Então pode engomar até os cadarços dos sapatos — e vá embora, — disse a esposa com firmeza.
Dina estava no supermercado quando recebeu uma mensagem do marido.

Curta, comum: «Uma colega vai passar aqui por meia hora, vamos discutir algumas questões de trabalho».
Estranho, claro.
Normalmente Vladimir não marcava encontros desse tipo em casa, preferia resolver tudo no escritório ou em um café.
Mas Dina pensou que talvez fosse mesmo alguma coisa urgente.
Dina voltou para casa com as sacolas de compras justamente no momento em que vozes vinham do hall de entrada.
Uma voz masculina conhecida — a de Vladimir — e uma voz feminina desconhecida, aguda.
Dina colocou as sacolas no chão e ficou ouvindo.
Alguma coisa na entonação daquela voz feminina a deixou em alerta.
Havia intimidade demais para uma conversa profissional.
— Dina, venha, conheça ela, — chamou Vladimir quando ouviu o barulho das chaves.
Na sala, sentada no sofá, havia uma jovem de uns vinte e cinco anos, morena, usando um leve vestido de verão.
Bonita, era preciso admitir.
Vladimir estava em pé ao lado dela, segurando duas xícaras de café.
— Esta é Elena, minha colega do departamento de marketing, — apresentou o marido.
— E esta é minha esposa, Dina.
Elena sorriu, mas alguma coisa indefinível passou por seus olhos.
Constrangimento?
Ou provocação?
Dina não conseguiu entender.
— Muito prazer, — disse Dina em tom neutro.
— Vladimir não comentou que vocês tinham funcionários novos.
— Elena trabalha conosco há seis meses, — respondeu Vladimir rapidamente.
— É que eu raramente falo de trabalho em casa.
Seis meses.
Dina fez as contas mentalmente.
Seis meses antes, Vladimir começara a ficar até mais tarde no trabalho, e surgiram viagens profissionais que antes nunca existiam.
Seis meses antes, o marido começara a chegar com um perfume diferente — não o dele, mas algo floral e desconhecido.
— Sente-se, por favor, — sugeriu Dina, apontando para a poltrona em frente ao sofá.
Elena assentiu e se acomodou na poltrona com uma naturalidade que revelava uma coisa: não era a primeira vez que estava ali.
Dina percebeu imediatamente.
Normalmente os convidados olham em volta, escolhem onde sentar, pedem licença.
Elena, porém, sentou-se como se já soubesse qual era o lugar mais confortável.
— Quer café? — perguntou Vladimir à esposa.
— Obrigada, eu mesma faço, — respondeu Dina, indo em direção à cozinha.
Da cozinha, dava para ouvir perfeitamente o que diziam na sala.
Dina ligou a cafeteira e prestou atenção.
Vladimir falava alguma coisa sobre uma apresentação, Elena respondia.
Mas as entonações…
Suaves demais, pessoais demais para uma conversa de trabalho.
— Você lembra de como discutimos esse projeto da última vez? — disse Vladimir.
— Claro que lembro, — respondeu Elena, e havia algo em sua voz que fez Dina congelar com a xícara nas mãos.
Eles não estavam falando de trabalho.
Pelo menos, não apenas de trabalho.
Dina voltou à sala com o café.
Vladimir agora estava sentado no sofá ao lado de Elena, mostrando alguma coisa no tablet.
Perto demais para simples colegas.
Dina se sentou na outra poltrona e começou a observar.
— Elena, conte um pouco sobre você, — pediu Dina.
— Onde estudou, de onde veio?
— Sou daqui mesmo, — sorriu Elena.
— Me formei em economia, depois trabalhei um pouco com publicidade.
E agora estou no marketing.
— Interessante, — assentiu Dina.
— Tem família?
Elena ficou imóvel por um instante, depois balançou a cabeça.
— Não, por enquanto estou livre.
Vladimir desviou o olhar.
Dina percebeu o gesto.
— Vladimir, por que você não mostra nossa varanda para Elena? — sugeriu Dina.
— Está tão bonita agora, as flores desabrocharam.
— Sim, claro, — concordou Vladimir.
Os dois foram para a varanda.
Dina ficou na sala, mas não fechou a porta.
Dava para ouvir tudo.
— Que varanda linda vocês têm, — disse Elena.
— Dina gosta muito de flores, — respondeu Vladimir.
— E você?
— Eu o quê?
— Gosta de flores?
Pausa.
Dina aguçou a audição.
— Eu gosto de muitas coisas, — disse Vladimir em voz baixa.
Dina se levantou e foi até a janela.
Vladimir e Elena estavam junto ao parapeito da varanda, muito perto um do outro.
Elena sussurrava alguma coisa, Vladimir assentia.
Então Elena tocou a mão de Vladimir.
Não por acaso, não de passagem.
De propósito, com carinho.
Dina se afastou da janela.
A situação estava clara.
Eles voltaram para a sala alguns minutos depois.
Vladimir parecia tenso, Elena estava levemente corada.
— Preciso ir ao banheiro, — disse Elena.
— Claro, — assentiu Dina.
— Segunda porta no corredor.
Elena seguiu pelo corredor.
Dina acompanhou com o olhar e percebeu que Elena foi direto para a segunda porta, sem olhar em volta, sem procurar.
Ela sabia onde ir.
— Boa funcionária, — comentou Dina quando ficaram sozinhos.
— Sim, competente, — concordou Vladimir, evitando olhar para ela.
— Vocês se conhecem há muito tempo?
— Eu já disse, ela trabalha lá há seis meses.
— Mas vocês poderiam se conhecer de antes.
Vladimir finalmente olhou para a esposa.
— O que você quer dizer?
— Nada de especial, — Dina deu de ombros.
— Só fiquei curiosa.
Elena voltou do banheiro.
Dina percebeu que a toalha de mãos não estava pendurada como naquela manhã.
Então Elena a havia usado.
Sabia onde ficava.
— Desculpe, onde posso lavar as mãos? — perguntou Elena.
Tarde demais.
Dina já tinha entendido tudo.
— No banheiro tem uma pia, — respondeu Dina calmamente.
— Ah, sim, claro, — disse Elena, constrangida.
Voltaram para a sala.
Vladimir ofereceu mais café e Elena aceitou.
Dina observou o marido preparando o café.
Sem açúcar, mas com leite.
Exatamente do jeito que Elena gostava — Vladimir sabia de cor.
— Como você gosta do café? — perguntou Dina a Elena.
— Sem açúcar, com leite, — respondeu Elena.
— Vladimir, e como você sabe disso? — perguntou Dina.
Vladimir congelou com a cafeteira nas mãos.
— O quê?
— Como você sabe de que jeito Elena gosta do café?
Você começou a preparar exatamente assim.
— Eu… ela comentou no trabalho, — murmurou Vladimir.
— Comentou para todo o departamento?
— Não, só… mencionou numa conversa.
Dina assentiu.
Tudo se encaixou.
— Elena, você costuma ir à casa de colegas? — perguntou Dina.
— Raramente, — respondeu Elena, e sua voz tremeu.
— Mas aqui você vem?
— É a primeira vez.
— Estranho, — disse Dina lentamente.
— E mesmo assim sabe onde fica a toalha do banheiro.
Elena corou.
Vladimir colocou a cafeteira bruscamente sobre a mesa.
— Dina, do que você está falando? — perguntou o marido.
— Estou falando do que estou vendo, — respondeu Dina, sentindo as mãos tremerem.
— Elena foi ao banheiro sem perguntar onde era.
Usou a toalha que fica no banheiro principal, não no lavabo.
Você sabe como ela gosta do café.
Ela se senta na poltrona como se estivesse na própria casa.
O silêncio tomou conta da sala.
Elena olhava para o chão, Vladimir alternava o olhar entre a esposa e a amante.
Dina sentiu algo apertar o peito.
Era aquilo.
Sete anos de casamento estavam desmoronando naquele exato momento.
— Talvez tenha sido só intuição, — tentou justificar Elena.
— Pode ser, — concordou Dina, tentando manter a calma.
— Ou experiência.
Vladimir limpou a garganta.
— Dina, você está fazendo uma tempestade em copo d’água.
— Estou? — Dina se levantou da poltrona.
— Então vamos esclarecer a situação.
Elena, diga sinceramente: é mesmo a primeira vez que você vem à nossa casa?
Elena levantou os olhos.
Havia desespero em seu olhar.
— Eu… — começou Elena, mas parou.
— Pode não responder, — disse Dina.
— Eu já entendi tudo.
Dina foi até a janela e olhou para fora.
Verão, sol, pessoas caminhando pela calçada, vivendo suas vidas.
E ali, dentro daquele apartamento, mais uma família estava desmoronando.
Dina cerrou os punhos, tentando controlar a raiva crescente.
— Vladimir, — chamou Dina sem se virar.
— Sim?
— Há quanto tempo isso dura?
— O quê?
— Não se faça de idiota.
Há quanto tempo vocês estão tendo um caso?
Vladimir suspirou pesadamente.
Elena soluçou.
Dina se virou: o rosto do marido estava pálido, culpado.
— Dina, não é o que você está pensando, — disse Vladimir.
— Então o que é?
— É… difícil de explicar.
— Tente, — Dina cruzou os braços sobre o peito, sentindo a raiva crescer.
— Nós não planejamos, — começou Vladimir.
— Simplesmente aconteceu.
Elena começou a trabalhar lá, nós começamos a conversar…
— Conversar, — repetiu Dina.
— E há quanto tempo vocês “conversam”?
— Quatro meses, — disse Elena em voz baixa.
— Quatro meses, — Dina sentiu a própria voz tremer.
— E nesses quatro meses você, Vladimir, nunca pensou em me contar a verdade?
— Eu não sabia como contar.
— Não sabia, — Dina riu amargamente.
— Mas sabia como trazê-la para casa fingindo que era apenas uma colega?
— Eu queria que você conhecesse Elena, — murmurou Vladimir.
— Percebi que ela é uma boa pessoa.
— Uma boa pessoa, — repetiu Dina, sentindo uma onda de raiva subir.
— Que dorme com o marido de outra mulher.
— Dina, não fale assim, — pediu Elena.
— Não fale como? — Dina se virou para Elena.
— Não devo chamar as coisas pelo nome?
Ou não devo estragar o clima de vocês?
Elena se levantou da poltrona.
— Eu vou embora.
— Sim, — concordou Dina, contendo com dificuldade o tremor na voz.
— Vai.
E nunca mais volta aqui.
— Dina, não faça uma cena, — pediu Vladimir.
— Uma cena? — Dina sentiu tudo ferver por dentro.
— E o que você acha que eu deveria fazer?
Servir chá para sua amante?
— Ela não é minha amante, — protestou Vladimir.
— Então quem é?
Amiga?
Colega?
Ou talvez uma parente distante?
— Nós nos amamos, — disse Elena em voz baixa.
Dina congelou.
Aquelas palavras soaram como um tapa.
Eles se amavam.
Então não era apenas uma aventura, não era um acidente.
— Vocês se amam, — repetiu Dina lentamente.
— Entendi.
Dina foi até a cômoda e tirou alguns documentos.
A certidão de casamento, os documentos do apartamento.
Colocou tudo sobre a mesa, tentando impedir as mãos de tremerem.
— Muito bem, pombinhos, — disse Dina, surpresa com a própria calma.
— Este apartamento é meu.
Foi comprado antes do casamento, com o meu dinheiro.
Então, Vladimir, arrume suas coisas.
E você, Elena, pode levar seu amado embora agora mesmo.
Vladimir empalideceu.
— Dina, o que você está fazendo?
— Estou colocando ordem na minha casa, — respondeu Dina.
— Querido, este apartamento é meu, desde antes do casamento.
Então pode engomar até os cadarços — e vá embora.
Elena agarrou a bolsa.
— Eu realmente vou embora.
— Ótima ideia, — assentiu Dina.
— E leve este aqui com você.
Dina apontou para o marido.
— Dina, pare, — implorou Vladimir.
— Vamos conversar com calma.
— Com calma? — Dina ergueu uma sobrancelha.
— O normal seria trazer a amante para casa e apresentá-la como colega?
Ou o normal é mentir na minha cara durante quatro meses?
— Eu não menti para você.
— Não mentiu?
E as viagens de trabalho?
E as horas extras no escritório?
E esse perfume novo que fica em você?
Vladimir abaixou a cabeça.
Elena permaneceu perto da porta, sem saber se deveria ir ou ficar.
— Elena, — chamou Dina.
— Pode ir.
O espetáculo acabou.
— Vladimir, — Elena chamou o marido de Dina.
— Você vem?
Vladimir levantou a cabeça, olhou para a esposa e depois para Elena.
— Dina, talvez ainda possamos conversar? — pediu o marido.
— Não há nada para discutir, — respondeu Dina.
— A decisão está tomada.
— Que decisão?
— Vou pedir o divórcio.
— Dina, espere, — Vladimir tentou pegar a mão da esposa, mas Dina se afastou.
— Não tome decisões precipitadas.
Vamos pensar em tudo.
— Pensar? — Dina mal conseguia segurar as lágrimas.
— Você teve quatro meses para pensar em como me trair.
Agora é minha vez de pensar.
— Mas o divórcio… é algo sério, — murmurou Vladimir.
— A traição também é algo sério, — respondeu Dina.
— Elena, você ainda está aqui?
Ou está esperando que eu a acompanhe até a porta?
Elena olhou para Vladimir e depois para Dina.
— Vladimir, eu realmente vou embora, — disse Elena baixinho.
— Não, fique, — pediu Vladimir.
— Dina, ela não tem culpa de nada.
— Não tem culpa? — Dina sentiu tudo se revirar dentro dela.
— Interessante.
Então de quem é a culpa?
— É minha culpa, — admitiu Vladimir.
— A culpa é toda minha.
— Perfeito, — assentiu Dina.
— Se a culpa é sua, então também será você quem vai pagar pelas consequências.
Dina tirou outra pasta de documentos da cômoda.
— Aqui está o contrato de compra e venda do apartamento, — disse Dina, balançando os papéis.
— A data é de um ano antes do nosso casamento.
A compradora sou eu.
O vendedor é a construtora.
Tudo está limpo e dentro da lei.
Vladimir examinou atentamente os documentos.
— Dina, eu entendo que o apartamento é seu, — disse Vladimir.
— Mas podemos chegar a um acordo.
Em sete anos de casamento acumulamos muitas coisas.
O carro, a casa de campo, as economias…
— Chegar a um acordo? — Dina percebeu que o marido estava tentando negociar.
— Sobre o quê?
— Me dê um tempo para pensar, — pediu Vladimir.
— Vou terminar minha relação com Elena, podemos tentar começar de novo.
— Vai terminar a relação? — Dina olhou para Elena.
— Esqueceu de perguntar a ela?
Afinal, vocês se amam.
Elena ficou perto da porta, sem saber o que dizer.
— Eu não quero destruir a família de ninguém, — sussurrou Elena.
— A família já está destruída, — respondeu Dina.
— Há quatro meses.
— Dina, eu te imploro, — Vladimir se sentou no sofá e colocou a cabeça entre as mãos.
— Eu entendo tudo.
Eu errei.
Mas me dê uma chance de consertar as coisas.
— Uma chance? — Dina se sentou em frente ao marido.
— Quantas chances você deu ao nosso casamento quando conheceu Elena?
Quando começou a sair com ela?
Quando a trouxe aqui pela primeira vez?
— Pela primeira vez? — repetiu Vladimir.
— Não foi a primeira vez, — disse Dina.
— Elena conhece esta casa bem demais.
As toalhas, a disposição dos cômodos, onde ficam as coisas.
Quantas vezes vocês se encontraram aqui?
Vladimir ficou em silêncio.
Elena se virou para a janela.
— Não importa, — disse Dina, sentindo o cansaço chegar.
— O importante é que isso não vai acontecer mais.
Dina se levantou, foi até o armário e tirou uma grande bolsa de viagem.
— Aqui, — disse Dina, entregando a bolsa ao marido.
— Arrume suas coisas.
Dou a você até amanhã de manhã.
— Até amanhã? — Vladimir levantou a cabeça.
— Dina, seja razoável.
Precisamos discutir tudo com calma.
Divisão de bens, documentos…
— Vamos discutir através dos advogados, — respondeu Dina.
— Amanhã de manhã vou entrar com o pedido de divórcio.
— E para onde eu vou? — perguntou Vladimir.
— Isso já não é problema meu, — respondeu Dina.
— Pode ir para a casa dos seus pais, para a casa de Elena ou para um hotel.
— Dina, seja humana, — pediu Vladimir.
— Ficamos juntos durante sete anos.
Isso realmente não significa nada?
— Sete anos, — repetiu Dina.
— E durante quatro meses você levou uma vida dupla.
E sabe-se lá quanto tempo isso teria continuado se eu não tivesse descoberto.
Vladimir pegou a bolsa e se levantou do sofá.
— Está bem, — disse Vladimir.
— Eu entendo.
Mas pelo menos me dê tempo para encontrar um advogado e entender os documentos.
A casa de campo está no nome dos dois, o carro também, as economias…
— Vamos resolver isso no tribunal, — cortou Dina.
— Você vai receber o que tiver direito pela lei.
— Dina, — interveio Elena.
— Talvez não seja preciso tomar uma decisão tão radical.
— Você ainda está aqui? — Dina se surpreendeu.
— Achei que já tivesse ido embora.
— Eu… — Elena hesitou.
— Não sei o que fazer.
— Sabe sim, — disse Dina.
— Vá para casa.
Pense no que vocês fizeram.
E amanhã decida se está pronta para viver com um homem capaz de uma traição dessas.
Elena assentiu e pegou a bolsa.
— Vladimir, eu ligo para você amanhã, — disse Elena e saiu.
Dina e o marido ficaram sozinhos.
Vladimir estava em pé com a bolsa nas mãos, sem saber por onde começar.
— Vá arrumar suas coisas, — disse Dina.
— Apenas seus pertences pessoais.
Não toque nos aparelhos que compramos juntos.
Isso também será resolvido judicialmente.
— Dina, — chamou Vladimir enquanto se dirigia ao quarto.
— O quê?
— Quero que você saiba de uma coisa.
Eu não queria que terminasse assim.
— Não queria, mas terminou, — respondeu Dina.
— Acontece.
— Você vai me perdoar algum dia? — perguntou Vladimir.
— Não sei, — respondeu Dina com sinceridade.
— Talvez daqui a alguns anos.
Ou talvez não.
— Vou tentar reconquistar você, — disse Vladimir.
— Não perca tempo, — aconselhou Dina.
— Cuide melhor da sua nova vida.
Vladimir foi arrumar as coisas.
Dina ficou na sala e pegou o telefone.
Discou o número da amiga Svetlana.
— Sveta, sou eu, Dina, — disse Dina ao telefone, tentando impedir a voz de tremer.
— Pode falar?
— Claro, — respondeu a amiga.
— O que aconteceu?
Você está falando estranho.
— Vladimir está me traindo, — disse Dina, sentindo as lágrimas se aproximarem.
— Estou expulsando ele de casa.
— O quê?! — exclamou Svetlana.
— Você tem certeza?
— Absoluta, — respondeu Dina.
— Hoje ele trouxe a amante para casa fingindo que era uma colega.
Achou que eu não ia perceber.
— Que cara de pau, — indignou-se Svetlana.
— E agora?
— Amanhã vou pedir o divórcio, — disse Dina.
— Ainda bem que o apartamento é meu.
— Você está certa, — apoiou a amiga.
— Mas o divórcio demora.
Vai ter tribunal, divisão de bens.
Precisa de ajuda para encontrar um advogado?
— Obrigada, — respondeu Dina.
— Amanhã eu mesma encontro um.
Só queria contar.
— Aguente firme, — disse Svetlana.
— Se precisar de alguma coisa, me ligue a qualquer hora.
Dina desligou.
Do quarto vinham ruídos — Vladimir estava arrumando suas coisas.
Uma hora depois Vladimir voltou para a sala com uma bolsa cheia.
— Peguei só o necessário, — disse Vladimir.
— O resto busco depois.
— Avise antes, — assentiu Dina.
— Deixe as chaves na mesa.
Vladimir tirou as chaves do bolso e colocou sobre a mesa.
— Dina, — disse Vladimir.
— Quero que você saiba de uma coisa.
Eu não queria que acabasse assim.
— Você já disse, — respondeu Dina.
— Você vai me perdoar algum dia? — perguntou Vladimir.
— Não sei, — respondeu Dina honestamente.
— Neste momento nem sei o que estou sentindo.
— Obrigado pelos sete anos, — disse Vladimir.
— Obrigada pela lição, — respondeu Dina.
Vladimir saiu.
Dina ouviu a porta bater e os passos na escada ficarem cada vez mais distantes.
Silêncio.
Dina se sentou no sofá e finalmente se permitiu chorar.
Na manhã seguinte Dina acordou no sofá, sem sequer ter conseguido chegar até a cama.
A cabeça doía e os olhos estavam inchados de tanto chorar.
Mas sua decisão não havia mudado.
Dina pegou o telefone e discou o número de um escritório de advocacia.
— Bom dia, — disse Dina à secretária.
— Gostaria de marcar uma consulta sobre divórcio.
— Quando seria conveniente para você? — perguntou a secretária.
— Hoje, — respondeu Dina.
— O quanto antes.
— Daqui a duas horas serve?
— Perfeito, — concordou Dina.
Depois de marcar a consulta com o advogado, Dina tomou banho e se arrumou.
Pegou os documentos do apartamento, a certidão de casamento e os comprovantes de renda.
Tudo o que pudesse ser necessário.
Dina passou uma hora e meia com o advogado.
Descobriu que o divórcio não seria tão simples quanto parecia.
Os bens adquiridos durante o casamento teriam de ser divididos: o carro, a casa de campo, as economias.
Vladimir tinha direito à sua parte apesar da traição.
— A infidelidade não interfere na divisão dos bens, — explicou o advogado.
— Você pode pedir o divórcio por «diferenças irreconciliáveis».
Se seu marido não se opuser, o processo pode levar cerca de um mês pelo cartório.
Se ele contestar ou exigir divisão de bens, será necessário recorrer ao tribunal e isso levará no mínimo três ou quatro meses.
— E o apartamento? — perguntou Dina.
— O apartamento é totalmente seu, — confirmou o advogado.
— Foi comprado antes do casamento e os documentos estão em ordem.
Seu marido não tem direito sobre ele.
— Ótimo, — assentiu Dina.
— Vamos iniciar o processo.
Naquela noite Dina ligou para um chaveiro.
— Preciso trocar as fechaduras, — disse Dina.
— Pode vir hoje?
— Claro, — respondeu o chaveiro.
— Chego em uma hora.
Dina desligou.
Fechaduras novas, vida nova.
Era hora de começar de novo.
Um mês depois Vladimir assinou o consentimento para o divórcio.
Aparentemente, percebeu que não havia chance de reconciliação.
Mas a questão dos bens acabou sendo mais complicada.
— Dina, preciso da metade do valor da casa de campo, — disse Vladimir ao telefone.
— E do carro também.
Nós compramos juntos.
— Eu sei, — respondeu Dina.
— O advogado explicou tudo.
Vamos dividir pelo tribunal.
— Não podemos chegar a um acordo como pessoas civilizadas? — pediu Vladimir.
— Você tirou de nós a possibilidade de resolver as coisas como pessoas civilizadas quatro meses atrás, — respondeu Dina.
As disputas judiciais se arrastaram por seis meses.
Vladimir exigia metade de tudo o que havia sido adquirido durante o casamento.
Dina não contestou — a lei estava do lado dele.
A casa de campo teve de ser vendida e o dinheiro dividido ao meio.
O carro também foi vendido, e cada um recebeu sua parte.
As economias foram divididas de maneira justa.
— Então quer dizer que a traição não custa nada? — perguntou Dina ao advogado depois da última audiência.
— Infelizmente, na divisão de bens a infidelidade não é levada em consideração, — respondeu o advogado, abrindo os braços.
— Mas você conservou o principal: o apartamento.
Isso não é pouco.
Dina assentiu.
Sim, o apartamento continuava sendo dela.
A casa que havia comprado com seu próprio esforço e seu próprio dinheiro.
Ninguém poderia tirá-la dela.
Vladimir e Elena se casaram três meses depois do divórcio.
Dina ficou sabendo por conhecidos em comum.
Sentiu uma pontada.
Desagradável, mas não fatal.
— Eles foram rápidos, — comentou a amiga Svetlana.
— Nem passou um ano.
— Pelo menos agora estão sendo honestos, — respondeu Dina.
— Não estão mais escondendo.
— Você não se arrepende? — perguntou Svetlana.
— De quê? — Dina deu de ombros.
— De ter descoberto a verdade?
Não.
De ter passado sete anos com uma pessoa capaz de me trair?
Às vezes, sim.
Mas isso já ficou no passado.
— E não pensa em se casar de novo?
— Não tenho pressa, — respondeu Dina com sinceridade.
— Primeiro quero entender o que quero da vida.
Me acostumar a viver sozinha.
E, de fato, a vida voltou aos eixos.
Dina reformou o apartamento, mudou os móveis de lugar e renovou a decoração.
Apagou todos os vestígios da vida que havia compartilhado com Vladimir.
Inscreveu-se em um curso de língua estrangeira e começou a viajar.
Percebeu que a liberdade não era tão ruim assim.
Um ano depois, Dina encontrou Vladimir e Elena em um shopping.
Eles passeavam com um carrinho de bebê — aparentemente tinham tido um filho.
Vladimir parecia mais velho, algumas rugas tinham surgido.
Elena parecia cansada, a maternidade não estava sendo fácil para ela.
— Oi, — disse Vladimir ao notar a ex-esposa.
— Oi, — respondeu Dina.
— Parabéns pelo bebê.
— Obrigada, — assentiu Elena.
— É um menino.
— Como você está? — perguntou Vladimir.
— Bem, — respondeu Dina.
— Vivendo, trabalhando e aproveitando a vida.
— Não se casou de novo? — perguntou Vladimir.
— Ainda não, — sorriu Dina.
— Não tenho pressa.
Eles ficaram ali mais um pouco, falando sobre o tempo e o trabalho.
Uma conversa comum entre ex-cônjuges.
Sem agressividade, sem acusações.
O passado havia ficado no passado.
— Vamos, — disse Elena ao marido.
— O bebê está com fome.
— Sim, claro, — concordou Vladimir.
— Dina, desejo tudo de bom para você.
— Igualmente, — respondeu Dina.
Eles seguiram caminhos diferentes.
Dina os acompanhou com o olhar.
Uma família.
Um filho.
Rotina.
Responsabilidade.
Talvez Vladimir fosse feliz.
Talvez não.
Mas isso já não era problema dela.
Dina voltou para casa.
Sua casa, aquela que ninguém podia tirar dela.
Preparou um chá e se sentou perto da janela.
Lá fora o sol brilhava e a vida continuava.
Às vezes Dina contava sua história para amigas mais jovens.
Sempre terminava com um conselho.
— Meninas, comprem imóveis no próprio nome.
Antes do casamento ou durante, não importa.
O importante é ter documentos no nome de vocês.
Nunca se sabe o que pode acontecer na vida.
Ter uma casa própria não é apenas ter um teto sobre a cabeça, mas também ter segurança para o futuro.
Quando você tem sua própria casa, é mais difícil machucarem você e mais difícil colocarem você em uma posição de dependência.
E era verdade.
O apartamento comprado antes do casamento se tornou a salvação de Dina.
Não apenas um teto sobre a cabeça, mas também a possibilidade de preservar sua dignidade, de não se humilhar e de não implorar por misericórdia.
Ela podia se permitir ser firme porque sabia que, em qualquer circunstância, não ficaria na rua.
Vladimir, por outro lado, ao perder a casa, ficou em uma posição vulnerável.
Teve de alugar um apartamento e depois ir morar com Elena.
Começar uma nova vida do zero aos trinta e cinco anos.
Era justo?
Dina achava que sim.
Cada um recebeu o que merecia.
A traição tem um preço.
E é bom quando quem trai é obrigado a pagá-lo.







