Foi sua mãe que sugeriu? — perguntou Svetlana baixinho ao marido.
Os papéis farfalhavam como se dentro deles não houvesse terra, mas folhas secas.

Veronika ouvia enquanto enumeravam as partes da herança e continuava esperando o momento em que diriam o nome dela.
Para o pai — a casa do avô.
Para o irmão — o jipe com que ele sonhava desde os dezoito anos.
— E para a neta, Veronika Andreevna, um terreno de quarenta sotkas, — foi anunciado de maneira neutra, sem solenidade.
— Que quarenta sotkas? — Veronika levantou a cabeça.
— O vovô tinha três arbustos de groselha e uma pá.
Só isso.
— O terreno fica junto ao lago e faz divisa com uma área de pinheiros.
Está alugado por contrato, cuja cópia está anexada.
O irmão assobiou.
O pai ficou em silêncio.
Na verdade, ele já estava calado havia seis meses, desde o funeral, e aquele silêncio era a maneira que encontrara de continuar respirando.
— Pai, você sabia? — perguntou ela no corredor.
— Sabia, — o pai ajeitou a gola.
— Ele levou você até lá quando tinha seis anos.
Você deu pão para um pato e ele mordeu seu dedo.
— Do pato eu lembro.
Do terreno, não.
— O terreno lembra de você, — disse o pai com um leve sorriso no canto da boca.
Ela foi sozinha no sábado, pegando um trem local e depois caminhando um quilômetro por uma estrada de areia.
Os pinheiros estavam alinhados em fileiras retas, como um coral em ensaio — jovens, alguns chegando ao peito, outros aos ombros, todos de alturas diferentes.
Perto de uma casinha baixa com a placa “Mudas”, uma mulher de colete e mãos acostumadas à terra veio recebê-la.
— Bom dia!
Você quer mudas de três anos ou de cinco? — perguntou de imediato.
— Temos com torrão e também de raiz nua, mas essas são para o outono.
— Eu queria… entender como tudo funciona, — Veronika tirou os documentos.
— Sou a nova proprietária.
Neta de Andrei Petrovich.
A mulher congelou.
Baixou a pequena pá no balde, limpou a palma da mão no colete e, de repente, pareceu diminuir meio palmo.
— Então acabou.
Quer dizer que vai vender, — disse ela com voz abafada.
— Eu sou Tamara.
Tamara Ilyinichna.
Há oito anos tudo aqui passa pelas minhas mãos.
— Por enquanto não vou vender nada.
Eu nem sei onde se abre a água por aqui.
— A válvula fica atrás da casinha, a vermelha, — respondeu Tamara automaticamente.
— Veronika… qual é o seu patronímico?
— Só Veronika.
Tamara Ilyinichna, me conte sobre os pinheiros.
Eu realmente não sei nada.
Até ontem eu achava que abeto e pinheiro eram a mesma árvore, só que de humores diferentes.
Autora: Vika Trel © 5477
Tamara soltou um pequeno riso e a levou para mostrar tudo.
Falava depressa, como se tivesse medo de não conseguir contar tudo a tempo: três anos no canteiro, depois transplante, depois mais dois anos.
Os compradores vinham de toda a região.
Alguns levavam uma árvore, outros centenas para formar avenidas inteiras.
— Seu avô entendia dessas coisas.
Ele fez comigo um contrato justo, por oito anos, e não pediu um rublo a mais.
Dizia que terra não era para lucro, terra era para árvore.
— Parece mesmo com ele, — disse Veronika baixinho.
— Uma vez ele me disse que uma pessoa que plantou uma árvore já não nasceu totalmente em vão.
— Se resolver vender, me avise primeiro, — Tamara entrelaçou os dedos com força.
— Eu me endivido, vendo a garagem, o carro, qualquer coisa.
Mas me avise primeiro.
— Prometo.
Você será a primeira.
À noite, Veronika espalhou as fotografias sobre a mesa diante de Artyom: água, areia, troncos, fileiras de mudas, a válvula vermelha atrás da casinha.
Artyom ficou olhando durante muito tempo.
Depois pegou o telefone.
— Aonde você vai?
— Na casa dos meus pais.
Eles precisam ver isso!
— Artyom, é um terreno, não o nascimento de trigêmeos.
Mas ele já estava vestindo a jaqueta.
Veronika foi com ele — por educação e também por curiosidade.
Larisa Nikolaevna examinava as fotos segurando o telefone bem perto do rosto.
— Ai, que lugar maravilhoso… Artyomzinho, aqui precisa construir uma casa!
De dois andares, com um terraço voltado para o lago!
— Quarenta sotkas significam impostos, — comentou Igor Sergeevich, sentando-se ao lado.
— É muita coisa.
Vendemos metade e construímos na outra metade.
E também vendemos nossa dacha de seis sotkas.
Quem precisa dela?
Há oito anos os únicos donos de lá são as formigas.
— Exatamente! — animou-se Larisa Nikolaevna.
— Vendemos a dacha e colocamos o dinheiro na casa!
— Eu, claro, sou uma mulher modesta, — disse Veronika, — mas gostaria de lembrar que o terreno é meu.
Segundo os documentos.
Até meu nome está escrito ali, letra por letra.
Zhanna saiu do quarto.
Tinha vindo passar o fim de semana com o filho.
Havia três anos era mãe e havia três anos estava de mal com o espelho.
— Esperem, vou calcular, — ela já deslizava pelos anúncios.
— Então… primeira linha do lago… floresta perto… Ah.
Aqui tem um parecido.
Onze milhões.
Onze!
Terra nua, sem nada!
— Onze? — Larisa Nikolaevna levou a mão ao peito.
— E se dividir em lotes de dez sotkas, dá ainda mais dinheiro, — Zhanna se sentou, esquecendo até por que tinha saído do quarto.
— Quatro lotes.
Hoje em dia as pessoas entregam a alma por um terreno perto de lago.
— Eu gostaria de uma pequena edícula lá, — disse Igor Sergeevich sonhador.
— Nada grande.
Com um pequeno píer.
— E uma casinha para mim e para o pequeno também, — acrescentou Zhanna.
— Nem que seja só de verão.
Veronika ouvia em silêncio enquanto, em cinco minutos, suas quarenta sotkas eram distribuídas entre pessoas que seu avô havia visto uma única vez na vida — no casamento dela, e mesmo assim de longe.
— Desculpem interromper esta sessão de sonhos, — disse ela.
— Mas esta é a herança da Veronika.
De uma Veronika só.
Eu.
— Mas estamos falando como família! — Larisa Nikolaevna abriu os braços.
— Mãe, o terreno é da Veronika, — disse Artyom de repente.
— Eu não tenho absolutamente nada a ver com isso.
Larisa Nikolaevna apertou os lábios e afastou o telefone do rosto, como se as fotos tivessem ficado feias de repente.
Foram necessários um mês e meio para concluir toda a papelada.
Veronika registrou oficialmente a propriedade em seu nome e renovou o contrato de aluguel com Tamara nas mesmas condições anteriores, levando a mulher quase às lágrimas.
— Você tem certeza? — Tamara releu o valor três vezes.
— Poderia ter triplicado.
— Poderia.
Mas triplicar já não seria aluguel, seria assalto com sorriso.
E eu sorrio por outros motivos.
Sua mãe foi breve ao telefone.
— Não passe nada para ninguém.
Nem para seu marido, nem para a família dele.
Seu avô deixou para você, então é seu.
— Mãe, que isso.
Artyom nem quer ouvir falar disso.
— Que Deus queira.
Só se lembre.
Veronika riu.
Riu até abrir a porta do apartamento naquela quinta-feira.
Velas.
Toalha de mesa.
Comida entregue por um bom restaurante, distribuída nos pratos como se tivesse sido preparada em casa.
O vinho já estava aberto para respirar.
— Certo, — disse ela ainda na entrada.
— Meu aniversário foi em março, nosso aniversário de casamento é em setembro.
Esqueci alguma coisa?
Dia Internacional das Quarenta Sotkas?
— Só quero passar uma noite com minha esposa, — Artyom puxou a cadeira para ela.
— Sente-se.
Ele falava bonito.
Sobre o futuro.
Sobre já estar na hora de terem filhos.
Sobre o apartamento ser apertado.
Sobre uma criança precisar de ar, pinheiros e água.
Ele servia vinho para ela, e ela continuava completando o copo dele.
— E então pensei, — Artyom afastou a taça.
— Tudo isso precisa ser distribuído com inteligência.
De maneira prática.
Você é uma pessoa muito boa, qualquer um consegue convencer você.
Mas eu, como marido, posso decidir de forma justa.
Veronika afastou lentamente seu copo.
A embriaguez desapareceu de uma vez, como se alguém tivesse desligado um interruptor.
— E o que seria “de forma justa”?
— Colocar tudo no meu nome.
Assim fica tudo limpo.
— Continue, — disse ela com doçura.
— Está muito interessante.
Estou ouvindo como se fosse uma peça de rádio.
E ele contou tudo.
Duas partes para venda.
A empreiteira indicada pelo pai.
O fato de Zhanna precisar obrigatoriamente de uma casinha.
E o fato de que Tamara “teria de ser convidada a sair, porque aquele negócio dela dava uns trocados”.
— Uns trocados, — repetiu Veronika.
— Uma mulher cultiva pinheiros há oito anos e você, em uma noite, decidiu que isso vale uns trocados.
Você sabe quanto vive um pinheiro?
Trezentos anos.
Nem como projeto você dura tudo isso.
— Não seja sarcástica!
— Não estou sendo sarcástica.
Só estou esclarecendo a escala.
Ela encheu novamente o copo dele.
Ele bebeu.
— Você está querendo ficar com a minha herança? — perguntou ela em voz baixa, quase com ternura.
— Foi sua mãe que sugeriu?
Ou foi um projeto familiar e todos contribuíram com ideias?
— Todos concordam! — Artyom bateu a palma na toalha.
— Minha mãe, meu pai e Zhanna!
Todos, menos você!
O quê, acha que é mais inteligente que todo mundo?
— Não sou mais inteligente que todo mundo.
Sou apenas a única cujo nome está no certificado.
Uma coisinha tão pequena, mas olha como atrapalha.
— Isso é uma oportunidade, Veronika!
Nós poderíamos…
— Sabe, sua ideia realmente tem futuro, — disse ela com calma.
Artyom soltou o ar, aliviado.
Ouviu exatamente o que queria ouvir e nada além disso.
Foi ao banheiro lavar o rosto e, por trás do barulho da água, chegou sua voz abafada e feliz.
— Pronto, combinamos.
Nos próximos dias vamos colocar tudo no meu nome.
Sim.
Sim, ela mesma concordou.
Veronika recolheu a louça.
Depois se sentou no escuro, ligou para Olga e conversou durante quarenta minutos.
— O que eu faço?
— Eu não vou lhe dizer o que fazer, — disse Olga.
— Você já decidiu tudo sozinha.
Só precisa falar em voz alta.
E Veronika falou.
Às três da manhã, as palavras finalmente estavam organizadas em seus lugares, como mudas alinhadas em fileiras.
De manhã, Artyom saiu para o corredor de cueca e parou.
Sacolas.
Grandes e pequenas, transparentes, pretas, azuis, com alças e sem alças.
De uma delas saía um tênis.
De outra, a manga de uma jaqueta.
— O que é isso? — perguntou rouco.
— É você.
Em formato compacto.
— Você enlouqueceu?!
— Pelo contrário.
Finalmente voltei ao juízo, — Veronika lhe entregou jeans dobrados, uma camisa e um suéter.
— Isso eu não coloquei nas sacolas para você não ter que sair daqui vestido apenas com a própria dignidade.
Obrigada pelo jantar, estava tudo delicioso, principalmente o vinho.
E a resposta é não.
— Não o quê?!
— Não.
A herança é minha e continuará sendo minha.
E um homem que, seguindo as ordens da própria família, exige da esposa a terra do avô dela tem um nome curto.
Traidor.
Oito letras e oito anos de convivência.
— Mas eu estava fazendo isso por nós!
— Se fosse por nós, você teria me perguntado como eu estava me sentindo depois de perder meu avô.
Você perguntou como colocar quarenta sotkas no seu nome.
— Minha mãe apenas sugeriu…
— Ótimo.
Então vá morar com ela.
Se sua mãe gosta tanto de sugerir, que continue sugerindo debaixo do próprio teto.
A campainha tocou.
Larisa Nikolaevna apareceu com um bolo, usando seu melhor casaco e com o rosto preparado para uma comemoração.
Viu o filho pálido, de cueca.
Viu as sacolas.
A expressão dela começou a desmoronar.
💥— Saia daqui, seu noivo vai ficar comigo, — disse a irmã calmamente.
“Eu sou uma mulher forte.
Histórias de Elena Strizh”, 4 de agosto.
— Mas… nós achamos que… — começou ela.
— O bolo eu aceito, obrigada, — Veronika pegou cuidadosamente a caixa e colocou nas mãos agora livres da sogra uma sacola com as coisas de Artyom.
— E isso é para a senhora: o dote.
Obrigada pela ideia de dividir minha herança.
Agora vocês podem dividir os cantos do próprio apartamento: quem fica no sofá e quem fica no quarto de passagem.
Artyom sai do meu apartamento hoje.
Hoje, — repetiu ela.
— Veronika, por que ser tão radical…
— Radical foi ontem, quando seu filho, com o barulho da água ao fundo, estava lhe contando que a esposa “concordou sozinha”.
Larisa Nikolaevna abriu a boca.
Olhou para a nora.
E entendeu: mais uma palavra e o filho desceria junto com as sacolas.
— Resolvem isso vocês mesmos, — resmungou, deixando a sacola no chão e indo embora.
Artyom ficou no meio do corredor, de cueca, com as roupas nas mãos.
— Eu não preciso da sua herança, — disse às costas da esposa.
— Eu já estava bem sem ela.
— Estava, — concordou Veronika.
— Boa palavra.
Tempo passado.
Ele se vestiu devagar, tentando ganhar tempo e olhando para ela de vez em quando.
— Acho que vou deixar as coisas aqui.
Para onde eu vou com todas essas sacolas?
— Como quiser.
Ele foi embora.
E durante dois dias ficou na casa dos pais, plenamente convencido de que a esposa iria se acalmar, que ele voltaria com flores, diria três frases certas e tudo voltaria aos trilhos.
No terceiro dia tocaram a campainha.
No patamar estavam empilhadas aquelas mesmas sacolas, formando uma parede até o corrimão.
— Entrega concluída.
Trinta e dois volumes, — disse um homem de colete.
— Confira, por favor, e assine.
— Trinta… e dois? — exalou Larisa Nikolaevna.
— Trinta e dois.
O telefone tocou enquanto Artyom ainda segurava o recibo.
— Recebeu suas coisas? — perguntou Veronika calmamente.
— Ótimo.
Confirme o divórcio.
Eu já dei entrada no pedido, você vai receber a notificação.
💥— Então ela vai ficar morando conosco?
Você pensou no que isso vai causar? — Irina olhou para a cunhada.
“Eu sou uma mulher forte.
Histórias de Elena Strizh”, 2 dias atrás.
— Nika, espera, vamos conversar…
— Não vamos.
Já conversamos, e você foi muito sincero.
Por isso, aliás, obrigada: um inimigo sincero é mais útil do que um marido nebuloso.
Ela desligou.
— Foi você! — gritou Artyom para a mãe.
— Você colocou essa ideia na minha cabeça!
“Passe para o seu nome, você é o homem!”
— Eu?! — Larisa Nikolaevna se virou para o marido.
— Foi ele quem disse!
“Seria ótimo se nosso filho conseguisse ficar com aquilo!”
— Eu estava falando só de uma edícula! — explodiu Igor Sergeevich.
— Do píer!
Quem pediu para vocês decidirem tudo como se fossem donos?!
Os três continuaram gritando no patamar, cercados por trinta e duas sacolas, sem conseguir encontrar o culpado, porque a culpa estava distribuída dentro de cada uma delas.
No sábado, Veronika caminhava novamente pela estrada de areia.
Os pinheiros haviam crescido um dedo, e o ar sobre a água estava completamente imóvel.
— Você veio! — Tamara correu até ela, enxugando as mãos.
— Achei que já chegaria com compradores.
— Não haverá compradores.
Nunca.
— Como assim?
— Assim, — Veronika se agachou junto a uma fileira de mudas e tocou as agulhas.
— Estive pensando.
Pode ficar também com a outra metade do terreno, se tiver forças para cuidar dela.
Tamara sentou-se ao lado dela, diretamente na areia.
— Você brigou com alguém por causa dessa terra?
— Estou me divorciando.
— Meu Deus.
Por causa de quarenta sotkas?
— Não.
Por causa de uma mão, — Veronika sorriu de lado.
— Ela se estendeu para o lugar errado.
Sabe, você não conhece realmente uma pessoa quando ela divide a dor com você, mas quando tenta dividir com você aquilo que ela mesma não conquistou.
— Você sente pena dele?
— Senti na primeira noite.
Depois passou.
Ficou algo parecido com respeito pelo meu avô.
Porque ele não me deixou simplesmente uma terra, Tamara Ilyinichna.
Ele me deixou um papel de tornassol.
Mergulhei no copo e a família inteira revelou sua verdadeira cor.
Tamara ficou em silêncio, amassando o tecido do colete entre os dedos.
— Volte no outono, — disse finalmente.
— Vamos preparar um novo canteiro.
Mudas de dois anos.
Se quiser, plantamos a primeira fileira com as suas próprias mãos.
— Quero, — disse Veronika.
— O pato ainda vive aqui?
— Tem de todo tipo.
— Então vou trazer pão.
Ela se levantou, limpou a areia dos joelhos e caminhou em direção à água — sobre a terra que agora também se lembrava dela.
FIM







