa — assentiu e abriu uma pasta grossa.
— Diga-me quais bens vocês possuem.
Vera começou.
O apartamento.
Comprado durante o casamento, registrado no nome do marido, mas pago com dinheiro do casal.
A hipoteca havia sido quitada dois anos antes.
Um carro.
A casa de campo viera dos pais dele, mas estava registrada em nome dele desde antes do casamento.
Havia também uma conta de poupança em que Vera guardava parte do próprio salário: oitocentos mil rublos.
Raisa Mikhailovna ouvia, fazia anotações e de vez em quando fazia perguntas para esclarecer detalhes.
Vera respondia com calma.
Sua voz não tremia.
Ela havia ensaiado aquela conversa durante dois dias, repetindo mentalmente cada número.
— Filhos?
— Uma filha.
Nove anos.
— Com quem a senhora pretende que ela fique?
— Comigo.
— Seu marido sabe de suas intenções?
— Não.
Raisa Mikhailovna tirou os óculos, limpou-os com a ponta da blusa e os colocou de volta.
— Vera Andreevna, preciso lhe dizer uma coisa.
Um acordo de divisão de bens deve ser assinado pelas duas partes.
Sem o consentimento do seu marido, podemos formalizar muito pouca coisa aqui.
Mas posso preparar um rascunho para que a senhora entenda qual é a sua posição.
E posso explicar o procedimento.
— É exatamente disso que preciso.
Do procedimento.
Quero chegar diante dele não com emoções, mas com documentos.
A tabeliã a observou atentamente.
Os óculos brilharam.
— É uma abordagem correta.
Elas trabalharam por cerca de quarenta minutos.
Raisa Mikhailovna explicou que o apartamento comprado durante o casamento seria dividido pela metade, independentemente de quem constasse como proprietário.
O mesmo valia para o carro.
A casa de campo, se realmente estivesse registrada em nome dele desde antes do casamento, não seria dividida.
As economias de Vera, se ela conseguisse comprovar a origem, permaneceriam com ela, embora o marido pudesse contestar isso na Justiça.
— A pensão para sua filha, — disse Raisa Mikhailovna, — será devida até os dezoito anos.
Vinte e cinco por cento da renda para um filho.
Ou um valor fixo, caso a renda seja instável.
Naturalmente, seria melhor chegar a um acordo amigável.
Vera assentia.
Anotava tudo no caderno.
Sua letra era pequena e organizada, as letras alinhadas como se ela estivesse desenhando, não escrevendo.
Raisa Mikhailovna havia acabado de começar a explicar o procedimento para apresentar o pedido ao tribunal quando o telefone de Vera tocou.
Número desconhecido.
Ela queria rejeitar a chamada.
Mas alguma coisa a impediu.
Talvez um pressentimento.
Talvez aqueles seis dias de tensão que procuravam uma saída.
— Desculpe, — disse à tabeliã e apertou o botão. — Alô?
— Bom dia, — disse uma jovem voz feminina, levemente rouca. — É a Vera?
— Sim.
Quem fala?
— Meu nome é Anželika.
Preciso falar com a senhora.
É sobre Gleb.
Vera não se assustou.
Apenas parou de respirar por um segundo.
Depois inspirou.
O ar no escritório do cartório parecia quente e pesado.
— Estou ouvindo.
— Não posso falar disso por telefone.
Podemos nos encontrar?
— Por quê?
— Porque a senhora tem o direito de saber.
Acho que ele está mentindo para nós duas.
Vera olhou para Raisa Mikhailovna.
A mulher fingia ler alguns documentos.
— Tudo bem, — disse Vera. — Quando?
— Pode ser hoje?
Estou no café “Veranda”, na Leninsky.
Conhece?
— Conheço.
Daqui a uma hora.
— Obrigada.
Vera afastou o telefone.
Colocou-o sobre a mesa com a tela virada para baixo.
Depois virou a tela para cima.
Depois para baixo novamente.
— Vera Andreevna, — disse a tabeliã. — Está tudo bem?
— Sim.
Não.
Não sei.
Podemos continuar outro dia?
— Claro.
Vou preparar o rascunho e lhe telefonarei.
— Obrigada.
Vera se levantou.
Pegou a bolsa.
Ao chegar à porta, parou e se virou.
— Raisa Mikhailovna.
E se ele não aceitar um acordo amigável?
— Então será necessário ir à Justiça.
Mas será mais demorado e complicado.
— Entendo.
Ela saiu.
Lá fora soprava um vento frio acompanhado por pequenos flocos de neve cortantes.
Janeiro pesava sobre a cidade com seu céu cinzento.
Vera fechou o casaco até o queixo e seguiu em direção ao metrô.
O café “Veranda” estava quase vazio.
O horário de almoço ainda não havia começado.
Havia cheiro de café e baunilha.
Tocava uma música tranquila, algo parecido com jazz, sem letra.
Anželika estava sentada perto da janela.
Vera a reconheceu imediatamente, embora nunca a tivesse visto.
Jovem.
Vinte e sete, talvez vinte e oito anos.
Cabelos escuros até os ombros, queixo pontudo, uma pinta acima do lábio superior.
Dedos finos envolvendo uma xícara.
Nenhum anel no dedo anelar.
Vera se aproximou e sentou-se em frente a ela.
— Bom dia.
— Bom dia.
As duas se olharam.
A garçonete se aproximou.
— Para mim um chá, por favor, — disse Vera. — Verde, se tiver.
— Temos.
Jasmim ou sencha?
— Qualquer um.
A garçonete se afastou.
Anželika girava a xícara sobre o pires.
A xícara era vermelha, com uma pequena lasca na borda.
— Eu não sabia que ele era casado, — disse Anželika.
Sua voz era baixa, mas firme.
— Durante os primeiros três meses eu não sabia.
Ele dizia que era divorciado.
— E depois?
— Depois vi uma foto de vocês.
No telefone dele.
A senhora e uma menina, em um parque.
Era outono.
As folhas estavam amarelas.
Vera se lembrou daquela foto.
Outubro, Jardim Neskuchny.
Polina no balanço, Vera ao lado, Gleb tirando a foto.
Polina tinha sete anos.
Dois anos antes.
— Eu perguntei a ele, — continuou Anželika. — Ele disse que a senhora era a ex-mulher.
Que vocês não estavam juntos havia muito tempo.
Que ainda não tinham se divorciado oficialmente por causa da criança.
— E você acreditou?
Anželika ergueu os olhos.
Castanhos, com pequenos pontos amarelos ao redor da pupila.
— Acreditei.
Quis acreditar.
A garçonete trouxe o chá.
Vera segurou a xícara com as duas mãos.
A cerâmica estava quente, quase queimando.
Ela não tirou as mãos.
— Por que você me ligou? — perguntou Vera. — Para mim.
Por quê?
Anželika ficou em silêncio.
Soltou a própria xícara.
Seus dedos deixaram marcas úmidas na cerâmica vermelha.
— Porque três dias atrás ele me disse que deixaria a senhora.
Que já havia alugado um apartamento.
Que em fevereiro começaríamos a morar juntos.
— E então?
— Eu acreditei nele.
De novo.
Depois liguei para o número que ele havia deixado como telefone de casa.
Uma menina atendeu.
Ela disse: “Mãe, estão te ligando”.
E eu entendi que ele não tinha ido embora para lugar nenhum.
Vera pousou a xícara.
O chá balançou e derramou um pouco sobre o pires.
— Polina, — disse baixinho.
— O quê?
— Minha filha.
O nome dela é Polina.
Anželika abaixou a cabeça.
— Sinto muito.
— Eu também.
As duas ficaram em silêncio.
Do lado de fora, um ônibus passou e respingou no vidro uma mistura cinzenta levantada pelas rodas.
O jazz terminou.
Passou a ser possível ouvir o zumbido da máquina de café.
— Há quanto tempo isso dura? — perguntou Vera.
— Oito meses.
— Desde maio.
— Desde maio.
Sim.
Vera começou a fazer as contas.
Em maio, elas haviam viajado para Suzdal durante o fim de semana.
Só os dois, sem Polina.
Gleb havia sugerido a viagem.
Reservou o hotel e escolheu o restaurante.
Na época, Vera pensou: talvez as coisas estejam melhorando.
Talvez ela apenas estivesse imaginando que ele estava se afastando.
— Em maio nós estávamos em Suzdal, — disse.
Falou simplesmente, sem tentar causar efeito.
Anželika estremeceu.
Pela primeira vez durante toda a conversa.
— Ele disse que tinha ido visitar a mãe em Tula.
— A mãe dele mora em Moscou.
Na Taganka.
Sempre morou.
Anželika fechou os olhos.
Quando os abriu novamente, estavam vermelhos.
— Eu sou uma idiota, — disse.
— Não.
Você não é idiota.
Ele simplesmente mente muito bem.
Era estranho.
Vera esperava sentir raiva.
Daquela mulher, da juventude dela, da pinta acima do lábio, dos dedos finos.
Mas não havia raiva.
Havia outra coisa.
Como se as duas estivessem em lados opostos do mesmo vidro e observassem a mesma pessoa.
E ele se refletisse da mesma maneira nas duas.
— O que você pretende fazer? — perguntou Anželika.
— Me divorciar.
— Já decidiu?
— Eu estava no cartório quando você me ligou.
Anželika afastou a xícara.
Apoiou as mãos sobre a mesa, com as palmas para baixo.
— Ontem ele me trouxe flores.
Rosas.
Rosas cor-de-rosa.
Vera quase riu.
Rosas.
Gleb dava rosas para todas.
Para ela em todos os aniversários.
Em todo dia 8 de março.
Sempre as mesmas rosas, compradas no mesmo quiosque perto do metrô.
— Cor-de-rosa? — perguntou Vera.
— Cor-de-rosa.
Sete.
— Para mim ele geralmente comprava cinco.
Deve ser a inflação.
Anželika soltou uma risada involuntária.
Cobriu a boca com a mão.
Depois baixou a mão.
— Desculpe.
Isso não tem graça.
— Não tem graça, — concordou Vera. — Mas acho que não conseguiria passar por isso sem rir.
Elas ficaram no café por uma hora e meia.
Vera tomou dois chás.
Anželika tomou um café e um copo d’água.
A garçonete não voltou mais, provavelmente percebendo que era melhor não interromper.
Anželika contou tudo.
Eles se conheceram na academia.
Foi ele quem se aproximou primeiro.
Charmoso, atencioso, perguntava sobre o trabalho dela e se lembrava de pequenos detalhes.
Ela trabalhava como dentista em uma clínica particular, morava sozinha e alugava um pequeno apartamento na Profsoyuznaya.
Os pais dela moravam em Voronezh.
— Ele vinha me ver três vezes por semana, — contou Anželika. — Terça, quinta e sábado.
Como se tivesse um cronograma.
Vera ouvia e se lembrava.
Terça-feira: Gleb “ficava até tarde no trabalho”.
Quinta-feira: “academia”.
Sábado: “na casa do Serëga”.
Três dias por semana.
Oito meses.
Ela fez rapidamente a conta de cabeça: cerca de cem encontros.
Cem vezes ele havia saído do apartamento deles, entrado no carro e ido até outra mulher.
E cem vezes havia voltado.
Ela pensou nisso com calma.
Como se fosse um problema do trabalho.
Existem os dados iniciais e existe o resultado.
Os cálculos intermediários não importam.
— Ele dizia que amava você? — perguntou.
— Sim.
— Também dizia isso para mim.
No domingo, antes de dormir.
Toda vez.
— Toda vez o quê?
— Todo domingo.
“Boa noite, eu te amo.”
Depois virava para a parede.
Anželika a observava como se enxergasse algo familiar em Vera.
Talvez o próprio futuro.
— A senhora o ama? — perguntou.
— Eu amava.
Não sei quando deixei de amar.
Talvez antes mesmo de encontrar as mensagens.
— Como assim?
— Quando o amor acaba, não é uma explosão.
É uma torneira.
Pinga.
Pinga.
E em algum momento você simplesmente deixa de ouvir.
Elas saíram juntas do café.
Ficaram nos degraus diante da entrada.
A neve havia aumentado.
Anželika colocou o gorro e escondeu o queixo no cachecol.
— O que a senhora vai dizer a ele? — perguntou.
— Ainda não sei.
Mas vou dizer.
Esta semana.
— E o que eu faço?
Vera olhou para ela.
Vinte e sete anos.
Uma pinta acima do lábio.
Dedos finos.
A vida inteira pela frente, e naquela vida Gleb Kovalëv ocupava um espaço que não merecia.
— Você é quem tem que decidir, — disse Vera. — Não vou lhe dar conselhos.
Mas uma coisa eu digo: ele não vai embora.
Nem de mim, nem de você.
Vai continuar fazendo promessas para nós duas enquanto for conveniente para ele.
Anželika assentiu.
Elas não trocaram números.
Não combinaram de se encontrar novamente.
Anželika se virou e caminhou em direção ao metrô.
Vera ficou nos degraus e a observou se afastar.
Uma figura escura com um casaco cinzento.
A neve se acumulava sobre seus ombros.
Vera pegou o telefone.
Ligou para Raisa Mikhailovna.
— Bom dia, aqui é Kovalëva.
Hoje não terminamos.
Quando posso voltar?
— Amanhã às três, Vera Andreevna.
Serve?
— Serve.
Vera guardou o telefone e seguiu em direção ao metrô.
Na direção oposta à de Anželika.
Naquela noite, Gleb voltou às oito.
Tirou os sapatos e pendurou a jaqueta.
Vera estava na cozinha cortando cebola.
Seus olhos lacrimejavam.
Conveniente.
A cebola explicava tudo.
— O que tem para jantar? — perguntou ele do corredor.
— Ensopado.
— Ah, fazia tempo que você não fazia.
Ótimo.
Ele entrou na cozinha.
Pegou uma garrafa de água na geladeira.
Bebeu inclinando a cabeça para trás.
O pomo de Adão subia e descia.
Vera olhava para aquele movimento e pensava: quatorze anos.
Cinco mil jantares.
Dez mil “boa noite”.
E nenhum “me desculpe”.
Ele colocou a garrafa sobre a mesa.
— Você comprou alguma coisa hoje?
Tem uma sacola no corredor.
— Meia-calça para Polina.
As antigas ficaram pequenas.
— Está crescendo.
— Está crescendo.
Ele saiu.
Vera cortava as cenouras.
A faca batia na tábua: toc, toc, toc.
Regular.
Rítmico.
Como um metrônomo.
Ela decidiu que contaria a ele na sexta-feira.
Levaria Polina para a casa da mãe durante o fim de semana.
Sem criança no apartamento.
Sem testemunhas.
Quinta-feira foi um dia normal.
Trabalho, telefonemas, a planilha do Excel que ela preenchia havia três semanas.
Zhanna perguntou se estava tudo bem.
Vera respondeu que sim.
Zhanna a observou por alguns segundos e não disse nada.
Na hora do almoço, a mãe ligou.
— Verочка, oi.
Como você está?
— Bem, mãe.
— E Gleb?
— Bem.
— E Polinka?
— Crescendo.
Mãe, ela pode ir para sua casa na sexta?
Para passar o fim de semana.
— Claro.
Por quê?
— Eu e Gleb precisamos conversar.
A mãe ficou em silêncio.
O silêncio durou três segundos.
Quatro.
Cinco.
— Vera, — disse a mãe. — Você está bem?
— Estou bem, mãe.
De verdade.
— Tudo bem.
Pode mandar ela vir.
Vou fazer uma torta.
— Obrigada.
Vera desligou e pensou que sua mãe havia entendido tudo.
Mães sempre entendem.
Pela pausa, pelo tom, pelo modo como a filha diz “de verdade” depois de “estou bem”.
Sexta-feira.
Polina foi para a casa da avó depois da escola.
Vera voltou para casa às seis.
O apartamento estava silencioso.
Estranhamente silencioso.
Sem o tablet de Polina, sem desenhos animados, sem o constante “mãe, posso?”.
Preparou o jantar.
Colocou dois pratos na mesa.
Depois tirou um.
Depois colocou de volta.
Que bobagem.
Eles jantariam juntos.
Pela última vez.
Gleb chegou às sete.
Animado.
Com uma garrafa de vinho.
— Pensei que, já que Polinka não está aqui, poderíamos passar um tempo juntos de verdade.
Como antigamente.
Ele sorria.
Com o sorriso doméstico.
Sem aquela outra abertura.
Vera pegou a garrafa.
Chardonnay.
Ele nunca entendeu nada de vinho, simplesmente escolhia o que estivesse na altura dos olhos.
— Obrigada, — disse Vera. — Vamos comer primeiro.
Eles se sentaram.
Ensopado.
Pão.
Vinho.
Gleb comia com apetite.
Contava sobre um colega que havia sofrido um acidente, mas todos estavam vivos.
Sobre o chefe que estava atrasando o bônus novamente.
Sobre precisar trocar os pneus, mas continuar adiando.
Vera escutava.
Comia.
Bebia o vinho em pequenos goles.
Ácido, com um leve amargor.
Quando os pratos ficaram vazios, ela se levantou, recolheu a louça e colocou tudo na pia.
A torneira pingava.
Oito dias.
Havia oito dias ela pedia para ele consertá-la.
Ela se virou.
— Gleb.
— Hm?
— Preciso lhe dizer uma coisa.
Ele ergueu a cabeça.
Algo passou por seus olhos.
Rápido, como um relâmpago.
Medo?
Irritação?
Vera não conseguiu identificar.
— O quê?
— Eu sei sobre Anželika.
Silêncio.
Um silêncio tão intenso que era possível ouvir a torneira pingando.
Pingo.
Pingo.
Pingo.
Ele empalideceu.
Não muito, mas Vera percebeu.
O sangue sumiu do rosto dele e tornou visível uma pequena rede de vasos ao redor do nariz.
— Vera…
— Não me interrompa.
Eu sei sobre ela.
Sei que já dura oito meses.
Sei que você disse a ela que nós estávamos nos divorciando.
Sei que em maio, quando viajamos para Suzdal, ela achava que você estava visitando sua mãe em Tula.
Ele abriu a boca.
Fechou.
Abriu novamente.
— Quem te contou…
— Ela me ligou.
Por conta própria.
Gleb se encostou no encosto da cadeira.
Passou a mão pelo rosto, de cima para baixo, como se tentasse apagar alguma coisa.
— Vera.
Me escuta.
Não é o que você está pensando.
— E o que eu estou pensando?
— Foi apenas…
uma coisa.
Uma bobagem.
Uma estupidez.
Eu pretendia terminar.
— Quando?
— Em breve.
Já estava quase terminando.
— Três dias atrás você disse a ela que havia alugado um apartamento e que em fevereiro vocês começariam a morar juntos.
Ele piscou.
Rápido, duas vezes.
— Ela te disse isso?
— Disse.
— Ela está exagerando.
Eu só…
disse para acalmá-la.
Ela estava pressionando.
— Gleb.
Você mentiu para mim.
Mentiu para ela.
E está mentindo agora, neste exato momento, sentado aqui.
Ele se levantou.
A cadeira raspou no chão.
Aproximou-se dela.
Ergueu os braços como se fosse abraçá-la.
Vera deu um passo para trás.
— Não.
— Vera, por favor.
Esta é a minha família.
Você, Polina.
Não tenho intenção de ir embora.
— Eu sei que você não pretende ir embora.
Esse é justamente o problema.
Ele olhava para ela.
Ela olhava para ele.
Entre os dois havia um metro de cozinha, uma mesa com pratos vazios e quatorze anos que lentamente escorriam embora como água de uma torneira quebrada.
— Eu fui ao cartório, — disse Vera. — Na quarta-feira.
Quando ela me ligou, eu estava sentada no escritório discutindo a divisão de bens.
— Vera!
— O apartamento será dividido pela metade.
O carro também.
Pensão para Polina, vinte e cinco por cento.
Isso se fizermos tudo amigavelmente.
Se for pela Justiça, levará mais tempo, mas o resultado será o mesmo.
— Você não pode…
— Posso.
Já comecei.
Ele sentou-se novamente.
Como se todo o ar tivesse saído de seu corpo.
Os ombros caíram.
As mãos pousaram sobre os joelhos.
A aliança brilhou fracamente sob a luz da cozinha.
— Podemos pelo menos conversar? — disse ele.
Baixo.
Quase implorando.
— Estamos conversando.
— Não.
Conversar de verdade.
Sem tabelião.
Sem esses…
percentuais.
Como pessoas normais.
— Como pessoas normais.
Você mentiu para mim durante oito meses.
Como pessoas normais.
— Vera, eu errei.
Foi um erro.
Um erro enorme, terrível.
Vou fazer qualquer coisa para…
— O que você vai fazer?
— Tudo.
Vou consertar a torneira.
O que você quiser.
Vera ficou imóvel.
Olhou para ele.
Ele estava sentado ali, grande, perdido, com os olhos vermelhos e aquelas palavras sobre a torneira.
Quatorze anos.
Cinco mil jantares.
E a torneira.
— A torneira, — repetiu.
— Eu só…
não sei o que dizer.
— Nada.
Você não precisa dizer nada.
Ela se virou.
Foi até a pia.
Abriu completamente a torneira.
A água começou a correr forte e barulhenta, abafando qualquer outro som.
Depois fechou.
Secou as mãos com a toalha.
Pendurei-a cuidadosamente no gancho.
— Vou dormir no quarto da Polina, — disse sem se virar. — Mostro os documentos quando estiverem prontos.
Saiu da cozinha.
Ele não se levantou.
Não correu atrás dela.
Ficou sentado à mesa, diante dos pratos vazios e da garrafa de Chardonnay que eles não terminaram.
No quarto de Polina havia cheiro de xampu infantil e massinha de modelar.
Sobre a cama estava sentado um ursinho de pelúcia com um olho só.
Polina havia perdido o outro quando tinha quatro anos e desde então o chamava de Pirata.
Vera se deitou por cima da colcha.
Não tirou a roupa.
Apenas ficou deitada olhando para o teto.
Havia uma rachadura fina e sinuosa no teto, parecida com um rio em um mapa.
Ela a seguiu com os olhos: do canto até o lustre, do lustre até a janela.
Do outro lado da parede, silêncio.
Depois, ouviu-se água correndo.
Depois silêncio novamente.
Depois a cama rangeu.
Vera pegou o telefone.
Abriu as mensagens.
Escreveu para a mãe: “Mãe, está tudo bem.
Nós conversamos”.
Pensou por alguns segundos.
Apagou “está tudo bem”.
Escreveu: “Eu contei”.
Enviou.
A mãe respondeu um minuto depois: “Estou aqui, filha.
E tem torta”.
Vera sorriu.
Pela primeira vez em oito dias.
Fracamente, apenas com os lábios, mas sorriu.
O urso Pirata olhava para ela com seu único olho.
Ela o virou para a parede.
Não queria que ninguém a visse.
Na manhã de sábado, Gleb foi embora.
Não disse para onde.
Vera não perguntou.
Apenas ouviu a porta bater e depois o elevador começar a funcionar.
O apartamento estava vazio.
Silencioso.
A luz do sol atravessava as cortinas e formava uma faixa sobre o chão.
Partículas de poeira dançavam na luz.
Vera ficou parada no meio do corredor ouvindo o silêncio.
Não era um silêncio pesado.
Nem sufocante.
Era apenas silêncio.
Ela entrou na cozinha.
A torneira pingava.
Abriu a gaveta de ferramentas, encontrou uma chave inglesa e se agachou diante da pia.
Encontrou a válvula.
Girou.
Apertou.
Depois mais uma vez.
A torneira parou de pingar.
Ela colocou a chave sobre a mesa.
Lavou as mãos.
Secou.
Pendurou a toalha no gancho.
Ficou ali ouvindo o silêncio.
Nenhuma gota.
Pegou o telefone, ligou para a mãe e disse:
— Mãe, hoje vou buscar Polina.
E também vou levar a torta.
— Tudo bem, Verочка.
— E mãe.
— O quê?
— Obrigada.
Vera guardou o telefone.
Olhou para a pia.
A aliança estava apoiada na borda, exatamente onde ela a havia deixado durante a noite.
Opaca, com um pequeno arranhão que ela nunca tinha percebido antes.
Pegou-a.
Segurou-a na palma da mão.
Leve.
Quase sem peso para uma coisa que havia significado tanto.
Colocou-a de volta.
Exatamente no mesmo lugar.
Não a ajeitou.







